Holocausto em Angola
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Holocausto em Angola


Excertos do livro de Américo Cardoso Botelho

Holocausto em Angola

Memórias de entre o Carcére e Cemitério
Publicados anteriormente em Rubellus Petrinus 

Introducção 

Angola 1975. Enquanto em Luanda, sob o troar dos canhões na batalha de Kifangondo, Agostinho Neto proclama, perante a África e o Mundo, a independência de Angola, em simultâneo, em Carmona, hoje Uige, e em Nova Lisboa, hoje Huambo, os ainda aliados, Holden Roberto e Jonas Savimbi, proclamavam a efémera República Democrática de Angola. O que resultou dessa dupla e antagónica proclamação foi uma das mais sangrentas guerras fratricidas que dizimou para cima de 100.000 pessoas para só falar de angolanos.

A maior parte deles, presos, torturados e assassinados sumariamente sem culpa formada e sem um julgamento legal. Sobretudo pós 27 de Maio quando, face ao golpe Nitista, os ânimos e ódios se extremaram e Agostinho Neto, sedento de poder único e absoluto, não olha a meios, mesmo os mais sanguinários, para o conquistar e deter. As prisões e campos de concentração vão-se enchendo de cidadãos, nacionais e estrangeiros, acusados dos crimes mais diversos e inimagináveis. A terra angolana cobre-se assim de sangue numa escalada de violência e de crimes nunca vista. Com o auxílio dos soviéticos e dos cubanos, o MPLA, Agostinho Neto e as forças da ordem, Disa e militares, não poupam nenhum dos considerados opositores ou discordantes do regime ditatorial que pretendem impor e os fuzilamentos em massa começam a entrar na ordem do dia. É neste cenário terrível que o Autor deste livro, Américo Cardoso Botelho, se vê detido e mergulhado na masmorra de uma prisão onde diariamente são cometidos os maiores atentados à vida e aos direitos humanos. Durante cerca de 5 anos, Américo Cardoso Botelho conhece os horrores desse inferno prisional e mercê de uma coragem excepcional não só resiste às provações que lhe são impostas como consegue registar tudo o que vê e lhe contam outros prisioneiros, alguns deles hoje ainda vivos e citados no livro. Os casos de barbárie e crueldade humana a que assiste e lhe são transmitidos são narrados com uma isenção exemplar, não por ajuste de contas ou retaliação das penas sofridas, mas por uma assunção de justiça e julgamento dos principais autores desses crimes (alguns deles a ocuparem hoje lugares de relevo no governo de José Eduardo dos Santos), pela memória de todos quantos foram vítimas desses crimes e em respeito às famílias que ainda hoje ignoram onde param os corpos dos seus parentes para fazerem o luto e as honras funerárias.

Contextualizando as circunstâncias históricas e politicas que estão na raiz dessa luta sangrenta e fazendo eco do sofrimento, tortura e morte de muitos dos seus colegas de prisão, Américo Cardoso Botelho dá-nos um testemunho impressionante e de inestimável valor para que, à semelhança do que aconteceu em Nuremberga em relação ao holocausto nazi, as entidades internacionais se detenham nesse outro holocausto e promovam o julgamento de todos quantos estão na sua origem.

Dr. Assírio Bacelar, Editor

agostinho neto

 

Indíce

Sumário 15
I Abertura  19
A grande “invasão”  20
A descida ao inferno angolano  24
Crimes de guerra, crimes contra a humanidade  28
II Da Diamang aos calabouços angolanos  37
Navegações inversa
A Diamang  44
Memórias do Dundo  49
O Museu do Dundo  49
“Aqui foi tudo dizimado”  50
O inferno prisional  52
Começo da viagem  52
Reportagem francesa  55
III Agostinho Neto, o MPLA, ou a vontade de poder  57
O Presidente Agostinho Neto: fragmentos  57
Depois de assinados os acordos de Alvor  57
“O MPLA é o Povo… e o Povo é o MPLA”  63
Neto e a DISA  64
“Camarada presidente, quando acaba a independência?”  66
Fundadores do MPLA e heróis da independência  67
Conversas com Marciano Pinto de Andrade  67
Breve colóquio com a mãe de três sobrinhos de Mário Pinto de Andrade  69
Daniel Chipenda, o desencanto  70
Tito Gonçalves  72
Castro Lopo, Bogalho e João Baptista  74
A Igreja Católica denuncia o holocausto angolano  76
A profecia de Agostinho Neto  76
Testemunhos dos Bispos da Igreja Católica  79
IV «Onde está o teu irmão?» — 27 de Maio de 1977  85
Os acontecimentos  85
A madrugada da revolta  85
Na sede da DISA 87
Limpeza militar  89
Tibério, uma testemunha dessa “morte à pressa”  91
Uma noite no Ministério da Defesa  92
Na barra do Cuanza 93
O tribunal popular revolucionário  95
27 de Agosto de 1975: um julgamento popular em Luanda  95
Julgamento popular no Calulo  97
“Temos ordem do Presidente para matar”  98
Quando chega uma sentença  99
O Tribunal em São Paulo  99
Agosto de 1980: fuzilamento de “unitas”  102
Actores e testemunhas  107
Carlos Macedo e José Agostinho  107
Silas, um dissidente  109
Um informador fala do 27 de Maio  109
José Pacheco Lucas de Carvalho Paixão  110
Shaba, o sono interrompido a ferro e fogo  110
O luto negado  111
Tito e Kiferro  113
Uma carta do pai de Nito Alves  113
Os estudantes são forçados a regressar  114
Viva Nito Alves!  114
Raimundo, uma festa que acabou mal  115
Destinos traçados 116
José Mingas (Jaloma)  116
A execução dos disas  117
Bakalof, uma execução exemplar  118
Jacob  121
Noites de São Paulo  122
A execução dos Comissários Provinciais  124
Ministro em São Paulo  129
Ho Chi Min — o crepúsculo de um guerreiro 131
O comandante Terramoto  131
Major Tonton  132
Valles  137
Rui Malaquias  140
Capitão Joaquim Simão  141
O Comandante Sianuc  142
Sambala, tocha humana  143
Manico, às portas da loucura  143
Rui Coelho  144
Gango, um jovem mecânico  145
Sabata  145
Carvalho da Ilha  146
Um fnla enforcado  147
Aninhas, irmã do comandante Kassange  148
Um alferes da UNITA  148
Hoy Ya Henda e Jika  149
O piloto Rosa  150
V Prisões e campos de concentração em Angola  153
A clausura do horror: o inferno prisional depois do 27 de Maio  153
A barbárie mora nas fortalezas  157
Kibala, um gulag em Angola  158
A sentença de Neto  158
As transferências para a Kibala  160
Tira-Ranho, agente de esperanças goradas  163
A fabricação do terror  164
As formaturas  167
Trabalho de escravos  169
Doença e fome  170
O campo de concentração da Sapu  174
VI Vidas cruzadas  179
Clamoroso silêncio  179
A história repete-se  179
A Casa de Reclusão e a “cela 14”  180
Direitos humanos?  181
Cardápio de torturas  182
Os enganados da reconstrução nacional  184
O apelo  184
Chifuani  185
Gerard Kita  186
François Muia  186
O canto da sereia… outra vez  186
Eugénio Cordeiro da Mata  187
João Pedro Almeida  187
Cadeia de São Paulo, fragmentos de vida  188
Cadeia, centro de informação  188
Esquecidos ao sol  191
Jogo de futebol interrompido  191
O recolher obrigatório e as condições de vida  192
Agostinho Mendes de Carvalho: de Comissário a Ministro da Saúde  194
Henrique Burnay e a memória da minha detenção  196
O médico Manuel Videira  196
Gentil Viana: o preço da divergência  199
«Tratar da saúde»  202
Insanidade mental  205
Enfermeiros em São Paulo  207
“Diarreia de fruta”  208
Cortar o cabelo, um problema  209
Com os órgãos genitais flagelados e outras humilhações  209
Em fuga  210
Irmanados na tortura  211
A violência nas vésperas do Natal  213
Da morte nua e crua à morte lenta na Kibala  213
Juca, a violência de mão em mão  214
Lourenço da Silva  217
Vitorino, arrastado pelos degraus  217
Fernando Aleixo  218
António José Garcia  218
Visitas, mulheres e problemas familiares  219
Fernando Costa  223
Namorar é perigoso  224
Cenas de captura  224
Quando “coçar a cabeça” dá prisão  225
Rasoiro  225
Redinha e Araújo  226
Didi: tácticas de detenção  226
Luís Nunes  226
Costa Damby 227
Almeida José da Costa  228
Godfri  228
Amaral e Inferno  229
Rodrigues, “o quioco”  230
Vieira, de mãos atadas  230
Preso por divulgar informações  231
João, comissário da FNLA 231
O «disa» Pimenta  231
Pedro Augusto, uma voz de coragem  232
Gouveia Leite, um agitador  232
Testemunhas de Jeová  233
Memórias breves  234
O tenente, o sargento e o civil  234
Um comício diferente  236
Uma carta interceptada  236
Olnamia  237
Os meninos da guerra  237
Clamores nas paredes das celas  238
Se a árvore falasse…  239
Santos João, final antecipado  239
Pátria de trabalhadores?  240
Agressão no parque  241
Um terço, uma cruz e um presépio  242
Quando a manhã traz horas felizes  242
De como uma reportagem televisiva põe Luanda em apuros  243
Comentários às notícias da TV 243
Quando a tragédia solta o riso  244
Encomendas violadas  245
A “lição” de Onambwe  245
Greves de fome  245
Formas de comunicação  246
Quando o canto se levantava na noite  247
Içar a bandeira: uma cerimónia “de tanga”  248
Propaganda contra o “amiguismo”  248
Inferno e o “covil” de Neto  248
Miguel, o assistente de Kilombelombe  249
Doentes para fugir à guerra  249
Rusgas  250
Crónicas de um susto  251
Leituras na prisão e outras distracções  252
Leituras do “Jornal de Angola”  252
As “boas” leituras  253
Apanhado com uma revista sul-africana  253
Jorge Amado lido em voz alta  254
Leituras entre o divertimento, a perseguição e as ocupações  254
Tirar os óculos  255
Bichos e outras histórias  255
Bichos meus amigos  256
Alguns protagonistas da violência  257
N’Gakumona, um gatilho ágil  257
Correia Gaspar  259
Venâncio e Saturnino  259
António Manuel acusa o agente Lito  260
“mil cabeça”  260
As agressões de Nelo e Lopes  261
Rosa Mingas  261
N’Gunga  262
O agente Veloso, outra vez  262
Chega-e-mata  263
Osvaldo Inácio  263
Um sobrinho do tenente Pitoco  265
Dimuka  266
Sargento Ferro e N’Gunga  266
Capitão Tino  267
João e Fernando… presos e carcereiros  267
Privilégio e má fama  268
Ludy e Mariz Fernandes  269
O Ministro Kundi Payama  269
Payama visita São Paulo  269
Payama visita o inglês Malcom McIntyre  271
A propósito de um discurso de Kundi Payama, Ministro do Interior  272
VII Geografia do terror  273
Massacres no Bié e no Moxico  273
“Limpeza política”  273
Moxico: o terror concentrado  275
Simões do Luso  277
Os catangueses confirmam a existência de massacres no Moxico  278
Campos da vergonha  279
Lázaro  280
Severino Resende  281
…como se não bastasse  282
Memórias de Cabinda  283
Terra flagelada  283
Inferno, uma enciclopédia  285
Vasconcelos fala de São Nicolau (Bentiaba)  287
Pedro Maria Tonha (Pedalé)  288
O major Margoso  288
O discurso da reconstrução e da reconciliação  289
José Eduardo dos Santos desloca-se a Cabinda  290
Histórias da Huila  293
Huila sob fogo intenso  293
Conversas a três  294
Detenção de Lourenço Vasconcelos  295
O comandante Martinha  296
Testemunhos de Camacho  296
Distúrbios numa boda  297
A missão da Jamba  298
Testemunhas de Malange  298
D Alexandre Nascimento  298
Zeferino Campos  299
Loló Kitumba  301
Toni Marta, um dos carrascos de Malange  301
A prisão de Malange  302
Famílias alemãs na mira da violência  302
Notícias de Benguela  302
Vaga de execuções  302
Um industrial de Benguela  303
O Chacal traz notícias do massacre no Cuanza Norte  304
Algumas notícias do Huambo  305
VIII OCA — Vítimas da repressão política  309
“Nós somos os flagelados do vento Leste”  309
Homenagear a coragem… ou o preço do silêncio  309
Quando a violência escolhe os mais jovens  312
Quando a violência escolhe as mulheres  313
Perseguição em Portugal  316
Sanga — esboços para um diário de tortura  316
Fernando de Castro Paiva (Sanga)  316
As agressões não param  319
Visitas “ilustres”  319
O destino do café  320
Perante o Tribunal Popular Revolucionário  320
Memórias da coragem  321
Domingos João Baptista (Tchipongue)  321
O testemunho de João Faria  325
Luís Fernandes do Nascimento, um corpo de feridas  327
Domingos Lira Bravo Paulo, um caso de “recolher obrigatório”  329
Laz, o inferno pelo caminho  330
António Costa e Silva  331
Aprender quioco — crónica de um “conluio político”  333
Armando Lima Teixeira Júnior  334
Preparar o “Carnaval da Vitória” em São Paulo  334
Detenções, condenações e outras violências  336
Kissala  336
Pedro Lukau Panzo  337
Jota  338
Nelson Eduardo Guerra Pestana  338
Simão José Cacete  340
Irmãos Rasgado  341
Grupo “José Estaline”  342
“A cantiga é uma arma”  343
Os irmãos Aragão Neto  344
Uma recepção inesquecível  344
A privação de qualquer tratamento  345
Na senda da loucura  347
O irmão José  348
IX O império soviético e a «amizade» cubana  351
Angola sovietizada  351
Uma amizade com um preço elevado  351
Memórias da URSS  353
Contestatários da intervenção cubana em Angola  354
Angola como país invasor  356
Crimes de guerra contra a humanidade  357
O ofício da lamentação  358
“Estamos a andar para trás”  360
Cena soviética  361
Cinema soviético  361
Comitiva soviética em São Paulo  362
Directora Nacional em Moscovo  362
A última viagem de Agostinho Neto  362
Do Leste sovietizado para os calabouços angolanos  363
De Moscovo para São Paulo  363
Tatião e Zeca Pinho forçados a regressar da URSS  364
Regresso forçado da Roménia  367
Os “amigos” cubanos  367
Generais e assessores cubanos  367
Castro em Angola, a humilhação em casa  370
Conversas sobre cubanos  372
Crianças para Cuba  373
XI Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes  376
Medicina cubana  379
Prazeres e violência  381
De como ouvir Roberto Carlos se pode tornar um crime político  382
Voltando de Cuba  383
Um cubano impertinente  384
Arnaldo Ochoa e outros cubanos no Dundo  384
Gamboa, Major cubano  385
Escapar à inspecção cubana  386
Tiroteio nocturno  386
Uma outra colonização  387
O abastecimento dos Cubanos  387
Privilégios na cadeia  388
Movimento de rectificação  389
Acidente da revolução  390
A açucareira  390
Numa fábrica de cerveja, em Luanda  391
Luís Bandeira  392
X Portugueses nas cadeias angolanas  393
Os portugueses e os seus despojos  393
Portugueses nas cadeias angolanas  393
Fernando Carapinha  394
Alberto Pacheco  394
Mário Rodrigues da Graça  395
Enfermeiro vítima do roubo instituído  396
Pinto da Fonseca  396
Um homem das Beiras na Casa de Reclusão  397
Um dentista português  398
Carlos Manuel Baptista e Sousa  398
Teixeira e Luís Lopes na Casa de Reclusão  400
Deodato Francisco Barreto  401
Gil Pranto Morgado  401
Visitas diplomáticas  402
Jorge de Matos  403
Acusações e arbitrariedades  403
Os portugueses são chamados ao comando  403
Dez portugueses no Hospital Militar  404
Valdemar Teixeira  405
Virgílio Lourenço da Silva  406
Rui Ramos  408
Quando ler dá prisão  408
Olavo Parreira  409
Testemunhas privilegiadas  410
Mecânicos portugueses  410
Testemunhas de trágicos despojos  412
Oito portugueses deslocados da Kibala  413
O caso dos corações humanos  414
Carta para a sede da Amnistia Internacional  415
Notícia sobre um português  417
Um julgamento de portugueses  419
Fragmentos de vidas  420
Teles Grillo  420
Felisberto Pereira de Lemos e José Lello  421
Esposas e companheiras  423
José Inácio Costa Martins  424
Eurico da Silva Gomes  425
Uma mãe solícita  425
Memórias de um fotógrafo  426
Manuel de Campos Duarte  427
Manuel Ennes Ferreira  428
Maria do Céu Veloso  431
O “homem dos leões”  431
Germano, contador de histórias  432
António Garcia  433
Tentativa de fuga para o Zaire  434
O caso do português desaparecido  434
Liberdade sob ameaça  436
José Carlos de Jesus  436
Um português acusado de sabotagem económica  437
XI Outros estrangeiros no inferno angolano  439
Profissionais da guerra  439
Ingleses e americanos  439
Costas Georgiou, o “Callan”  441
“Aqui mercenários”  442
Para a fotografia  442
O meu amigo Gary Martin Acker  443
John James Nammock, da captura ao horror 445
Grillo, Martin e Wiseman recebem correspondência da família  446
O senador americano George McGovern  448
Outros diplomatas  450
Visitas diplomáticas sob escuta  452
Julgamento e fuzilamento dos ingleses e americanos  452
De como alguns estrangeiros conheceram as prisões angolanas  454
É proibido falar com os estrangeiros  454
Os estrangeiros servem a comida  455
O Chileno Martinez  456
Simon Bikumu, Embaixador espião?  456
Michel Balthazar  457
Zacarias Kalubi  459
Remi Daniel quer visitar Nathananel Mbumba  460
Um comandante belga  461
Milton Yoni Bama  461
Um americano, um dinamarquês e um namibiano  461
Um piloto americano  463
O caso do Chico Espanhol  464
Jacques, o argelino  464
George Reginald Gause Jr em Lisboa  465
A saga de Pio Deiana  466
Trágica passagem por Luanda  466
“Herói” na cadeia de São Paulo  467
Da coragem e da irreverência  469
Estratégias de uma fuga  472
Alemães no inferno angolano  474
Pão, açúcar e leite  474
Pilotos alemães  475
Sul-africanos e namibianos  477
Uma reedição de Nuremberga?  477
Tom Mabinda  478
Philip Masemola  481
William Dlamini  481
“Sexon” Pedro Makembo  482
Chico Nhlwothi (Aron)  482
Albert Magutle (Jomo)  483
Um agente namibiano assassinado  484
Peter Sheama  484
Frank Dirk Bokhorst: autor do retrato de prisão  485
John Van Der Mescht  486
Engenheiro sul-africano: de Kalweke à Casa de Reclusão  491
Os ataques sul-africanos no sul e a indiferença de cubanos e soviéticos  492
Mbeki  492
Marcus  494
Os zairenses, testemunhas privilegiadas  494
Os “cães zairenses”  494
Um rapto em Kinshasa  496
Chegados de Banza Congo  504
Retalhos de algumas vidas  505
Peterson  506
Tomar banho  506
Cossi José Daniel Fushion  507
José Tito  508
Piloto zairense à mercê dos ratos  510
São-tomenses, cabo-verdianos e guineenses  511
São-tomenses, um quebra-cabeças  511
Tibério Augusto Santana  514
Um cabo-verdiano entre a Kibala e o Hospital Psiquiátrico de Luanda  515
Tudo em família  516
Cidadãos da Nigéria, do Gana e da Tanzânia  517
Três embarcadiços  517
Greve de fome  518
O sofrimento de Timothy  518
Um ganês desassombrado  519
Seis tanzanianos  520
O medo da memória ou a memória do medo — para não concluir 521
APÊNDICE DOCUMENTAL  533
ÍNDICE DE FIGURAS CONSTANTES NO EXTRATEXTO  587
NOTA SOBRE O AUTOR 593
ÍNDICE GERAL 597

Prefácio

O autor chega a Angola nas vésperas da independência, em contra ciclo ao êxodo que então se assistia. De facto, a esperança que a paz e a unidade entre os angolanos anunciada, quer através de acordos bilaterais entre os três movimentos de libertação nacional, FNLA, MPLA e UNITA, quer através dos acordos de Mombaça e Alvor, já se tinha desvanecido, sucumbindo diante do desejo de supremacia de cada um dos movimentos de libertação sobre os outros, em todo o território ou, pelo menos, nas então designadas suas zonas de influência.

Desde Março de 1975 que confrontos militares opunham, num primeiro momento, a FNLA ao MPLA, em Luanda, e depois no norte de Angola, a que se seguiram confrontos entre o MPLA e a UNITA em Luanda e no centro e sul de Angola, e mais tarde, entre a FNLA e a UNITA no centro e sul de Angola. Estava traçado o caminho e nenhum esforço e empenho de mediadores voluntariosos de última hora conseguiria já parar essa viagem às profundezas do inferno do ódio entre irmãos.

É a uma Angola a ferro e fogo que o autor chega, quando milhares de residentes, angolanos e portugueses, desesperados, buscam em outros destinos a salvação para as suas vidas e bens, numa altura em que já tudo parece indicar que mesmo que à custa da destruição de todas as esperanças e com elas diversas infra-estruturas, já nada parará a guerra civil para a qual qualquer um dos movimentos de libertação vinha a preparar-se, não hesitando em estabelecer alianças com forças estrangeiras.

É pois neste cenário que, às zero horas de 11 de Novembro de 1975, enquanto em Luanda, com o troar dos canhões na batalha de Kifangondo como música de fundo, o então presidente do MPLA, Agostinho Neto, proclama “perante a África e o Mundo” a independência de Angola e a sua constituição em República Popular de Angola, em simultâneo, em Carmona, hoje Uíge, e em Nova Lisboa, hoje Huambo, os ainda aliados Holden Roberto, presidente da FNLA, e Jonas Savimbi, presidente da Unita, proclamavam a efémera República Democrática de Angola.

Apenas a República Popular de Angola sobreviveria, mercê de uma conjuntura internacional favorável aos aliados do Leste Europeu, constituindo-se, segundo Neto, “em trincheira firme da revolução em África”. O ambiente é pois de euforia revolucionária e como tal, para todos, quase só há uma de duas escolhas: ou se é revolucionário ou se é contra revolucionário e lacaio do imperialismo. Assim, aos que são identificados como tendo simpatia para com algum dos outros movimentos, resta renegarem essa simpatia – pela chamada autocrítica – ou sujeitarem-se a serem atirados para as cadeias, campos de reeducação ou de fuzilamento, com ou sem julgamento. E tudo isto porque numa revolução não há tempo a perder com formalismos, ainda que em negação da Lei Constitucional vigente, aprovada pelo Comité Central do MPLA, o partido dirigente da República.

O recurso à delação gratuita coloca facilmente um cidadão na situação de contra-revolucionário, agente da PIDE/DGS, agente da CIA, sabotador económico, traficante de diamantes, enfim o que quer que se possa imaginar e convenha aos interesses do denunciante: um sustozinho, uma longa detenção, a eliminação física? Uma denúncia à DISA, a polícia política do regime, pode ser o início de uma viagem ao inferno da tortura física ou psicológica, pois as provas deverão ser fornecidas pelo acusado e raramente pelo acusador.

As prisões e campos de detenção vão se enchendo de cidadãos, nacionais e estrangeiros, acusados de terem cometido os mais diversos e inimagináveis crimes. Além da pena que é a privação da liberdade, os detidos estão sujeitos aos caprichos dos seus carcereiros e agentes investigadores.

A explosão de violência e sangue que caracterizou a transição para a independência mal começava a ser esquecida quando o MPLA é atingido pela onda fraccionista, cujo auge é a tentativa de golpe de estado do 27 de Maio de 1977. Neutralizada a tentativa de golpe e à medida que se ia fazendo o rescaldo da situação, o discurso do Presidente Agostinho Neto endurecia, culminando, na sua segunda comunicação ao país, com a declaração de inutilidade de processos morosos para julgar os acusados de fraccionismo e dando, tacitamente, luz verde à perseguição torcionária e sanguinária exercida sobre todos quantos se veriam associados à intentona.

Inicia-se assim um período negro, cujo balanço não oficial, aponta para várias dezenas de milhar de cidadãos desaparecidos.

Ora é para este período que a obra nos remete. Um período sobre o qual se ergueu um autêntico muro de silêncio. Silêncio esse que nega respostas às perguntas dos familiares dos muitos desaparecidos, que procuram um local onde honrar a memória dos seus maridos ou esposas, pais ou filhos.

Para alguns esta obra trará o confronto com a descrição dos últimos momentos dos seus entes queridos. Será certamente um encontro doloroso, a derradeira notícia. O luto!

Sobre os primeiros anos da independência pouco ou nada foi publicado, especialmente no que aos campos prisionais diz respeito, além de algumas denúncias de organizações como a Amnistia Internacional, que aliás mantém aberto o dossier dos desaparecidos do 27 de Maio 1977.

Estas memórias, que em boa hora o autor decidiu trazer a público, confrontam-nos com factos por si testemunhados e outros repetidamente narrados por companheiros de infortúnio. Obviamente que perante tantos casos registados não terá sido fácil ao autor seleccionar, de entre eles, os casos apresentados.

Aos milhares de angolanos que sobreviveram à experiência das detenções, resta o desafio de trazerem a público as suas memórias, não tanto para ajustes de contas, mas a exemplo de experiências como a da Comissão da Verdade, instituída no fim do regime do apartheid, para estabelecerem as bases de uma verdadeira reconciliação.

Lisboa, 6 de Julho de 2007

Simão Cacete *

* Engenheiro electrotécnico, Membro Fundador da ACA – Associação Cívica de Angola e da Fpd – Frente para Democracia. Candidato Presidencial em 1992.

A descida ao inferno angolano

Circunstâncias que explico no capítulo seguinte conduziram-me às prisões angolanas, numa altura em que estava profissionalmente ligado aos destinos da Diamang. Aí conheci e recolhi as narrativas dos que experimentavam na carne e no espírito a violência de uma hegemonia partidocrática sustentada pela violação constante dos mais elementares direitos, num Estado sem direito. Aí me inteirei das dimensões tentaculares do poder do MPLA, poder que era uma ameaça até para os angolanos que viviam fora do território angolano.

O período em que estive na prisão coincidiu com um dos mais violentos na história da independência da nação angolana. Recentemente, o historiador Carlos Pacheco referia-se com justeza a esse tempo de brutalidades:

Nenhum militante do MPLA, supostamente tido como opositor a Agostinho Neto, escapou a esta e a outras crueldades das forças militares e de segurança. Caso da DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola, cujo director era o comandante Ludy Kissassunda) que transformou as prisões e os campos de concentração em verdadeiros infernos e onde, não raro, se espancavam os reclusos nas celas e nos pátios à vista de toda a gente. Chegando mesmo a matar-se à queima-roupa. Havia agentes da segurança que, com o maior despudor, se vangloriavam perante os presos, no decorrer dos interrogatórios, feitos debaixo das maiores brutalidades, que se em Cuba se tinham fuzilado 15. 000 vermes (sic), em Angola podiam-se fuzilar muitos mais.

As afirmações sublinhadas, ouviu-as o próprio historiador da boca dos agentes Geitoeira e João Baião, durante um interrogatório de cerca de duas horas, no presídio de São Paulo, em Luanda, na tarde do dia 31 de Maio de 1977. Segundo o testemunho de Carlos Pacheco, os verdugos colocaram várias vezes um fuzil de fabrico russo em cima da mesa, alegando que estavam ali para fazer “justiça sumária”, segundo vontade expressa de Agostinho Neto. E o historiador continua:

Durante três anos mantiveram-se milhares de jovens nas piores condições possíveis, em estado de privação total de liberdade, sem culpa formada, sujeitos a todo o tipo de maus-tratos. A penitenciária de São Paulo (em Luanda), por exemplo, abarrotava de presos políticos incursos em vários processos: 27 de Maio, Revolta Activa (à Revolta activa pertencia a fma-flor dissidente do MPLA), OCA (Organização Comunista de Angola), CAC’s (Comités Amílcar Cabral), e assim por diante.

Os odps participavam nas barreiras de controlo e, como tinham um grande conhecimento do terreno, eram muito eficazes. Às vezes “demasiado” eficazes, como daquela vez em que o carro de um diplomata da Roménia, por não ter parado num desses controlos, numa rua de Luanda, foi atingido, de tal forma que não sobreviveu ao ataque. Eram também eles que se encarregavam de hastear, de manhã, e recolher, à noite, a bandeira do MPLA em todo o território controlado por esta força política. Este sistema de vigilância, implementado entre 1975 e 1991, tornou todos os angolanos reféns do MPLA, no território angolano. Esta limitação drástica da liberdade de circulação estava ao serviço do autoritarismo partidário e, não raro, serviu arbitrariedades de todo o tamanho. Enquanto estive no Dundo, ao serviço da Diamang, precisei de um salvo-conduto para circular na área da companhia.

Durante os anos em que permaneci dentro dos muros das prisões angolanas, de 1977 a 1980, aproveitei toda a margem de manobra para fazer dessa estada um reservatório de memórias. Tirando alguns períodos de repressão mais musculada, consegui alguma liberdade de circulação dentro da prisão — eu era para grande parte dos presos e carcereiros um cota inofensivo de quem poderiam obter algum tipo de ajuda. Um problema inicial se colocava: como registar a informação. O leitor saberá que o universo prisional é um antro de tabaco. Os invólucros dos maços de tabaco que todos deitavam fora tornaram-se o pergaminho da minha memória, permitindo a anotação de tudo o que ouvia e conversava com os companheiros de destino, num código por mim forjado, a partir da minha já remota experiência militar (Departamento de Cifra do Quartel General do Comando Militar dos Açores). Apontava grande parte do que ouvia e via quando estava só — os períodos de recreio em que os presos viam televisão faziam parte do conjunto de situações privilegiadas.

O problema maior era a saída da prisão. Como sempre, estes regimes de violência arbitrária são também alfobres de corrupção. Assim, segundo expedientes que só conheci depois de sair de Angola, aqueles que me davam apoio faziam-me chegar à prisão malas da TAP com comida, roupa, sapatos e medicamentos — com as malas vinham muitos outros produtos pedidos, que eu nem chegava a ver, para satisfazer as autoridades que favoreciam a sua entrada. Como entravam, também saíam. Dentro desses sacos vinha ainda uma folha de cartão que lhes dava forma. Esse cartão foi o meu veículo de transporte e comunicação. Ele era constituído por inúmeras folhas prensadas que eu separava cuidadosamente. Depois voltava a juntá-las, mas agora com os meus manuscritos codificados, no interior delas.

A operação seguinte consistia em voltar a dar à folha de cartão o seu aspecto original. Tudo era recomposto com o auxílio de um pouco de cola e do peso do meu próprio corpo (até as capas de uma Bíblia foram, a certa altura, um veículo insuspeito). Quanto aos sapatos, o procedimento era similar. Descoladas as forras, enchimentos e solas, aí eram escondidos muitos apontamentos cifrados. Seguiam um destino em tudo semelhante às malas. Os sapatos conheceram, no entanto, uma ajuda suplementar, a dos zairenses. Estes eram a mão-de-obra usada na prisão para a distribuição da comida e outros afazeres. Ofereci-lhes muitas vezes roupa e sapatos. Muitos deles levaram-nos calçados para o Zaire, com material escondido, na altura da sua libertação (quando fui posto em liberdade, viajei de Lisboa a Kinshasa para recuperar toda essa informação). Assim, durante cerca de três anos e meio, emigraram da prisão uns quatro mil apontamentos, narrativas do quotidiano, desabafos, pequenas histórias de vidas, denúncias, um mar de observações e conversas que preencheu os dias do meu degredo.

Quando conheci de novo a liberdade, a minha primeira missão foi descodificar todos aqueles apontamentos, pois havia o risco de eu perder a memória de muitos dos pormenores que eram essenciais para a interpretação daqueles fragmentos. Foram oito meses de trabalho diário, realizado em Lisboa e Paris. O resultado foi uma vasta documentação de recolha oral que fechei no cofre de um banco. Demorei vários anos para ganhar a coragem a disponibilidade necessárias para transformar em livro a memória dessa experiência. O trabalho era gigantesco. Acabei por escolher dentro dessas notas um determinado percurso. O que aqui se apresenta corresponde, assim, a menos de metade dessas anotações.


O autor na prisão (foto livro)

São, portanto, páginas de memórias. As minhas, feitas dos rostos e das palavras dos que me confiaram os seus medos e a sua coragem, as suas histórias vividas e contadas. Por isso, também as deles, que aqui são honradas como se de mim fizessem parte, contando entre o que de mais sagrado estimo.

A memória dessas noites em que a violência abria as portas de ferro das celas sobrelotadas de gente e daquele cheiro dos dejectos humanos acumulados. O chamamento dos nomes, os berros e os pontapés, os passos de todos esses a caminho da pior tortura — com vista à extorsão de informações ou à assinatura de autos forjados — ou votados ao suplício mortal. As vozes de todos esses — uns mais contidos, outros mais impertinentes —, de vinte e sete nacionalidades, de tez e línguas diversas, alguns deles empurrados para a loucura. O choro dos que iam para a morte e o alívio dos que descobriam que o nome chamado não era o seu.

Entre essas vozes, jovens estudantes na militante procura da pátria almejada, militância não alinhada, carregando o pecado da discordância e, por isso, enclausurada entre os muros do inferno prisional angolano. Outros, presos por tão pouco: a cobiça de urna casa, um carro, um frigorífico. Os portugueses, porque alguém se queria apropriar dos seus bens (alguns trouxeram, em troca, balas no corpo), sem um mínimo de respeito pelos procedimentos diplomáticos (o mesmo desrespeito pela comunidade internacional se descobriu em alguns fóruns internacionais como a OUA e a ONU, onde foram algumas vezes solicitadas explicações aos poderes do MPLA).

A memória dos Comissários Provinciais de Malange e Benguela, que carregaram para a ambulância, que os levou para o destino do fuzilamento, a pá e a picareta com que haviam de cavar a sua sepultura. Dos 150.000 quiocos que ficaram sem médico durante mais de um ano depois de as forças do MPLA terem encarcerado arbitrariamente um dos médicos da Diamang. Dos presos seleccionados para o julgamento popular de Luanda, em 1975, condenados antecipadamente ao fuzilamento, mortos aos bocados perante uma multidão de dez mil pessoas transportadas para um estádio de futebol.

A memória de narrativas inimagináveis, como a de um rapto realizado em Kinshasa, patrocinado pelas forças do MPLA, aproveitando uma viagem oficial do Presidente Agostinho Neto; como a dos militares presos que foram transportados nos Boeing 737 da TAAG, amarrados ao chão do avião, cujos bancos tinham sido retirados; como a daquele musseque de Luanda, Sambizamba, que conheceu depois do 27 de Maio (golpe político-militar a que darei atenção em capítulo próprio) acções bárbaras de demolição — visando particularmente os tidos por participar no golpe —, onde ficaram soterradas mulheres e crianças; ou ainda como aquelas narrativas que se referiam à deslocação de tantos adolescentes para Cuba para instituições de educação que tinham a missão de os tornar pontas-de-lança dos planos de sovietização à escala internacional. Tenha-se em conta que o imperialismo soviético se baseava no credo leninista-trotskista da «revolução permanente». (…)

Da Diamang aos calabouços angolanos

Não se pode amar a África e namorar os regimes corruptos e os ditadores de opereta de África. Não se pode respeitar a soberania de um pais cujo presidente chama tropas estrangeiras para se defender do seu próprio povo e do seu exército. Não se pode apregoar a amizade com os africanos e conviver no melhor dos mundos com governos que os roubam, que os condenam à fome e à miséria e que chegam ao extremo de impedir e roubar o auxílio externo.

Miguel Sousa Tavares, Grande Reportagem, Agosto de 1998.

Navegações inversas

Desenvolvi o gosto pela escrita naqueles vinte anos em que dirigi o jornal Notícias da Azambuja. Mas a vontade de escrever um livro sobre Angola vem desde os primeiros dias em que pisei aquele solo africano e conheci um povo que aprendi a admirar. Estava-se precisamente na altura em que a jovem nação independente ensaiava os seus primeiros passos.

Em 1974, eu exercia as funções de administrador concessionário do Hospital de S. Francisco em Lisboa. A agitação social que se seguiu à «revolução dos cravos» teve um impacto grande no funcionamento desta clínica, ao tempo, a maior do país (cheguei a contar com a colaboração de 160 médicos); todos os dias, recebia notícias sobre a diminuição do pessoal médico. Por outro lado, sabia da prisão de alguns dos meus conhecidos. Recordo aquele dia em que, passando junto da sede da CUF (Companhia União Fabril), vi um aparatoso dispositivo militar — tinham acabado de prender o Dr. Jorge Mello. Destino mais dramático teve o Dr. Manuel Braamcamp Sobral, deputado e meu amigo, que acabou por falecer no meio desta agitação. O êxodo dos gestores para o Brasil e para a Europa já tinha começado, e eu próprio começava a equacionar a possibilidade de novas escolhas na minha vida, uma vez que a clínica não podia corresponder já aos meus objectivos empresariais.

Diamang surgiu no meu horizonte através de um outro interesse. O Dr. Lopes Cardoso, director dos serviços culturais da Diamang, tinha estimulado o meu interesse pelo Museu do Dundo, instituição que tinha a marca da dedicação do comandante Ernesto de Vilhena, durante muitos anos presidente da Diamang, que procurou adquirir aquilo que de valor encontrava pela Europa para o fazer regressar ao seu meio de origem. Este museu era bem conhecido nos meios museológicos, sobretudo através dos seus cuidados catálogos, publicados entre 1946 e 1975. Na qualidade de director do Museu da Azambuja, conhecendo bem as publicações do Museu da Diamang, depressa percebi que tinha de visitar aquela catedral da arte quioca. A data da independência de Angola aproximava-se — estava marcada para 11 de Novembro de 1975 —, e eu receava que depois dessa data tudo fosse mais difícil. Em Outubro de 1975, com o apoio diligente do Dr. Lopes Cardoso, empreendi essa viagem com destino ao Dundo.

Fui recebido no aeroporto pelo general Diogo Neto, que fora membro da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo general Spínola, mas se encontrava agora em Luanda com a missão, entre outras, de dirigir a actividade de uma frota de helicópteros cuja principal incumbência era a fiscalização das minas. Foi uma recepção acolhedora que me deu a conhecer um homem apaixonado por Angola. No entanto, como a intolerância do MPLA para com os militares portugueses se avolumava, Diogo Neto abandonou Angola ainda antes da independência.

Aqueles quinze dias foram de descoberta. Sob a extraordinária hospitalidade do Eng. Mário Paiva Neto, administrador da Diamang, e da sua esposa, Dona Flora, visitei o museu, mas também muitos outros equipamentos instalados nos 50.000 kmda concessão — a central hidroeléctrica, as oficinas, as áreas residenciais de grande qualidade, as instalações ligadas à pecuária, etc. —, e conheci as dificuldades que eram impostas pelas circunstâncias ao funcionamento da empresa. Dos dois mil funcionários, restava menos de uma centena. Como as estradas entre a Lunda e Luanda estavam bloqueadas, a empresa contratou aviõesHércules do Canadá , meio sem o qual não seria possível a distribuição de alimentação, vestuário e combustíveis, ou seja, não seria viável a sobrevivência.

Regressei a Portugal. Aí os acontecimentos continuavam a precipitar-se. Assim que voltei à clínica, recebi a visita de um agente policial que me notificou para estar presente numa reunião no Ministério do Trabalho. A mesma nota foi entregue na minha residência.

Fiz-me acompanhar do meu adjunto, Alfredo Freire. Eu tinha algumas suspeitas acerca da finalidade de tal convocação. Numa reunião de algumas dezenas de pessoas, quase todas desconhecidas, foi-nos comunicado que a partir daquele momento a clínica ficava sob “controlo operário.”

Nesse dia regressei a casa profundamente desanimado, a pé, porque não circulavam táxis, e tomei a decisão: dirigi-me a casa do Eng. Carlos Abecasis, presidente da Diamang, e ofereci-me para trabalhar nesta empresa, em Angola. Começava uma nova fase na minha vida, numa empresa que me fascinava, e onde vim a realizar grande parte do meu esforço empreendedor, em sectores como a saúde, a agricultura, a pecuária, os transportes aéreos, a gestão dos abastecimentos, etc. Poucos dias depois já eu voava rumo a Angola. Nesse voo — o último antes da independência angolana —, para além de mim, do presidente e de um outro administrador da Diamang, apenas viajava uma pequena comitiva de militantes do Partido Comunista Português, que se deslocava com o intuito de chegar a Angola antes da declaração de independência — ao todo, cinco passageiros num Boeing 747.

Recordo bem esse 9 de Novembro de 1975. Aproximava-se o dia da independência. Eu chegava, mas muitos empreendiam a navegação inversa. Nas imediações do aeroporto de Luanda amontoavam-se caixas e caixotes, malas e sacos, e outros volumes, e gente, numa azáfama inquieta de rostos marcados pela desilusão. Eu chegava, eles partiam, êxodos inversos que se cruzavam naquele palco de uma das maiores pontes aéreas jamais vistas. A mim, coube-me o privilégio de ser convidado do presidente da Diamang, o Engenheiro Carlos Krus Abecasis, que me instalou com ele no complexo da Diamang, em Luanda, as mesmas instalações que acolheram Savimbi em 1992. Já nesse edifício da Diamang, em Luanda, conheci o então major, hoje brigadeiro, Mariz Fernandes, de quem herdei algumas responsabilidades. Segundo o Alto-comissário Comodoro Leonel Cardoso, permaneceriam no território uns trinta e quatro mil portugueses, tendo já abandonado o território angolano uns quatrocentos mil. Neste número não deveriam estar contabilizados os milhares de portugueses e estrangeiros, talvez uns cento e quinze mil, que abandonaram Angola com destinos como África do Sul, Brasil, Zaire, França, para além de Portugal (muitos açorianos optaram por recomeçar a sua vida nos EUA).

Foi no dia 18 de Setembro de 1975. O almirante Leonel Cardoso usou a palavra pública num discurso difundido naquela que era, na altura, a emissora oficial angolana. Eram palavras de estímulo em relação ao futuro, que procuravam prevenir para a infelicidade que se podia adivinhar, mas que dão conta, também, da precipitação que arrastaria para o desastre o jovem país:

A independência terá de ser digna do povo angolano e desta orgulhosa nação. E é tal a confiança que Portugal deposita nas boas gentes desta esperançosa terra, que decidiu retirar de Angola todas as suas Forças Armadas antes do dia 11 de Novembro. A despeito de ter ficado acordado com os Movimentos de Libertação que poderíamos prolongar o período de retirada até 29 de Fevereiro do próximo ano, não o faremos. Assim não haverá tropas portuguesas em território angolano depois da independência […]. Aos portugueses que estão resolvidos a partir, não lhes pedirei que fiquem. Apenas lhes peço que pensem bem antes de abandonarem uma realidade perturbada e inquietante mas promissora, por um futuro cheio de incertezas e dificuldades, antes de deixarem o que, com o vosso esforço, construíram ao longo dos anos, para irem começar vida nova em condições adversas […]. Aos angolanos que a falta de segurança fez regressar às terras de origem, não lhes pedirei que regressem aos seus lugares de trabalho tradicionais e aos seus lares abandonados. Apenas lhes peço que considerem essa possibilidade e que não percam a esperança de em breve reconstruírem as vossas vidas. Angola precisa de todos os que a amam. Todos não serão demais neste enorme e promissor país que, em vez dos seus escassos seis milhões de habitantes, tem necessidades de, pelo menos, sessenta milhões.

No dia 1 de Novembro de 1975, já todos tinham percebido que não havia qualquer hipótese de conciliação dos diversos movimentos independentistas, apesar das pressões da OUA e de vários estadistas africanos. Em declarações a um semanário angolano, transcritas no Jornal de Angola, o Alto-comissário Comodoro Leonel Cardoso punha condições à sua participação nas cerimónias da independência:

Só com um Movimento eu não entrego o poder. Não vou às cerimónias de posse desse Movimento. Mas se um outro Movimento quiser vir, ainda aceito que se faça a cerimónia com dois Movimentos.

No dia 10 de Novembro de 1975, no Palácio do Governo, horas antes de, sob escolta terrestre e aérea, abandonar o solo angolano, o Alto-comissário leu uma mensagem: http://pissarro.home.sapo.pt/memorias21.htm

Dirijo-me a vós, neste momento único da história dos nossos povos, em que Angola vai nascer para a comunidade das nações e Portugal se retira definitivamente do continente africano […]. Lamento sinceramente não me ser possível tomar parte em qualquer cerimónia comemorativa na hora maior da vida do povo angolano, dado que, fazê-lo nas actuais circunstâncias, equivaleria da parte de Portugal a uma ingerência nos sagrados direitos que assistem àquele povo de decidir o seu próprio futuro […]. Portugal tentou, mas o impasse manteve-se até ao fim […]. Nestes termos, em nome do Presidente da República Portuguesa, proclamo solenemente […] a independência de Angola e a sua plena soberania, radicada no povo angolano, a quem pertence decidir das forças do seu exercício.

Quando no dia 11 de Novembro foi declarada a independência de Angola, eu estava no Consulado de França correspondendo a um convite do Cônsul, e foi aí que vi e ouvi o festival de tiros, balas e fogo que incendiava o entusiasmo e, por outro lado, despertava a apreensão. Segundo informações reunidas por Juan Benemelis:

A 11 de Novembro, dia da declaração unilateral da independência por parte do MPLA, existem mais de 7000 soldados cubanos nesse país. Durante os meses de Dezembro e Janeiro a escalada cubana,OPERAÇÃO CARLOTA, acelera-se, elevando primeiro a 12.000, depois a 22.000 e, finalmente, em Março, a 37.000 soldados as forças estacionadas em Angola. No entanto, existe no teatro bélico o equivalente a duas divisões cubanas, reforçadas com artilharia, tanques, aviação, helicópteros, etc. Em Fevereiro, a escalada logística soviética ultrapassa os 400 milhões de dólares.

A celebração da independência não escondia a vertigem da violência que já se desenhava. A pouco mais de dez quilómetros do local das cerimónias, mais precisamente numa povoação chamada Quifandongo, travava-se uma luta sangrenta: o Movimento de Holden Roberto pretendia conquistar Luanda a fim de impedir a proclamação unipartidária da independência da República Popular de Angola. Enquanto o MPLA exaltava as virtudes gloriosas da independência e da unidade nacional, os membros da FNLA que se deslocavam do norte para Luanda eram chacinados pelas armas do MPLA coadjuvadas pelo fogo cubano — os acordos de Alvor estavam cada vez mais condenados ao fracasso. (…) Ler: http://petrinus.com.sapo.pt/batalha.htm

A Diamang

As minhas primeiras responsabilidades incluíam todo o sector dos transportes aéreos e a colaboração com o Dr. Bernardo Reis no departamento, de abastecimentos. O mundo era vasto — casas de trânsito, cantinas, hospitais, trabalhadores, etc. — e exigia a contínua utilização de meios aéreos. Durante mais de um ano dirigi, assim, missões de transportes, com Hércules canadianos, de e para vários países; entre outros, Portugal, Camarões, Malawi, Botswana, Congo, etc. Os transportes aéreos faziam parte do meu pelouro, mas fotografias como a que era apresentada viriam a ser matéria suficiente para prosseguirem com a acusação de que eu era membro da CIA.


O autor (à esquerda) como Presidente da Câmara Municipal de Azambuja, 
na companhia de Henri Ford e do Embaixador dos EUA em Portagal, 
Almirante Anderson na inauguração de uma fábrica da Ford em 1964.

Mas a minha memória não se confina às recordações do que eu próprio fazia, ela evoca também o trabalho de tantos outros e os acontecimentos, uns pitorescos, outros surpreendentes e alguns assustadores em que me vi envolvido. Por vezes, despertava-se-me o espanto perante factos do mundo zoológico que eu desconhecia por completo. Lembro que, no Dundo, eu gostava de passear à noite por aqueles arruamentos ladeados por mangueiras. Foi numa dessas noites. A dada altura, começo a ver muita gente nas ruas, vozes de contentamento, tudo à cata de uma espécie de térmites que tinha invadido aquele espaço urbano. O contentamento era para mim um enigma, só decifrável quando verifiquei que a população fazia da bicharada um petisco — os quiocos chamavam-lhe tulango.(…)

O inferno prisional

Começo da viagem

A minha história pessoal acabou, assim, por se cruzar com os destinos da Diamang, na medida em que a minha viagem pelos calabouços angolanos coincidiu com o próprio processo de nacionalização da empresa.

No âmbito das minhas atribuições, na Diamang, vi-me na necessidade de ter de procurar no estrangeiro os alimentos e outros bens necessários ao funcionamento da companhia. Para isso contava com os aviõesHércules alugados à companhia canadiana. Esta era a solução mais viável diante dos 1400 km que separavam o Dundo de Luanda. Não se perca de vista que a insegurança que se vivia tornava perigosas muitas das vias terrestres

Chefiando várias missões do Hércules que fazia tais deslocações, podia, frequentemente, comprar algo daquilo que, em território angolano, seria impossível encontrar: o Herald Tríbune, a revista Times e o Financial Times, bem como vários jornais franceses, que eram algumas das minhas compras favoritas. Na minha casa, foram-se, assim, acumulando vários destes exemplares.


Super Hércules C130 (foto livro)

Alguém me chamou a atenção para algo fora do comum. Acontecia no porto. A tripulação canadiana acompanhou-me numa viagem de carro até ao porto. Aí, vi um barco de aspecto tosco, cheio de crianças e adolescentes, ultrapassando largamente a lotação, apresentando condições sanitárias de uma precariedade indescritível. Os canadianos ficaram à distância. Eu consegui aproximar-me um pouco mais. Tratava-se de um conjunto de crianças e adolescentes deslocados, dando testemunho das tentativas de despovoamento de Cabinda. Quando regressei ao Dundo, percebi que alguém, de entre a tripulação canadiana, tinha feito um registo fílmico daquela visão deprimente. Não tardou que eu fosse procurado pelos disas e que estes me exigissem a entrega do filme. Entrei em contacto com um dos membros da tripulação canadiana e recebi a indicação de que o autor do filme estava de férias em Londres. Fiquei de pés e mãos atadas, uma vez que nem tinha o filme nem maneira de chegar até ao seu autor. A partir desta altura senti que uma certa vigilância começava a dar lugar à perseguição, anunciando um desfecho pouco favorável ao desenvolvimento das minhas actividades em Angola.

Nos finais de Fevereiro de 1977, tinha eu acabado de regressar de Douala, nos Camarões, quando ouvi, surpreso, voz de prisão, sob as ordens do chefe da DISA no Dundo (embora eu não lhe conhecesse, até então, tais funções), um daqueles a quem não escapava nenhuma das minhas viagens na mira de obter para si a satisfação de qualquer necessidade ou extravagância. A noite tinha caído e eu estava já deitado. A campainha tocou, denunciando a violência que se avizinhava. Já a porta estava praticamente violentada quando lá cheguei para a abrir. A chave foi-me imediatamente confiscada e eu fui deslocado para uma moradia onde estavam já outros detidos (alguns da Diamang). O interrogatório foi cerrado, mas não conseguiram de mim mais do que um silêncio perplexo.

Tinha começado a minha viagem de degredo. Primeira estação, a Casa de Reclusão: homens e mulheres circulam vergados sob as marcas da humilhação e da violência desmedida; as primeiras ordens são para que nos dispamos, eu e os outros seis funcionários da Diamang que conheceram a mesma viagem; um estrado foi o único lugar possível de espera; dos parcos haveres que comigo levava deixaram-me apenas a roupa que tinha no corpo (situação que me acompanhou desde este três de Março de 1977 até finais do mesmo ano, altura em que, já na Cadeia de São Paulo, a minha esposa me pôde prestar assistência, levantado que foi o regime de incomunicabilidade). Exibiram a nossa nudez diante daqueles que por ali passavam, homens e mulheres, enquanto revistavam os nossos corpos e as nossas roupas. Depois desta recepção fomos instalados nas celas.

A primeira semana de cativeiro na Casa de Reclusão foi um verdadeiro baptismo de horror. Os gritos que, causados por torturas, habitavam a noite tornavam-na insuportável; semeavam em nós um medo dilacerante que crescia na incerteza do que sucederia no dia seguinte (o Major Tonton, de quem ainda falarei, confessou que temia mais estas torturas do que a própria morte); nem os muros continham a violência dos bramidos.

Nas conversas possíveis fui descobrindo que parte dos reclusos não conhecia a acusação que sobre eles pendia; alguns estavam convencidos de que a sua prisão era apenas o contexto favorável para o assalto aos seus bens; outros viviam sob a acusação de pertencerem à FNLA e à UNITA — esses mesmos eram prioritariamente escolhidos para as sessões de tortura. Zeca Pinho — um dos altos responsáveis da Casa de Reclusão de que damos notícia — tinha carta branca de Onambwe para presidir a tais liturgias de sangue e nervos.

Quando a noite caía, Zeca Pinho descia do Comando, no 1.° andar, até ao rés-do-chão onde estavam as celas. Acompanhava-o um séquito de peritos: Tira Ranho, Cemitério, Talahady, entre outros. Não vinham sós — não faltava já a companhia do álcool e da liamba. As luzes da Casa de Reclusão acendiam-se num cânone de pânico crescente. Quando abriam as celas chamavam os eleitos, já previamente designados e inscritos numa lista que acompanhava aquela procissão de carrascos. O chamamento das vítimas era auxiliado por perguntas provocatórias e “reeducadoras”: “És do MPLA?”, “Quem manda em Angola?”… Ao cortejo dos carrascos juntava-se, então, uma procissão de vítimas que tomava a direcção do 1.° andar até ao teatro da pancadaria, já previamente preparado para tais fins.

Quando me foi dada a permissão de ir tomar um pouco de sol, pude verificar, de modo mais amplo, os resultados daquelas noites de selvajaria. Abundavam os rostos desfigurados, os membros derreados, as feridas abertas, as cabeças chagadas, os corpos que recusavam a roupa porque se encontravam revestidos de escoriações — era o meu baptismo no inferno dos piores horrores.

Era já noite quando me transferiram para a Cadeia de São Paulo, não sem antes me tirarem os óculos, objecto que acharam dispensável na minha nova morada. Essa privação, à medida que os meses passavam, trouxe-me sérios prejuízos. Já em São Paulo ousei perguntar pelo economista Rui Castro Lobo e pelo médico Manuel Videira, meus colegas na Diamang, mas a resposta foi já no jargão da cadeia: um abrutalhado bofetão.

A cela do meu destino, nos seus cerca de 150 cm por 120 cm de nojo, tinha apenas um buraco que servia as funções de retrete; a água, não a pude ali conhecer. Para me deitar, faltava o espaço necessário — as pernas eram obrigadas a ficar na vertical, encostadas a uma das paredes.

Ao segundo dia, os interrogatórios continuaram. Hélder Neto, director da DISA, fez as honras da casa. A pergunta rebentou nas minhas mãos, como se de uma bomba de espanto se tratasse: “Quem te fez agente da CIA, quem te mandou vir para Angola?”. Não consegui melhor do que uma resposta curta e estupefacta: “Nada tenho a ver com a CIA”. Hélder Neto, com aquele ar de vitória ignorante, abriu uma das minhas pastas, roubadas no Dundo, para exibir os vários jornais estrangeiros que eu comprara na minha última viagem. Tentei introduzir alguma razoabilidade naquele diálogo, procurando que o inquisidor percebesse que aqueles eram jornais e revistas que eu já lia quando vivia em Lisboa e que nada tinham a ver com a CIA. Mas as “provas” não estavam esgotadas. As fotografias eram as provas que faltavam.(…)

A explicação de que se tratava de uma cerimónia civil na Azambuja, onde tinha sido presidente da Câmara, não me livrou de umas coronhadas furibundas na busca impaciente de uma qualquer confissão. A minha falta de cooperação prolongava o suplício e multiplicava as acusações como aquela que acompanhou a descoberta de um número já antigo da Paris-Match — prova de que eu seria, com certeza, da polícia política francesa. A sessão prolongou-se até à exaustão, e quando regressei à cela carregava já a ameaça de que seria fuzilado. Mas, duas semanas passadas, a sorte não sorria a Hélder Neto: enredado no assalto à cadeia empreendido pelas forças de Nito Alves viria a suicidar-se (segundo alguns testemunhos). Das informações que obtive dos zairenses, concluí que na confusão do assalto as minhas pastas acabaram por ser destruídas, e, de facto, nunca mais fui importunado com perguntas acerca do seu conteúdo.

“O MPLA é o Povo…e o Povo é o MPLA”

Com a subida de Neto ao poder, espalhou-se a retórica do partido: “O MPLA é o Povo. O Povo é o MPLA” — era o “unanimismo” a ferro e fogo ancorado numa série de forças repressivas que tinham como única missão sustentar o poder de Neto. Retenha-se este fragmento do discurso de Paiva Domingos da Silva, Comandante-Geral da ODP, proferido nas comemorações do 3.° aniversário da fundação daquela força paramilitar:

Quem nega a ODP está a negar o próprio Presidente doutor Agostinho Neto, porque ele é que deu esta parte. Mas como é que ele deu esta parte? Ele viu que os que abriram a ODP não eram iniciadores da luta e ele para fazer um exemplo ao povo pegou num grupo de sobreviventes do 4 de Fevereiro, deu para dirigir a ODP de Cabinda ao Cunene. Daí tem partido a cabeça de muitos lacaios dos imperialistas. Porque muitos não gostam que os sobreviventes do 4 de Fevereiro dirijam a ODP […]. Mas é necessário ultrapassarmos esta fase e vamos fazer uma vida que necessita o Camarada Presidente. Porque o Camarada Presidente quer portanto que o seu Povo viva livre. Como? Mobilizando as massas todas, sermos como por exemplo como o país socialista que é soviético, Hungria, Berlim, Jugoslávia e mais países socialistas.

Camaradas, bons militantes do MPLA-Partido do Trabalho:

Dia 13 de Setembro é o dia em que o Camarada Presidente deu esta farda da ODP. Porque a ODP é paramilitar, em conjunto com as FAPLA, DISA, Marinha e outros. Só assim é que poderemos fazer uma limpeza geral. Mas eu gostaria de explicar que entre esses órgãos não deve existir o eu pessoal. Devemos trabalhar todos em conjunto. Sabermos que temos um único pai que é o Presidente doutor Agostinho Neto, um único avô o Presidente doutor Agostinho Neto. Porque se criarmos aquela divisão, eu sou da ODP não sou das FAPLA, estamos a fazer aquela divisão. O Paiva se comete que é da ODP, tem que ser chamado a atenção e dar-lhe um conselho. Porque, por vezes, ser do Paiva ainda está cheio do lodo da escravatura, o lodo, isso quer dizer aquela doutrina que implantou o fascismo português. E aqueles que têm os conhecimentos políticos são as pessoas que devem ser mais pacíficas para poder chamar a atenção a esses que cometem os erros difíceis. Porque um filho, se lhe bate quatro vezes, à quinta já não vai obedecer porque já sabe, o seu corpo já está habituado com porrada. Ele não pode obedecer […].

Nós, em Angola, temos uma arma branca à nossa frente: é o tribalismo, o racismo e o regionalismo. Isso é a arma branca que temos porque o Macedo, quando matou o Virgílio Sotto Mayor, disse que quem começou com a luta é o Catete, quem mata é o Catete, quem assume as responsabilidades é o Catete. Hoje, portanto, 26 de Agosto, amanhã 27, vocês têm de ser mortos. Oh Paiva! Eu vou já entregar o documento ao Presidente para assinar. Esses amanhã têm de ser mortos porque não se pode admitir matar logo quatro famílias. Foi um erro militar. Porque se nós reconhecemos que era um erro militar eram chamados à pedra, porque nós, portanto, da luta em que estávamos a fazer, a FNLA estava a trezentos metros do prédio onde vivíamos e nós conseguimos expulsar a FNLA e continuamos até que se retirou o inimigo.

Logo depois deste discurso, o MPLA mobilizou os recursos necessários para um “julgamento popular” no campo da Académica, em Luanda. Mas o “povo” não iria julgar coisa nenhuma, pois, como é fácil de perceber, as sentenças daqueles que viriam a ser executados na unidade militar do Morro da Luz eram, na véspera do julgamento, já certas.

A ideologia dos tribunais populares imperava. Alguns tinham a ingenuidade de pensar numa espécie de constituição universal de tribunais populares, como concretização da internacionalização comunista. Segundo as minhas notas de cativeiro, aquele que ao tempo era Ministro da Justiça — de nome Diógenes Assis Boavida — fez uma afirmação curiosa na televisão angolana: “Vamos instalar tribunais populares em todos os países“. A afirmação foi objecto de gozo por parte dos presos que a ouviram. Mas esse lapso denunciava um substrato ideológico claro: o internacionalismo comunista agora na versão de uma hegemonia soviética que se queria cada vez mais à escala do mundo. Essa hegemonia era afirmada à custa dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, como bem ilustram as afirmações desse Ministro, no mesmo discurso, a propósito da advocacia privada, instrumento ao serviço da burguesia. Na sua óptica, só os defensores oficiosos garantiriam os direitos do povo. Com um sistema judicial e prisional, como aquele de que estas memórias dão testemunho, não é preciso acrescentar qualquer comentário a este programa político do Ministro angolano.


Dr.Diógenes Assis Boavida
(foto Net)

Neto e a DISA

O ordenamento jurídico era claro no tocante à estrita dependência da DISA em relação ao Presidente da República. Em termos operacionais, a DISA era superiormente orientada pela Comissão Nacional de Segurança do MPLA, órgão que, naquelas circunstâncias, era um parente muito chegado da Presidência da República. Isto é importante para que se perceba que o genocídio que manchou o solo angolano não poderia ter aquela dimensão sem o empenhamento de Agostinho Neto.

O testemunho de Carlos Macedo, ex-Presidente do Tribunal Militar, é a este respeito eloquente. Confessou-me que Neto e Onambwe discutiram com ele muitas vezes acerca do modo mais eficaz de realizar as execuções sumárias. Ambos dispensaram as suas próprias assinaturas para que tudo fosse mais rápido (e certamente para se livrarem de qualquer vestígio indesmentível). Aqui se terá enraizado o conflito entre Macedo e Neto. É que o Presidente do Tribunal Militar sabia que, sem a assinatura de Neto, não tardaria que aquele tribunal se visse obrigado a carregar a culpa daqueles autênticos crimes de guerra. Nestes jogos políticos muitas vezes se pretende que a culpa morra solteira ou caia sobre a cabeça de algum bode expiatório. Outra coisa não fez Neto quando a situação angolana foi referida na Conferência Africana de Monróvia: apressou-se a dar seguimento a uma daquelas vulgares operações de cosmética política, demitindo a Direcção da DISA e nomeando uma comissão de inquérito, como se ele não soubesse da natureza e extensão dos crimes de guerra que eram perpetrados em terras de Angola.


Onambwe carrasco da DISA (foto Net)

De facto, muitos comentavam que a DISA era o suporte principal da acção de Neto. Mesmo no que toca às deslocações pelo país. Sempre que Neto projectava uma viagem a determinada cidade ou um certo percurso numa das províncias, pedia à DISA um sumário da situação. O cálculo da proporção de descontentes era realizado a partir do número de presos e da estimativa de mortos sob o fogo das forças governamentais. Assim se previa uma visita mais demorada, uma visita-relâmpago, ou se suspendia pura e simplesmente uma deslocação para evitar constrangimentos ao Presidente.

Os Ministros do governo do MPLA reafirmavam pública e frequentemente a sua confiança nessa força sempre leal ao poder do MPLA. Talvez fosse essa confiança que legitimava os agentes quando proclamavam, por tudo e por nada, que tinham ordem do Presidente para matar.

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Mendes Carvalho outro carrasco da DISA (foto Net)

Foi a propósito de discursos como este que ouvi falar do caso de Nzambi (que, eloquentemente, quererá dizer “Deus”), o condutor daquela ambulância que nós sabíamos ser o carro da morte, que outras vezes será referida noutros passos destas memórias. Contava-se que, passando por Miramar, zona chique onde a Diamang possuía várias moradias, disparou sobre um angolano por causa de uma futilidade qualquer. O agente resolveu a situação com as costas protegidas. Foi à Casa de Reclusão buscar uns homens que o ajudaram a colocar o cadáver no carro e a depositá-lo, sem qualquer explicação satisfatória, na Casa Mortuária de Luanda. O caso foi muito falado na Casa de Reclusão. Os disas aprovavam o sucedido porque a vítima era certamente um burguês explorador do povo. Mas os presos estavam convencidos de que eles não conheciam sequer a identidade daquele que foi baleado.

A DISA encontrou um precioso auxiliar no sistema de vigilância da opinião e da propaganda noticiosa. Controlada por manobras de propaganda, a imprensa angolana é um bom espelho do regime de repressão que foi implementado em Angola:

Foi necessário extirpar o fraccionismo dentro do MPLA para que a revolução continuasse. Não houve tolerância em relação aos criminosos, e foi impedido o desenvolvimento da sua desagregadora acção.

No discurso de 12 de Junho de 1977, em Luanda, Neto observava:

O fraccionismo não começou a existir ontem, nem na semana passada. O fraccionismo existe desde a fundação do MPLA. Tivemos que combater vários grupos fraccionistas, que hoje estão totalmente entregues ao imperialismo. Em 1962/63, Viriato da Cruz conduziu uma ala fraccionista, ainda quando nós nos encontrávamos no exílio no Congo Kinshasa .


Viriato Cruz (foto Net)

Frequentemente a imprensa era o palco dos recados do regime para as nações inimigas — mesmo servindo-se das referências aos direitos humanos. Em Angola, a retórica dos Direitos Humanos servia para agredir as nações “inimigas” e não para corrigir as práticas políticas internas. O Jornal de Angola, de 6 de Agosto de 1982, dá conta de uma reunião de uma equipa de peritos da Comissão para os Direitos do Homem, na sede do MPLA, na “Assembleia do Povo”. Os jornais dos dias seguintes abriram as suas páginas às acusações de muitos dos que ali ouvidos se insurgiam contra as iniciativas da África do Sul. Mas nem uma palavra sobre as constantes violações dos direitos humanos dentro das fronteiras de Angola. Não que isto nos espante, mas recorde-se que já em 1978 a República Popular de Angola fez correr um selo postal que comemorava, precisamente, o trigésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem . Entre os angolanos abundavam comentários acerca deste gesto — num país onde as violações destes direitos se repetiam diariamente..

“Camarada presidente, quando acaba a independência?”

Os agentes da segurança que vinham parar à laje das prisões angolanas — muitos deles formados na ex-URSS, em Cuba e na antiga RDA — eram uma voz subterrânea de revolta, sempre pronta a confessar o horror semeado por terras de Angola.

Eles exprimiam a convicção clara de que o MPLA tinha falta de apoio popular. Os seus simpatizantes ficavam-se pela margem sul do Cuanza-Norte, pela margem norte do Cuanza-Sul, nas províncias de Luanda, Lunda e Malange. Todas as outras províncias, exceptuando Benguela, eram feudos de implantação de outros movimentos. Em particular, todo o centro e sul de Angola garantiam à UNITA um vasto apoio. Cada uma das deslocações de Neto pelo país era precedida de um relatório que avaliava com rigor a situação. Dois soviéticos dirigiam tais estratégias de segurança — e não era difícil medir o descontentamento e a revolta que tal gerava. Frequentemente, Neto tinha, pois, de se sujeitar a visitas-surpresa para que a população descontente não tivesse tempo de se organizar.

Aqueles agentes referiam, ainda, que Agostinho Neto, depois de semeado o medo e a morte por todo o país, era alvo de ódio em qualquer das províncias angolanas; ódio surdo às vezes, verbal outras. Só com a ajuda das forças estrangeiras, cubanas e soviéticas, pôde Agostinho Neto silenciar aquela raiva que tinha no rosto a memória de tantos desaparecidos, de tantos extermínios na calada da noite e no despudor da luz do dia. O silêncio sobre essa barbárie foi certamente favorecido pelo êxodo da maior parte dos estrangeiros em Angola. Era o terror sem o olhar do testemunho estrangeiro. Estou convicto de que esse êxodo não foi apenas uma consequência da conjuntura, mas, também, uma maquinação estratégica de Agostinho Neto.

Entre esta população prisional tornou-se proverbial o relato daquela visita que Neto fez à província de Malange, algum tempo antes de conhecer a morte. Aí encontrou a face da desolação e da destruição, da qual ele era o principal responsável. A sua intenção era, talvez, persuadir a população de que se tratava de um sacrifício necessário para que a revolução prosseguisse. Isso mesmo deve ter querido dizer aos sobas que com ele se reuniram — as testemunhas disseram-me que esses chefes locais se apresentaram perante o Presidente sujos e rotos, emblema da pobreza extrema em que viviam. Mas depois das suas palavras encorajadoras, prenhes de ideologia, veio a palavra alimentada de sabedoria. Um dos sobas, mais velho, não pôde conter a pergunta: “Camarada Presidente, quando acaba a independência?”. A sabedoria desarmou a ideologia. Os comentários sublinhavam que esta visita de Neto a Malange correu tão mal que cancelou a viagem que se seguiria até à província do Zaire. E regressou a Luanda.

Fundadores do MPLA e heróis da independência

Conversas com Marciano Pinto de Andrade

Sobrinho de Mário Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA, Marciano Pinto de Andrade foi meu companheiro, em São Paulo, durante uns três anos. Com ele tinham sido presos, também, dois irmãos seus, hoje professores universitários, e o Gentil Viana. Um deles, o Marciano, já faleceu. Ele conhecia muitos dos recompensados pela violência do regime. Acerca de Kito dizia-me Marciano Pinto de Andrade que, antes do 27 de Maio, era um “zé-ninguém”. No entanto, devido aos prestimosos serviços nos massacres que se seguiram à intentona, o tenente-coronel Kito viria a alcançar o cargo de Ministro do Interior.

Neste, como noutros casos, as convulsões político-militares conduzem às chefias incompetentes que passam a agir em função da mais descarada guarda dos seus privilégios. A violência que praticam não é senão uma iníqua estratégia para manterem a salvo o lugar que conquistaram.

Nas nossas conversas cruzaram-se muitas histórias de vidas, prematuramente ceifadas, como a de Gêgé, jovem de dezoito anos com o qual convivi na cela C. Cada uma daquelas noites de fuzilamentos era para ele uma verdadeira antecâmara da morte. Acabaram por o chamar numa dessas noites. Desatou num pranto irreprimível, num desnorte ingovernável — acabando por cair por cima de mim e do Antonino Rodrigues. Os militares ficaram furiosos com o aparato do desespero. Titubeante, Gêgé fez menção de recolher as suas biquatas, mas os carcereiros atalharam: “Ó fantoche… para onde vais não precisas de levar nada”. Saiu aos empurrões, por entre gritos e coronhadas, na direcção da ambulância que o conduziria à morte. Os seus despojos permaneceram durante muito tempo na cela sem que ninguém ousasse tocar-lhes. Quando deixei esta cela, ainda lá estavam aqueles restos da memória de Gêgé. A acumulação desses rastos, numa mesma cela, fazia-me lembrar aqueles depósitos de roupas e sapatos, que as imagens dos campos de concentração para os judeus perpetuaram.

O irmão deste jovem, o Gentil, já tinha sido fuzilado. Diziam-se filhos do Vice-Ministro Gamaliel Martins (e sobrinhos do Ministro Ismael Martins). Muitos comentavam negativamente o facto de Gamaliel Martins ter aceitado aquele cargo sabendo o que tinham feito aos seus filhos. Também o nome de José Eduardo dos Santos passou pela nossa tertúlia. Marciano Pinto de Andrade considerava-o com grande suspeição. José Eduardo dos Santos tinha-se formado na área dos petróleos, na URSS. Casou mesmo com uma engenheira soviética, mas desentendimentos posteriores conduziram à separação. Tomou, depois, para mulher a viúva do Dr. Mendonça, médico psiquiatra que tinha sido fuzilado.

Pedro Santos juntou-se, algumas vezes, à nossa conversa. Fora comissário político de São Paulo, mas, ainda antes do 27 de Maio, viu-se transferido para Cabinda. Agora, junto de nós, tornou-se mais uma testemunha dos massacres que vitimaram as gentes de Cabinda — quem pôde fugiu por qualquer meio para o Zaire e para o Congo (os barcos de transporte de madeiras foram frequentemente usados para as fugas ao horror). Foi ele quem nos falou pela primeira vez do campo do Moxico, notícia que foi confirmada por outras testemunhas. Pedro Santos conheceu o fim, também ele, numa dessas noites de fuzilamentos.

Estas conversas conheceram, ainda, a memória de Virinha e Nandy, duas mulheres que tinham sido responsáveis pelo destacamento feminino de Luanda. Nandy era irmã do comandante Kassange, o que não a livrou de ser fuzilada, tal como Virinha. Nandy esperou ainda algum tempo pela execução pois estava grávida, mas, assim que deu à luz, a morte revelou-se inescapável.

Marciano Pinto de Andrade pensa que esta série ininterrupta de execuções acabará por se tornar, no futuro, um sério problema para o MPLA: como responder a todas as famílias que quererão conhecer o destino dos seus familiares e amigos, saber por que foram executados e onde estão enterrados os corpos dessas vítimas?

Posteriormente, algumas vozes se têm levantado denunciando alguns jogos de bastidores que vitimaram alguns ilustres do MPLA. Veja-se a entrevista que Paulo Anunciação fez a Kenneth Kaunda na edição de 21 de Março de 1997 do semanário “O Independente”. Ou ainda a obra do historiador Carlos Pacheco sobre as origens do MPLA — refira-se, como exemplo, as alusões ao assassínio de José Miguel e Joaquim José Migueis. O próprio Marciano Pinto de Andrade me havia falado destes casos, em São Paulo, bem como de Viriato da Cruz que só escapou porque fugiu in extremis para a China. O extermínio de alguns históricos do MPLA era, nas conversas da cadeia, inequivocamente atribuído a forças internas do próprio MPLA. A polícia, criada por esta força política, tinha, antes de mais, a missão de expurgar o partido de todos os opositores à linha política vigente.

Em muitos dos presos informados que contactei se encontrava a convicção firme de que o próprio Agostinho Neto manteve grande proximidade com todas as acções repressivas que fui conhecendo naquele fórum de discussão sobre Angola: a Cadeia de São Paulo e Casa de Reclusão. Talvez por isso, numa das conversas com Marciano, fui surpreendido pela sua fúria. O móbil era a notícia de que iam erguer um monumento ao camarada Agostinho Neto: “só se for em memória de todos os seus crimes”. (…)

A Igreja Católica denuncia o holocausto angolano

A profecia de Agostinho Neto

Numa coluna, de 19.12.00, no jornal Público, Frei Bento recordava: “Agostinho Neto enganou-se na profecia ao declarar em 1977: Talvez daqui a 50 anos não haja nenhuma Igreja em Angola”. O MPLA encontrou sempre na Igreja Católica uma barreira à sua política marxizante das consciências. As crónicas acerca dos ataques militares às missões católicas e às igrejas contavam-se entre aquelas que preenchiam copiosamente o testemunho dos angolanos vindos do centro e sul do país.

Obtive algumas notícias sobre a frequente intromissão do poder arbitrário do MPLA no normal desenrolar da vida religiosa do povo. É disso exemplo o que se passou em 1977 com o Almirante Dias, comissário da Sazaire, no norte de Angola. Nesse dia, este mpla, feito autoridade, entrou por uma igreja católica dentro e, do alto do seu desdém, perguntou ao padre: “Com que autorização é que estás a dizer missa? Não sabes que não podes dizer missa sem a minha autorização?”. Isto acontecia mesmo quando o MPLA proclamava pública e institucionalmente o seu respeito pela Igreja Católica.

Germano Pereira contava-nos o que havia acontecido próximo da Kaala, província do Huambo. Germano passava por aquelas paragens com a camioneta que conduzia, permutando os produtos que trazia de Luanda com os que aquelas terras produziam, prática necessária para minimizar carências deixadas pela destruição das redes de abastecimento.

Ali, numa elevação sobre Kaala, existia uma capela dedicada a Nossa Senhora do Monte, lugar de peregrinação e romaria a que acorriam milhares de pessoas. Aí era celebrada uma festa popular religiosa que tinha um assinalável prestígio entre a população. Mas, lida na cartilha de certo marxismo-leninismo, aquela manifestação de religiosidade popular não passava de uma torpe obstrução ao progresso de Angola.

Não tardaram as ameaças. Já em 1976, as faplas haviam assassinado alguns dos populares que viviam na sanzala contígua à capela, pensando assim disseminar um medo dissuasor (havia sempre a desculpa de que se tratava de simpatizantes da FNLA e da UNITA). A violência intensificou-se. Só de uma vez foram encontrados trinta corpos dentro da própria capela, terror que rapidamente foi levado de boca em boca pelos populares que faziam a limpeza daquele espaço.

A proibição de frequentar o local, que abrangia o próprio padre responsável, acabou por cair sobre a população, sustida por um muro de medo e imposta pelas armas. Quando fui transferido da Casa de Reclusão para a Cadeia de São Paulo, o infortúnio deu lugar à satisfação possível: encontrei aí, também encarcerados, dois amigos, o economista Rui Castro Lopo e o médico Manuel Videira, ambos com cargos de direcção naDiamang. Ainda as minhas atenções estavam presas ao desejo de trocar impressões com estes dois amigos quando a estranha circulação de um certo preso suscitou a minha curiosidade. Notando que a sua passagem provocava sempre um burburinho procurei indagar o motivo. Soube então que se tratava de um padre angolano que era chamado constantemente ao Comando, onde lhe eram servidas doses bem munidas de perguntas e torturas.

Vim a saber que era Pró-Vigário Geral na sua Diocese e que trabalhava na Missão de Omupanda quando, no dia 12 de Novembro de 1976, o prenderam. Entre os meus interlocutores ouvi várias referências ao facto de este padre se ter tornado um adversário corajoso das políticas de combate à religião promovidas pelo MPLA, concretizadas sobretudo, entre outras ilegalidades, em formas de ocupação e apropriação dos bens das igrejas.

Entretanto, fui transferido para a cela do são-tomense Lourenço de Vasconcelos, enfermeiro-chefe do Hospital do Lubango, homem bem conhecedor da história pessoal deste padre. Foi da boca deste enfermeiro que, pela primeira vez, ouvi o nome do padre, Sikufinde: “Ele está aqui em segredo, para ninguém lhe poder falar, deixam-no sem comida, andrajoso, sem assistência de ninguém. O tenente Miranda diz que já o deviam é ter matado”.

A certa altura interromperam-se as costumeiras deslocações do padre ao Comando. Chegou-me também a notícia da recusa à entrada a uma freira que pretendia assisti-lo. Decorreram vários dias de isolamento até que, a dada altura, o vimos passar de novo na direcção do Comando. As notícias correram depressa: “Está um Bispo na prisão, é o Bispo da terra dele”. Devia ser coisa nunca vista. Entre os agentes e os soldados a agitação era grande. A presença do prelado católico tinha trazido um desconforto grande tanto à direcção da cadeia como aos serviços de segurança do Estado, pois sabia-se das ligações internacionais que um Bispo católico tem. Vim a saber que se tratava de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo da diocese onde o padre que agora ali estava nos calabouços de São Paulo desenvolvia o seu ministério.

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D. Eurico Dias Nogueira (foto Net)

Perante a inconveniência que lhes trazia a possibilidade de o Bispo vir a saber com pormenor o que se passava dentro daquela cadeia, as autoridades resolveram transferi-lo para o campo da Sapu. Foi no dia 25 de Maio de 1977 — escapou por pouco aos acontecimentos ao 27 de Maio, particularmente os que afectaram a Cadeia de São Paulo. O padre Leonardo Sikufinde foi para ali desterrado, incumbido de tratar dos porcos e das galinhas, acompanhado de instruções muito precisas acerca dos cuidados a ter com o caso, uma vez que o Bispo estava no seu encalço. Talvez por isso, permitiram-lhe as visitas.

Mas também ali, no Campo da Sapu, começaram a crescer as hostilidades. É que o padre Sikufinde não prescindia de dar assistência religiosa aos outros presos e não deixava de levantar a voz contra o regime de condições desumanas que ali era imposto. Desabrida era também a sua palavra com todas as visitas que ali o procuravam, narrando com desassombro o que se estava a passar no centro e no sul, onde o MPLA e os cubanos se apropriavam dos bens das Missões.

A sua peregrinação pelos lugares de reclusão não ficava por ali. No dia 22 de Agosto, foi transferido para a Kibala, mais precisamente, para Tari. Lugar diferente, o mesmo infortúnio: o trabalho no campo, de joelhos, as mãos em sangue, com ferramentas velhas e inadequadas. Pensava-se que ele não resistisse. Mas no dia 9 de Setembro de 1977 acabou por ser entregue no Paço de Luanda às autoridades eclesiásticas (os poucos interlocutores que encontrei, com algum conhecimento do sucedido, diziam que as pressões da Igreja Católica terão continuado depois daquela visita do Bispo do Lubango à Cadeia de São Paulo).

Sob a protecção do Cardeal Alexandre do Nascimento, regressou à Província do Lubango onde continuou a desenvolver a sua actividade pastoral. Algum tempo depois, enviaram-no para Roma com o intuito de desenvolver os seus estudos, esperando que as forças repressoras angolanas se esquecessem dele. Quando regressou, anos depois, pôde continuar no Lubango as suas tarefas pastorais.

Note-se que os Bispos recorriam, por vezes, ao expediente das nomeações para salvar alguns padres do degredo e do destino da execução. Recolhi notícias, também, acerca do P.e Pedro Luís António, cujas raízes se encontravam no Caconda-Lubango. Preso e enviado para São Nicolau, que mais do que prisão era já um verdadeiro necrotério, foi salvo in extremis pelo Arcebispo do Lubango, D. Manuel Franklin da Costa. Este alto dignitário da Igreja católica angolana, que chorou a prisão e temeu a morte do seu padre, nomeou-o Vigário-Geral do Huambo. Assim criou novas dificuldades ao poder dizimador do MPLA, uma vez que politicamente não era a mesma coisa matar um padre ou matar o Vigário-Geral de uma Diocese. Libertaram-no, mas mantiveram-no sob pressão. O Papa acabou por o nomear Bispo do Kuito Bié, avolumando assim o impacto de qualquer violência que viesse a ser exercida sobre aquele angolano.

O episódio trágico em que o padre Sikufinde perdeu a vida aconteceu em Agosto de 1985. Nessa altura deslocava-se com alguma frequência ao hospital de Chiulo para visitar uma missionária, a irmã Filomena. Numa dessas ocasiões, foi abordado por uma família que lhe falou da sua aflição e da necessidade de levar ao hospital uma parturiente. Preparou a viatura e assim que tudo se aprontou fez-se ao caminho — para estas viagens obtinha a necessária licença das autoridades militares.

Era o dia 15 de Agosto de 1985. No carro, além do padre angolano, faziam-se transportar a parturiente, o marido, uma freira chamada Luzia e mais três jovens — um deles seria catequista. A vinte e dois quilómetros de Lahama, ouve-se um tiro. Os militares do MPLA impedem que a viatura avance. Apontam as armas de forma certeira e, sob a violência dos disparos, caem mortos o padre Sikufinde, a freira, a mulher e o marido, e ainda o jovem catequista. Apenas conseguiram escapar para a mata os outros dois moços, sorte que lhes conferiu a missão de dar testemunho da infeliz ocorrência. A consternação foi pungente, como impressionante foi a veneração que imediatamente começou a crescer em torno da sua memória. Foi sepultado no cemitério da Missão de Môngua. A Igreja católica angolana introduziu, já, a causa de Beatificação do padre Leonardo Sikufinde, contando com a referência a um alegado milagre que beneficiou Filomena Lilano — paralítica há três anos, voltou a andar.

Gentil Viana: o preço da divergência

Conheci o Dr. Gentil Viana — um dos fundadores do MPLA — na Cadeia de São Paulo. Estávamos em sectores diferentes da cadeia, mas, a partir de um contacto fortuito no posto de socorros, a 2 de Março de 1978, iniciámos uma relação de partilha e solidariedade que me apraz, ainda hoje, recordar.

Ele sabia já da minha presença nas prisões de Angola e conhecia os gestos e lugares de tortura por onde eu havia passado. Ele próprio era peregrino na mesma viagem de violências gratuitas. Naquele momento, a sua tristeza era maior porque o estado de saúde dos seus olhos tinha piorado, em consequência das agressões cubanas, e temia o abismo da cegueira. Contou-me, aliás, num dos encontros posteriores, que era um amante do desporto, mas que naquele estado nada feito… “quando a bola está a uns três metros, vejo-a com o olho direito, mas o esquerdo apenas vê uma sombra”.

Este primeiro encontro ficou-se pela timidez que a presença vigilante dos carcereiros impunha. Ainda teve tempo de me contar que havia sido, em Portugal, Delegado do Ministério Público; a partir de Portugal iniciou uma travessia exílica até à independência de Angola. A conversa não podia ir muito mais longe. Deixei-lhe o Paris Match e o desejo de outro encontro.

O dia 4 de Março deu-nos uma nova oportunidade de encontro, oportunidade que se repetiu frequentemente durante o ano de 78. Apesar da situação dos seus olhos pediu-me algumas revistas para tentar ler. Ofereci-lhe o Lê Nouvel Observateur, L ‘Express e o Paris Match. Apercebi-me então de que este membro-fundador do MPLA havia perdido já a vista esquerda em consequência das agressões de que tinha sido vítima, sobretudo aquelas que tiveram lugar no comboio. Quando lia algum tempo com continuidade era atacado por espasmos que o obrigavam a largar a leitura de imediato.

No dia seguinte encontrámo-nos num lugar discreto, na hora do sol. Foi um diálogo cheio de interesse. Falou-me da sua estadia, durante dez anos, na China, e das traduções para português dos pensamentos de Mão que aí realizou. Pude saber que Gentil Viana tinha chegado a fazer uma “greve de fome” em protesto contra as agressões, acto que o conduziu moribundo ao Hospital Militar. Ficou na enfermaria-prisão, junto do combatente americano Marcello Grillo. Este mesmo me deu testemunho da situação humilhante e desmoralizante em que o deixaram na enfermaria — a soro e com as mãos atadas à cama. Só o desamarravam para comer e ir à casa de banho. O estado de debilidade era tal que os seus passos, quando se deslocava à casa de banho, não ultrapassavam uns dez centímetros. Ali permaneceu seis meses. Proibiram-lhe toda a leitura e privaram-no das visitas da esposa.

Fora um confidente e um conselheiro de Agostinho Neto, mas assumiu perante este uma divergência fundamental. Gentil Viana era partidário de uma independência angolana que reunisse todas as forças políticas; de forma diversa e antagónica, Neto pretendia liderar o processo a ferro e fogo, sob o signo único do marxismo do MPLA. O próprio Kilombelombe, quando partilhou comigo a cela, me confirmou que a prisão de Gentil Viana se efectuou em Abril de 1976, por ordem de Agostinho Neto, e em razão do ódio que este alimentava por aquele. Segundo me testemunharam alguns elementos da Revolta Activa, em finais de Maio de 78, este ódio de Neto era incompreensível pelo próprio facto de Gentil Viana ter sido um esteio fundamental no seu percurso político. Foi ele quem redigiu, por exemplo, alguns dos discursos mais importantes de Neto.

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Lisboa 1999. Gentil Viana, Mário Pinto de Andrade e Adolfo Maria (foto Net)

Em São Paulo, a sua relação com os outros presos era amistosa. Muitos o procuravam por questões de saúde. É que, durante a sua estadia na China, adquiriu algumas noções e práticas de acupunctura. Mesmo depois de terem ido ao Hospital Militar, o único remédio era recorrerem ao Dr. Gentil Viana. Que o diga, por exemplo, o português Oliveira — cumpria tarefas de electricista na prisão — que já mal conseguia andar; os médicos não tinham, ainda, alcançado qualquer resultado notoriamente positivo. As melhoras conheceu-as por meio da assistência de Gentil Viana.

Da relação que a direcção da cadeia tinha com ele não se pode dizer o mesmo. Sentiam um gozo especial em exercer sobre ele as mais diversas represálias. Concretizavam-se, por vezes, em coisas muito simples mas capazes de imprimir grandes privações e sofrimentos como retirarem da sua cela todas as cadeiras ou objectos que a isso se assemelhassem, remetendo-o para o segundo piso de um beliche. Dado o seu estado de saúde, esta era uma privação que lhe causava bastante sofrimento. Devido à humidade sofria muito com o reumatismo.

Mas, segundo me foi contado por Justino Pinto de Andrade, os cubanos agravavam a situação atirando latas de água por baixo da porta de ferro para que a cela permanecesse permanentemente molhada. Eu próprio, a 26 de Junho de 1978, pude entrar na sua cela e testemunhar a insustentável desumanidade das condições em que este homem vivia, na companhia de Vicente Pinto Andrade, Justino e Marciano. A viola que o acompanhava era a única réstia de entretenimento, pálida sombra de uma alegria que se vai esquecendo, mas que, mesmo assim, constituía uma ameaça à mesmice cinzenta da prisão — não tardou que lha confiscassem. Valeu-lhe a solidariedade de um outro preso, o sul-africano Harold do ANC, que logo lhe emprestou uma viola legada por alguém que havia sido fuzilado.

Apenas a 7 de Setembro de 1978, quase três anos depois de o terem detido, Gentil foi ouvido em auto. Mas não foi desta vez que o libertaram. Ficou para conhecer ainda outros padecimentos. Não tinham passado muitos dias, quando o tornei a ver, afectado por uma infecção nos olhos. Pediu para ir ao hospital, mas, como noutros casos, responderam-lhe com a indiferença. Foi mesmo falar com o Oliveira da FNLA, de origem portuguesa, que, sendo mecânico dos carros do Comando, tinha com ele uma relação privilegiada. Nada feito. Acabou por melhorar um pouco com o medicamento que mandei vir de Lisboa, receitado pelo meu sogro, o Dr. Anacleto de Miranda, oftalmologista.

A retoma da esperança começou a ser um pouco mais consistente quando Gentil começa a aperceber-se de que estão a libertar os seus companheiros da Revolta Activa. O pior era o estado dos seus olhos. Foi, pois, por entre a esperança e o medo, que recebeu, da parte do Comando, a notificação de que seguiria para fora do país para ser submetido a tratamentos do foro oftalmológico.

Marciano Pinto de Andrade confirmou-me que Gentil Viana seguiria, à guarda de um agente, para a antiga Jugoslávia, a fim de ser tratado. A saída de Viana era assunto de muitas conversas na prisão. A apreensão era indesmentível. Quando o foram buscar, a noite ia já adiantada, tal como aquelas outras noites trágicas, noites de interrogatórios e fuzilamentos. Gentil Viana quis saber o nome do disa que, nessa noite, recebeu a missão de o ir buscar à cela. A resposta provocada pretendia informar os seus companheiros da identidade daquele que o acompanhava na saída da cadeia. O disa evitou comprometer-se, referindo, apenas, o seu nome de guerra. Mas Gentil Viana resistiu à saída, insistindo na identificação do agente. E conseguiu o que queria. O seu apelido era Jesus.

Na Jugoslávia, segundo as informações que recolhi, os problemas avolumaram–se. As autoridades não viam com bons olhos a presença obsessiva do agente angolano junto do doente, e não queriam comprometer-se no tratamento de um preso político. Acabou por ser remetido, sucessivamente, para Espanha e Portugal. Em Lisboa, necessitou de trabalhar com outros advogados, com uma das vistas irremediavelmente perdida, para conseguir viver e efectuar os tratamentos de que estava necessitado. Entre nós, ficou a memória e a saudade.(…)

Irmanados na tortura

O historiador angolano Carlos Pacheco escreveu numa obra publicada em 2000:

Com efeito, no campo da Kibala, no Kuanza-Sul, chegou a preparar-se naquele ano [1977] com valas previamente abertas, o extermínio de quadros técnicos angolanos — médicos, engenheiros, professores, entre outros —, todos partidários activos do MPLA. Outros jovens passaram também por esse campo, alguns deles portugueses, que não sendo embora militantes daquela facção política, tomaram partido por outros grupos de esquerda, aparentemente autónomos. Também eles suportaram sofrimentos indescritíveis até serem libertados em 1980, sem que jamais as autoridades portuguesas tivessem esboçado qualquer gesto para os resgatar ou minorar a sua situação.

Conheci-o num calabouço infernal angolano. Falei com ele num dos piores períodos da minha permanência nas prisões angolanas, aquele em que fui violenta e repetidamente interrogado e torturado. Recordo bem aquele dia em que estava a conversar com Carlos Pacheco à porta da cela quando apareceu um grupo de soldados gritando com ar de gozo o meu nome. Pensei tratar-se de uma brincadeira, mas o Carlos Pacheco avisou-me de que aquilo era para ser tomado a sério.

Fui levado para uma sala de interrogatório onde estava o agente Carmelino e o torturador Limão. O cenário era brutal. Ainda estavam lá o Manuel Campos e o Fernando Correia. O calibre da pancadaria era tal que as suas cabeças feridas pareciam agora ter o dobro do tamanho. Tinha chegado a minha hora. Foi uma hora eternizada de agressões múltiplas com um cano estriado. Cada golpe inundava o meu corpo de sangue e hematomas — a camisa azul que o Costa Martins me tinha dado ficou em farrapos.

Fiquei em tal estado que já só pude voltar a falar com o Carlos Pacheco no dia seguinte. A propósito do que me tinha acontecido, Carlos Pacheco referiu-se a um episódio da sua estadia ali na Cadeia de São Paulo. Foi um dia à noite (aliás estas coisas eram quase sempre à noite). Chamaram-no ao comando. O capitão Carlos Jorge estava lá para o receber. Carlos Pacheco pensou que a gentileza do acolhimento o livrasse do pior, mas bastou uma resposta não esperada para o verniz estalar. Carlos Jorge ordena a violência. Os torturadores de serviço despejaram-lhe nas nádegas e nas costas violentos golpes com uma barra de ferro. Deixaram-no descansar um pouco, para depois avançarem com um cavalo-marinho, vergastando todo o seu corpo.

Estas narrativas de violência, mesmo se as razões da nossa prisão correspondiam a histórias diversas, irmanavam-nos no juízo de que estávamos perdidos nas entranhas de um regime que repetiu durante anos crimes contra a humanidade.

O Natal de 1978 coincidiu com um período de encruamento das acções repressivas. O famigerado Pitoco veio a São Paulo tratar, pessoalmente, do caso de alguns ocas. Soube que nesses interrogatórios estiveram presentes: o Pereira, o Gunga, o Inácio e Onambwe. O insuportável começou no dia 23 de Dezembro, mas a noite de 24, véspera de Natal, foi a das maiores barbáries. Vi regressarem às celas corpos de jovens com o tronco cilindrado pela mais indescritível violência, a carne viva, banhada em sangue; os rostos amassados pela violência torpe dificilmente se podiam identificar; alguns traziam os testículos com marcas de queimaduras.

E ali ficavam pelas celas, gritando as suas dores, sem qualquer auxílio. Da vizinhança não podiam esperar ajuda pois, em muitos casos, os próximos padeceriam do mesmo. Aos outros, situação em que estava incluído, estava vedada a possibilidade de entrar naquele corredor de morte. Como tinha a porta da minha cela aberta (Vasconcelos, enfermeiro que dormia ao meu lado, tinha convencido o Comando de que sofria de claustrofobia) pude, no entanto, ver as vítimas carregadas pelos “conduzes”. Vasconcelos, ao meu lado, não se atrevia sequer a voltar a cabeça na direcção da porta da cela, paralisado de medo.(…)

Castro em Angola, a humilhação em casa

Fidel Castro visitou Angola em 1977. A Diamang foi chamada a fornecer serviços vários ao Palácio Presidencial para o banquete de homenagem ao Chefe de Estado cubano. Da parte dos serviços da Diamang tudo correu como era habitual nestes momentos solenes. O pessoal tinha um conjunto de compensações extraordinárias que o motivava para um serviço empenhado. Todos tinham muita curiosidade em conhecer tão célebre figura, embora não faltasse quem se dissesse desiludido perante o comportamento de Fidel Castro: os seus comentários, os seus gestos, a sua conversa… quase como se de um discurso se tratasse.

A segurança foi preparada com muito cuidado — como aliás sucedeu, mais tarde, aquando da visita do seu irmão, Raul de Castro. Mobilizaram todos os dispositivos de segurança: os cubanos, as FAPLA, mas também a DISA. Objectivo: garantir a máxima segurança. O aeroporto estava, assim, invadido de militares e agentes para que nada acontecesse aos dois Presidentes.

Quando se preparava já o cortejo presidencial, que atravessaria algumas das principais artérias da cidade de Luanda, os cubanos desautorizaram e humilharam as forças de segurança angolanas, impedindo que seguissem no cortejo, argumentando que dada a estatura política de Castro era necessária uma segurança competente.

De acordo com os testemunhos que ouvi, esta atitude foi recebida pelos angolanos como se de uma bofetada se tratasse. E não era para menos, pois tinha sido acordado que ambas as forças de segurança seguiriam no cortejo para, mais facilmente, se evitar a infiltração de quaisquer outras viaturas.

Mas esta não seria a única bofetada. Quando tudo estava a ser preparado para o inevitável comício, Didi, agente angolano que ali, de altifalante em punho, coordenava a segurança daquele local, foi também desautorizado por um oficial cubano que acabou por o proibir de ali ficar.

Os amigos cubanos demonstravam assim não confiar nos seus camaradas angolanos; o momento de glória que seria a visita deste mítico presidente comunista tornou-se um pesadelo de humilhações. E isto não se passava apenas com subalternos. Os angolanos que se tinham sentido desautorizados pediram mesmo a presença do Chefe de Departamento, José Vieira Dias Rodrigues Mingas, “Jaloma”. O próprio me contou que se teve de render também às exigências dos cubanos.

Este Chefe de Departamento — irmão de Rui Mingas, que foi Embaixador de Angola em Portugal — esteve preso ao meu lado, na cela C. O cacau que ambos preferíamos à comida da cadeia foi ocasião propícia para algumas trocas de impressões sobre a situação dos cubanos em Angola. Essas conversas cessaram, abruptamente interrompidas, quando, certa noite, foi transferido para a SIGA, para junto de algumas dezenas de disas.Também para ele chegou a hora em que saiu sob uma escolta de pancadaria, que lhe deve ter causado fracturas graves, a caminho do fuzilamento. Segundo o testemunho do motorista, ele seguiu numa noite em que as sessões de fuzilamento foram particularmente bárbaras.

Conversas sobre cubanos

Ainda antes de ser preso, conheci esse particular gozo angolano em fazer circular pequenas anedotas da vida real. Os cubanos eram, regra geral, um dos assuntos apetecidos. Falavam deliciados de um cubano que, em Luanda, proclamava aos quatro ventos ter matado na estrada do Nordeste um “burro com cornos”. Quem conhecia minimamente a fauna angolana depressa percebeu que se tratava do chifembe, também chamado burro-boi (Kobus-defassa é a designação científica).

Acrescentavam-se a descrições como esta muitas conversas sobre a situação de Cuba, com notícias em primeira-mão, pois alguns dos presos tinham passado por Cuba. Destacavam tudo aquilo que punha a nu a pobreza do país, fazendo dela uma espécie de colónia soviética empobrecida, exactamente o que não queriam que acontecesse a Angola.

Não se admiravam pois que os soldados cubanos enviados para Angola avistassem a cidade de Luanda com ar de espanto. Não esperavam encontrar uma cidade tão bela onde o progresso mostrava ainda traços evidentes. Aliás, era interessante observar que os estudantes que regressavam dos países de Leste ou de Cuba mostravam um orgulho redobrado quando falavam das possibilidades do seu país. Talvez ficassem desiludidos com o paraíso soviético, e mais cientes do valor do seu próprio país.

Não admira, pois, que estes agora prisioneiros políticos, jovens na sua grande maioria, exprimissem a sua indignação quanto à recepção heróica que Luanda preparou a Fidel Castro. Aliás, já quando o seu irmão Raul de Castro visitou o centro de Angola, foi mobilizado tudo o que girava em torno do MPLA.

Essa disposição crítica em relação à presença cubana ganhava corpo em pequenas histórias, verdadeiras larachas que coloriam os dias cinzentos da reclusão. Neste caso a pequena narrativa dizia respeito aos comboios de Benguela. Depois da independência, os caminhos de ferro de Benguela, que faziam a ligação do porto do Lobito à fronteira com o Zaire, começaram a apresentar sinais preocupantes de degradação. A direcção deste empreendimento tinha sido tomada pelo MPLA, que lá colocou alguns cubanos e, de entre eles, a mando do Ministro dos Transportes, Manuel Pakavira, um director geral da sua confiança.

Segundo os meus informadores, ao engenheiro cubano em causa pesou-lhe o medo de assumir aquela responsabilidade, conhecida que era a dificuldade de impor chefias cubanas aos quadros angolanos. Não deu resposta imediatamente, quis conhecer o terreno que ia pisar.

Ora, foi durante essa visita que aconteceram os factos anedóticos que se espalharam de dito em dito por muitas cadeias angolanas. O engenheiro cubano pretendeu percorrer a via férrea em toda a sua extensão para se inteirar do seu estado. A viagem ficou marcada para as oito da manhã. À hora marcada lá estava, mas foi recebido por uma discussão bem acesa que envolvia responsáveis cubanos e maquinistas. Estes repetiam que as máquinas necessitavam de um aquecimento prévio de pelo menos trinta minutos, para que a pressão fosse a indicada; os cubanos ripostavam que isso era um desperdício, “treta ensinada pelos colonialistas”. Certo é que a força venceu — as armas que os cubanos carregavam eram um argumento eficaz — e o comboio lá partiu contrariando os maquinistas.

Mas foi uma vitória curta. Um pouco mais à frente, a composição teve de avançar por uma subida um pouco pronunciada. Até metade do percurso ainda a máquina se aguentou, para regozijo dos cubanos, mas depois veio a crise. Ao chegar a uma zona de maior declive, o comboio foi perdendo a força que o tinha sustentado até ali e acabou por parar.

Mas o pior veio a seguir. O sistema de freio não suportou o peso e a composição acabou por começar a recuar numa marcha cada vez mais furiosa. O comboio levava bastante gente. O medo, o pânico tomou conta da razão e das emoções; uns tentavam agarrar-se a algo que julgavam seguro, outros tentavam o salto para o exterior do comboio. Foi este o caso do engenheiro visitante, que terminou esta epopeia no hospital, e com o desejo peremptório de não aceder ao convite do Ministro Pakavira.(…)

O medo da memória ou a memória do medo — para não concluir

O processo da minha libertação só conheceu um decisivo impulso a partir da já narrada visita de Kundi Payama, na altura Ministro do Interior, à Cadeia de São Paulo, no dia 15 de Dezembro de 1979. Ainda tive de esperar mais de oito meses para que esse processo fosse concluído. Está bem viva a memória do dia 7 de Agosto de 1980 em que me deslocaram, com mais três portugueses, de São Paulo para a Casa de Reclusão. Revistaram-me e retiraram-me os poucos haveres que me acompanhavam. Fiquei com a roupa do corpo e os sapatos, veículo das últimas anotações recolhidas. De seguida, levaram-me para o aeroporto de Luanda, onde segui de avião para Lisboa. À chegada, esperavam-me mulher, filhos e amigos — à volta de cinquenta pessoas. Já não conhecia os meus dois filhos mais novos, passados aqueles cinco anos. Por pudor, não me atrevo a descrever as emoções desse momento.

O tempo de adaptação à liberdade retomada não foi fácil. Era-me penoso viver as condições de comodidade banal de todos os dias, encontrar-me com conhecidos, vestir-me de acordo com as exigências sociais. Passados alguns meses, ainda o meu corpo não tolerava uma simples calça, exigindo o hábito prisional, a blusa e os calções. O trabalho já referido de transcrição de todas as informações recolhidas no inferno prisional angolano ocupou os meus dias, devolvendo-me progressivamente à normalidade das minhas relações familiares, empresariais e sociais.

Dias de grande consolo foram aqueles em que recebi companheiros de degredo. Certos factos que me foram referidos nos diálogos da prisão vieram a ser confirmados ainda por alguns depoimentos que pude recolher junto de amigos que me visitaram, em Lisboa, logo após a minha libertação. Serve de exemplo o colóquio que, no dia 21 de Agosto de 1982, em minha casa, me foi proporcionado pela visita do meu amigo Gamboa. Este, agora piloto da TAAG, era em 1975-76 Inspector da Inspecção-geral de Abastecimentos em Luanda, e nessas funções visitou comigo as trinta e três cantinas da Diamang espalhadas pela Lunda. (..)

Fig.42 Foto de Américo Pires Afonso mostrando como eram algemados os presos portugueses (recorte do correio da manhã)

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