Os Dias da Vergonha. Reis Ventura
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Os Dias da Vergonha. Reis Ventura

Os Dias da Vergonha

Reis Ventura

indíce

Prefácio   

Explicação necessária 

PALAVRAS  DO  GENERAL  SILVINO  SILVÉRIO   MARQUES ANTIGO GOVERNADOR GERAL DE ANGOLA
 Um dia, que esperamos a justiça dos homens não faça esperar muito, será classificado o que se passou no Ultramar Português, e especialmente em Angola, no que se refere à chamada «Descolonização». Nessa altura haverá revelações que multo surpreenderão o nosso povo.
Entretanto, a verdade dos acontecimentos está sendo, aos poucos, descoberta por testemunhas atentas e sensíveis que, numa tessitura aqui e além romanceada, vão contando o que efectivamente presenciaram, ainda sem grande preocupação, ou possibilidade, de aprofundar as respectivas causas.
Deste modo se estão produzindo verdadeiras monografias do dia a dia vivido naquilo que constituiu não uma epopeia igual aos descobrimentos, como impudicamente foi dito, mas a maior tragédia (e vergonha) da nossa História: a «Descolonização» e o «Retorno».
Num tempo em que generalizada crise de carácter se reflecte na acomodação cobarde de muitos e na amnésia de quase todos, dos responsáveis às próprias vítimas, o aparecimento dessas monografias dos acontecimentos deve ser saudado como verdadeira pedrada neste charco.
Assim fui entendendo Os Dias da Vergonha, à medida que desfolhava as suas páginas. E ficou-me um sentimento, complexo e amargo, de saudade, vergonha e desespero…
Todos, em Angola, conhecemos Reis Ventura das suas numerosas obras literárias, da sua colaboração permanente num jornal da província, da sua fluente e empolgante oratória em momentos históricos da vida do País e de Angola.
Numa prosa simples, acessível a todos, e rica de sensibilidade e de expressão, retraía agora, nos sentimentos, nas atitudes e nas actuações, horas cruciais vividas em Angola, naquele período de infelicidade e amargura que sucedeu ao 25 de Abril.
 Nesta Crónica dos Dias da Vergonha ficam fixados factos que então ocorreram e que será crime esquecer.
A Reis Ventura passamos a dever, os “retornados» verdadeiros, e os que o somos espiritualmente e todos quantos conhecemos e compreendemos Angola e continuamos a sofrer o destino que lhe foi preparado e imposto, a gratidão por mais este trabalho.
    Reavivar assim a memória é serviço prestado a muitos de nós. E também à História.
                                                                                                             Silvino Silvério Marques
EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA
Neste livro se relatam factos que aconteceram em Angola desde 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975.
    Começa ainda sob o signo da esperança, no engano do programa Inicial do Movimento das Forças Armadas, que preconizava a defesa da Nação Pluricontinental, e das promessas dos seus homens mais responsáveis. Mas termina em gritos de desespero, porque bem depressa a realidade mostrou que era tudo mentira, vergonha e traição.
    Há muito boa gente da melhor do Portugal desta hora aziaga) que se admira de que os homens de Angola, tão corajosos e resolutos nos dias trágicos de 1961, se tenham mostrado tão resignados e submissos depois do 25 de Abril de 1974.
    Compreendemos esta atitude, porque até nós próprios choramos de raiva, ao pensar que poderíamos ter altivamente salvo a terra dos nossos filhos, em vez de vir mendigar para a desolada Pátria de nossos pais. Correria sangue, que nós não queríamos, e haveria uma inevitável ruptura temporária com o Governo da Metrópole, que nunca deixou de ser a terra da nossa saudade. Mas não aconteceria a entrega de Angola aos russos, nem a ignóbil traição ao Ocidente, nem a tremenda desgraça de milhões de brancos, pretos e mestiços, nem a confrangedora e multimoda vergonha de uma velha e nobre Nação, nem a rápida e completa derrocada do que podia ser um grande e próspero País.
         Se os brancos, pretos e mestiços que não andaram aos tiros nas matas, mas construíram a Angola moderna, tivessem decidido assumir o poder na sua terra, nunca os laços fraternos com a Mãe Pátria se quebrariam definitivamente; e dali poderia vir, a curto prazo, a força e a ajuda necessárias para salvar este velho Portugal, integrado numa efectiva e grandiosa Comunidade de Nações Lusíadas.
    Mas é agora, depois dos acontecimentos, que tudo isto se vê com facilidade e clareza. No decurso deles era diferente. E é preciso tê-los vivido, no confuso clima dos primeiros meses da Revolução dos Cravos, para compreender a atitude dos portugueses de Angola.
    Em 1961 tínhamos Salazar em Lisboa, um governador-geral bem português em Luanda (a) e a Nação inteira ao nosso lado.
    Acordávamos com esse tremendo hino «Angola é nossa!», que parecia — e era — um clamor imperativo da alma milenar da Grei. Estávamos sem armas e sem soldados, mas sabíamos que todo o povo português acompanhava emocionadamente a nossa resistência e rezava pela nossa vitória. Durante a noite do cerco terrorista à pequenina povoação de Mucaba, houve na Metrópole muita gente que não dormiu. Tínhamos connosco a ansiedade e o apoio moral de todos os portugueses.
    Depois do 25 de Abril de 1974, o mais pequeno gesto de resistência em Angola constituía pretexto para detenção imediata, à ordem dos novos senhores, que logo saltaram sobre aquela terra como lobos esfaimados. E o sofisma da «agressão ideológica» foi um látego de esclavagista nas mãos de Correia Jesuíno… Todos os homens e mulheres que tinham apoiado Salazar e Marcelo Caetano na sua decisão de defender o Ultramar ficaram imediatamente sob suspeita, quando não sob atenta vigilância. O general Costa Gomes teve o cuidado de substituir sem demora nem aviso prévio todos os comandos das Forcas Armadas de Portugal em Angola. Não se podia escrever uma palavra em defesa da acção portuguesa naquela terra, sem ser logo apodado de reaccionário e fascista. Os videirinhos de sempre trataram de alinhar na condenação de tudo quanto antes se tinha feito. A colaboração do autor deste livro para a Emissora Oficial foi suprimida por sugestão de antigos elementos da União Nacional. Quando o governador-geral Santos e Castro, tão vivamente entusiasmado com o progresso daquela portentosa terra, tomou o navio do regresso, o porto de Luanda foi fechado, para que ninguém se despedisse dele.
A independência de Angola, que primeiro se declarou dependente da vontade de todas as populações, rapidamente se tornou uma decisão ditatorial e irreversível do Governo de Lisboa. As notícias da Metrópole eram tão más que os melhores portugueses do que foi a maior província de Portugal compreenderam que nada podiam esperar desse lado. E o dr. Mário Soares declarava então, para quem o queria ouvir, que os nossos soldados abririam fogo contra os brancos do Ultramar que tentassem qualquer aventura.
    Mas há outra realidade ainda mais importante: e é que os brancos de Angola foram torpemente levados de engano em engano, precisamente porque os vendilhões da Pátria sabiam que a sua reacção seria inevitável, se em tempo oportuno pudessem imaginar o que lhes viria a acontecer.
    Todos os governantes de então declaravam que Angola era um caso especial. O general António de Spínola disse que a escolha do governador-geral de Angola era mais importante do que a nomeação do primeiro-ministro. E ainda hoje não somos capazes de compreender porque deu ouvidos aos emissários do MPLA, que vieram a Lisboa caluniar o general Silvino Silvério Marques, e substituiu esse homem íntegro, leal e sabedor por uma criatura tão reles e tão comprometida com os comunistas, como o almirante Rosa Coutinho.
    Muito mais se poderia aqui dizer sobre a maneira covarde e nojenta como foram ludibriados os bons portugueses de Angola. Mas acrescentaremos apenas que o próprio general Costa Gomes afirmou bem alto estar convencido de que Angola continuaria portuguesa e várias vezes tranquilizou amigos íntimos, assegurando-lhes que os brancos seriam sempre consultados e tudo se faria para conservar aquela terra ligada à Metrópole da melhor forma possível.
    Foi neste deslizar de engano em engano que os brancos de Angola, ainda com soldados portugueses e autoridades portuguesas naquela terra, chegaram até à situação de se verem inteiramente dependentes dos movimentos de libertação, que tinham ocupado todas as posições abandonadas pela nossa tropa no Norte da província e já em princípios de 1975 faziam em Luanda tudo quanto lhes apetecia, agredindo, incendiando e roubando, à vista da polícia e dos nossos soldados, alguns dos quais eu vi chorar de raiva, porque os não deixavam fazer-se respeitar.
    Com o decorrer do tempo as nossas Forças Armadas, sobretudo o Exército, ficaram tão infiltradas por elementos comunistas, propositadamente enviados de Lisboa, que assistiam, sem um gesto, a toda a espécie de infâmias praticadas contra os brancos. E no que respeita à defesa das valiosíssimas estruturas da economia angolana, comportavam-se com a mesma indiferença.
Bem me recordo ainda de como, durante um dos dias em que os empregados da Petrangol foram impedidos de entrar na Refinaria do Alto da Mulemba por piquetes da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores de Angola), que era — e é — uma organização do MPLA, os Unimogs da nossa tropa paravam junto das centenas de empregados acumulados à entrada do grande complexo industrial, e os nossos soldados riam da cena, inteiramente desinteressados do enorme prejuízo económico resultante da paralisação da unidade. Houve até alguns mais atrevidos (ou mais progressistas…) que foram buscar dois estrangeiros para fotografar aquele belo quadro da descolonização exemplar. Tudo uma tristeza!…
    Foi neste clima humano que decidi publicar este livro no jornal A Província de Angola, pela única forma então possível, escolhendo para narrador e principal personagem um jovem angolano, que sinceramente desejasse, com dignidade e bom senso, a independência de Angola.
Não direi o seu nome, nem a sua raça, nem a sua religião.
    Nada disto é da sua escolha. Usa o nome que outros lhe deram; tem a cor da pele com que nasceu; professa o culto de seus pais.
    Citará o nome de outros homens, as suas ideias políticas e religiosas, a cor do seu rosto. Mas ele — o principal personagem deste livro — é apenas um homem, com o idealismo de todos os jovens, com raízes bem mergulhadas na terra de Angola, com as ambições e limitações da condição humana. Um homem com virtudes e pecados, com sonhos e desilusões, com os olhos ávidos da juventude. Um homem em que muitos homens se podem encontrar, se abstraírem de pequenas diferenças, olhando apenas o que é essencial no seu corpo e na sua alma de filhos de Deus sujeitos às tentações do diabo.
    Um homem que pensa, que fala, que julga o presente, que interroga o futuro, que vive na convivência de outros homens.
    O seu bilhete de identidade não é da sua iniciativa. Não foi convidado a nascer, não escolheu as linhas ou a cor do seu rosto, não influiu na posição social de seus pais. Ninguém o consultou sobre a terra da sua naturalidade. Na sua realidade mais profunda, é apenas um homem.
Mas esse jovem angolano existe e, felizmente, continua vivo.
    Reproduzo, por vezes textualmente, afirmações que lhe ouvi. Creio ter interpretado as suas ideias e sentimentos, com respeito e fidelidade. Nem sequer fechei os olhos à sua arrepiante desgraça e à sua amarga desilusão que, por incrível que pareça, também aconteceu.
Não estou arrependido desta decisão, que me permitiu fixar, neste volume, o que foi uma forte e muito expressiva tendência da Juventude Angolana, na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974. Na verdade, e sem falsa modéstia, parece-me de alguma utilidade para os futuros historiadores que se tenha anotado, ainda em cima dos acontecimentos, como foi que tantos angolanos, honestamente adeptos da independência de Angola, passaram da esperança ao desespero.
O meu ideal sempre foi outro.
    Desde que me conheço, em livros, artigos, discursos e conferências sempre defendi a continuação de Portugal no Ultramar Português. Sonhei uma Pátria Grande, desde o Minho a Timor, onde coubessem todos os portugueses, em igualdade de direitos e deveres, com idênticas possibilidades de acesso ao trabalho e aos seus frutos, de participação na administração pública e suas responsabilidades, de completa integração na carne e na alma da Nação.
    Queria que um preto de Luanda, um mestiço de Cabo Verde ou S. Tomé, um indiano de Goa, um fula da Guiné, um m acarta e de Moçambique ou um montanhês de Timor, qualquer deles, sem distinção de raça, cor ou religião, apenas pelas suas virtudes pessoais e com a sua dignidade de português, pudesse ascender à Suprema Magistratura da Nação.
Sonho grande demais?
Não há sonhos demasiadamente grandes, «se a alma não é pequena».
Esse ideal não morreu: — mataram-no! Mas eu nunca o reneguei.
    Em Angola, mesmo durante os dias malditos, as semanas da traição e todo o tempo da vergonha, continuou a existir muita gente fiel ao belo sonho da Pátria multirracial e pluricontinental.
    Em 4 de Maio de 1974, na minha primeira crónica do jornal A Província de Angola, publicada depois do 25 de Abril, escrevi o que a seguir transcrevo:
    «Perante a viragem política efectuada pelas Forças Armadas de Portugal, eu, que sempre defendi os governantes agora depostos, poderia ceder à tentação de me remeter ao silêncio.
Era cómodo, mas indigno.
    Mantenho inalterado todo o meu respeito pela figura histórica de Salazar.
    Mantenho inalterada e inalterável a admiração que sempre manifestei ao sr. professor Marcelo Caetano, antes e depois de ele ser Presidente do Conselho de Ministros.
    Considero que o sr. engenheiro Santos e Castro, que meras circunstâncias políticas afastaram do Governo Geral de Angola, fez aqui um bom trabalho e se revelou profundamente dedicado a esta terra. Quando, no último sábado (27 de Abril findo) fui ao Palácio dar-lhe um abraço de despedida, encontrei-o a arrumar, numa das malas da sua bagagem particular, as bandeiras de todos os distritos de Angola. E isso comoveu-me quase até às lágrimas.
    Sempre vivi do meu trabalho e espero poder continuar a viver.
    Saiu há cerca de dois anos, numa edição de cinquenta mil exemplares, um texto meu, subordinado ao título UMA PÁTRIA PARA TODOS.
    Não por minha iniciativa mas com o meu consentimento, essa pequena brochura foi a única das minhas obras que saiu sem o meu nome, porque a outros pareceu que assim produzia melhor efeito.
    Julgo do meu dever, neste momento, assumir a responsabilidade do que então escrevi e representa o que penso sobre a Nação Portuguesa.»
    Escrevi estas palavras, sem medo nem arrogância, em plena sinceridade, apenas porque a consciência assim mo pediu. E nunca pensei que tal atitude pudesse desencadear a catadupa de telefonemas e de telegramas de apoio e aplauso, alguns em voz embargada pela emoção, vindos de várias regiões de Angola.
    Recordo este pormenor de ordem pessoal, porque de algum modo documenta a afirmação que acima faço e quero deixar aqui, bem clara e peremptória: mesmo durante os dias malditos, nunca deixou de haver em Angola, entre brancos, pretos e mestiços, muita gente fiel a Portugal!
    Completamente abandonados pelos novos governantes da sua Pátria, vilmente caluniados pela imprensa, rádio e televisão de Lisboa e Porto, repentinamente privados do clarão de esperança que para eles representou o Governo do general Silvino Silvério Marques, obrigados ao silêncio pela ditadura antiportuguesa de Rosa Coutinho —, esses bons portugueses, que continuavam a querer uma Angola portuguesa, viveram numa angústia permanente, esperando um líder que lhes marcasse o rumo, orientasse os passos e aglutinasse as dispersas energias.
    Assim o exprimem algumas das suas atitudes, desde as sensatas às desvairadas, como a reacção ao estrangulamento dum motorista de táxi no Muceque Rangel, a greve dos camionistas, a invasão do Palácio para interpelar o Almirante Vermelho, ou essa vaga de incontível entusiasmo que deles se apoderou em 7 de Setembro, perante as notícias que vinham de Lourenço Marques, através da Rádio Clube de Moçambique…
    O desejado líder nunca apareceu. Os brancos foram desarmados. Uma a uma, caíram todas as ilusões. E, só então, os melhores portugueses de Angola, que sempre estiveram dispostos a segurar nas suas mãos a mais rica parcela da sua Pátria, só então é que aflitivamente se agarraram à derradeira esperança: uma independência real e verdadeira para todos, embora sob um governo da maioria negra.
    Dessa última fase dá testemunho o pescador português Manuel da Costa Marques, quando, já durante o Governo de Transição, o ministro Johnny Eduardo vai ao porto pesqueiro recomendar a reactivação das pescas.
    — Eu fico por todos estes pescadores — respondeu-lhe Manuel da Costa Marques — porque os conheço a todos. Aqueles que por aqui aparecem, de noite, para roubar e com ameaças, são desconhecidos. (…) Todos nós queremos trabalhar. E é o que eu tenho feito desde que para aqui vim, em 1957. Olhe as minhas mãos, Excelência (e mostrava-lhas,  possantes  e bem calejadas…). E não estou arrependido. Tenho filhos mulatos. A minha casa é um paraíso com todas as cores e sinto-me feliz: Agora, humilhado é que eu não quero ser. Mandem-me embora mas não me humilhem!
— Ninguém o vai mandar embora! — interveio o ministro. E esta foi apenas uma das muitas promessas não cumpridas…
(a)   O dr. Silva Tavares.
OS SINOS DA LIBERDADE
1.1 —«Desculpem, mas não alinho…»
— Desta vez é a sério! — anunciou o Simeão Baldaque quando cheguei à sala da redacção, às 9 horas de 25 de Abril de 1974.
— A sério, o quê?
— Coitado! Ele não sabe de nada!… — fez o colega no dito habitual dos programas Luanda-74.
— Deixa-te de gracinhas idiotas e, se tens alguma coisa a dizer, fala!
— Golpe de Estado em Lisboa.
— Ouvi às 7 horas a Emissora Oficial e não falou nisso.
— Não há comunicações com a Metrópole.
— Então como sabes?
— Tu ainda vens a dormir, menino! E as emissoras estrangeiras?! A BBC informou que a maior parte das Forças Armadas aderiu. O Governo refugiou-se no Quartel do Carmo, que está cercado por um esquadrão de blindados de Cavalaria 7.
— Outro passeio das Caldas…
— Não sejas obtuso, homem! O incidente das Caldas foi uma boa manobra para dar ao Governo uma ilusão de força. Agora é que se vai ver.
Peguei no jornal, ainda fresco da impressão e percorri rapida­mente os títulos.
— Ainda não traz nada sobre o caso…
— Querias? — perguntou ironicamente o Baldaque. — Não vês aí que foi visado pela censura?
O meu jornal faz-se durante a tarde e a maior parte da noite. Na rotação dos turnos, tocara-me a vez de dormir de noite e era, nesse dia, o único redactor escalado para a parte da manhã.
          O Baldaque tinha ficado de piquete ao telex desde as 2 horas. Mas não regressou. E, quase de seguida, outros elementos do corpo redac­torial entraram, quebrando o seu tempo de repouso, ávidos de notícias: o Maia Campita, ferozmente decidido a emagrecer e cada vez mais gordo; o Carlos Pontes com a sua barba à Renascença; o Gama Ribeiro, de bigode farfalhudo; o Rosa Amaral, de cara emoldurada numa franja loura; o Sousa Quevedo, que na véspera regressara de uma reportagem aos campos de petróleo do Zaire; o Santos Gouveia, sempre de alma aberta a todas as esperanças —, todos gente nova, idealista e alvoroçada com as perspec­tivas da sonhada mudança.
— Agora é que é! — exclamavam.
— Que dizes a isto, bailundo? — disparou contra mim o último dos citados, que nasceu no Algarve mas tem a cara tostada dum mouro de Ceuta.
— Que queres que diga, beduíno?
— Beduíno será o teu avô!
— O meu avô é da Gabela…
— E teu pai é fascista…
— Merda para a conversa de chacha! Eu estou de serviço e tenho que fazer.
— Viva o glorioso trabalhador! — chasqueou o Rosa Amaral. — Responde ao que te perguntam, meu filho! Vomita o que pensas, que o tempo da rolha acabou.
— Deus te ouça, poeta! Mas, por enquanto, ainda não vi nada. Dei­xem-me trabalhar!
— Louvo os teus propósitos, irmão! — declarou o Sousa Quevedo com a voz solene dum padre no altar. — E ofereço-te um tema mesmo em cima do acontecimento: «os sinos da liberdade»…
— Boa ideia! — apoiou o Maia Campita. — Deixemos este génio a alinhar os seus adjectivos e vamos ao Biker, rapazes! É capaz de haver lá mais notícias…
Saíram, na mesma lufada de alegria com que tinham entrado. O Baldaque foi com eles e eu fiquei só, na sala repentinamente silenciosa.
Puxei dum maço de linguados e escrevi ao alto «Os sinos da Liber­dade». Mas fumei todo um lento cigarro antes de encontrar qualquer frase de abertura. Eu ainda não ouvia o badalar festivo. Ou estava desabituado do tema. De resto, sópela rádio é que se podem ouvir os sinos das igrejas de Lisboa. É pouco, para mim, que sou um homem de Angola…
Já perto do meio dia, soube que o Presidente Américo Tomaz não estava no Carmo: tinha-se refugiado no quartel de outra unidade militar, também cercada por tropas do Movimento. A Marinha alinhara no golpe de Estado e uma fragata tomara posição no Tejo, ameaçando bombardear o Palácio de Belém, se fosse indispensável.
Às 13 horas, a secção portuguesa da BBC de Londres voltou a dar notícias. A mais importante era que o Governo de Marcelo Caetano continuava cercado no Quartel do Carmo mas ainda se não rendera. Constava apenas que já lhe fora entregue um ultimato pelo Capitão Sal­gueiro Maia, que tinha os canhões dos seus «tanques» apontados para a velha caserna, significativamente situada à sombra de ruínas históricas.
No decorrer da tarde, as notícias continuaram sem qualquer confir­mação oficial, com o Chefe do Estado e o Presidente do Conselho privados de comunicação com o exterior e o Governo-Geral de Angola remetido a um silêncio de expectativa.
Foi neste ambiente que, às 17 horas, regressei a casa, sem ter con­seguido escrever mais que o título dum artigo e com o pensamento blo­queado pela mistura duma esperançada ansiedade e do receio de uma nova desilusão.
Pouco mais tarde, ainda não eram 18 horas, ouvi tocar a campainha e fui abrir a porta. O mesmo grupo da manhã irrompeu pela sala de estar, gritando a grande notícia: o Governo rendera-se. O Movimento das Forças Armadas acabava de triunfar sem um tiro. E os recém chegados romperam em vivas a liberdade. Viviam o seu momento de euforia. Abraçavam-se no magnífico entusiasmo da juventude. Quase choravam de alegria.
Alegria que era também a minha, porque tenho 32 anos e nunca simpatizei com o regime deposto. Por isso abracei os colegas, um a um. Mas coibi-me de ser tão expansivo como eles. E a razão era aquele homem de cabelos brancos, entristecido pela recente reforma, sentado e silencioso no seu cadeirão do living.
Caminhei para ele, a pensar num abraço de compreensão. Ergueu em barreira as suas mãos austeras de lutador e disse apenas:
— Desculpem, mas não alinho…
Parei, com o respeito de sempre por aquele velho, que durante 48 anos apoiara os governantes agora vencidos, que nunca me tentara afastar das minhas ideias políticas, que é meu pai…
1.2 — «Não tinha nada de ser!»
Os meus amigos compreenderam a situação, calaram com respeito as suas vozes de alegria e foram saindo discretamente.
Sentei-me então ao pé do meu querido velho e tentei confortá-lo:
— Tinha de ser, pai…
— Não tinha nada de ser! — protestou vivamente. E logo, com uma certa resignação — Mas não falemos mais nisso…
— Ao pé de mim, sempre poderá dizer o que pensa…
— Para quê?! Todo o meu mundo ruiu. Mas eu estou no fim. Tu pareces satisfeito e é isso que mais interessa… Agora, deixa-me só, meu filho…
Fiz-lhe a vontade, porque me pareceu que iria chorar.
No vento daquela amargura, toda a minha alegria se apagou. Será que a perfeita felicidade não é deste mundo?!
Nasci de gente pobre, fiz o curso dos liceus com livros emprestados e matriculei-me em Direito na Universidade de Lisboa, com uma Bolsa de Estudo.
Perdi-a quando entrei na greve de fome, ©m 1963. Tive então o primeiro contacto com o facciosismo político e com a polícia. Emprestei os meus discos, para iludir a fome ao som da música POP. A fome gritava mais alto e os discos nunca mais me foram devolvidos. Assisti a exageros verbais e brutalidades físicas. Nada disto destruiu a minha sede de liber­dade, que tem o seu preço.
Na primeira carta após a greve, meu pai nem sequer ralhou. Deu-me apenas alguns conselhos.
«Se tanto gostas da liberdade — escrevia — lembra-te de que, em Portugal, sem um canudo de Curso Superior nunca passarás de subalterno. Conquista a carta de advogado e serás mais livre do que eu pude ser. Muitas vezes me apetece dizer umas verdades ao meu chefe, mas engulo em seco, porque o meu pão depende dele.
«A liberdade é, essencialmente, uma conquista interior. Se formos nós próprios no domínio da nossa consciência, aí somos livres, ainda que de fora nos impeçam de exprimir as nossas ideias.
«Neste sentido, fui sempre um homem livre. Se tu queres ser mais do que isto, como sempre me pareceu, se queres ter também a liberdade de exprimir o que pensas e escolher o ideal político que mais te agrade, tens de te libertar da grilheta económica, que é a necessidade primária de ganhar o pão de cada dia.
«E só a quebrarás completamente quando licenciado em Direito e devidamente instalado no exercício da tua profissão.
«Com o Curso de Direito ganhas uma profissão liberal. E o nome é bem cabido, porque uma profissão liberal ainda é o melhor processo de se beneficiar de um pouco de liberdade efectiva e real.
«Sei que perdeste a Bolsa de Estudo, mas não te aflijas muito por isso. Eu vou mandar-te toda a ajuda que puder.»
Respondi com palavras de comovido agradecimento por tão bons conselhos, mas declarando que não precisava de dinheiro. Daria explica­ções para me aguentar nos estudos e havia de vencer.
Meu pai teimou e eu comecei a receber um conto e duzentos por mês. Mas soube mais tarde que o modesto funcionário passara a vestir de fardo e a usar sapatos keeds da Fábrica Macambira.
Mesmo assim, não consegui terminar o curso. As faltas dadas durante a greve da fome fizeram-me perder o ano e, com ele, o direito a adiamento do serviço militar. Fui incorporado, vivi o meu tempo de instrução na Escola Prática de Infantaria em Mafra e fui mobilizado para Moçambique.
Nessa altura, o Sousa Peixoto, meu condiscípulo e amigo, alferes como eu, mas destacado para Angola, propôs-me a troca:
— Tu és de Luanda e eu sou de Lourenço Marques. Ambos temos família na cidade onde nascemos. Dizes que teus pais são pobres e os meus vivem desafogadamente. Se trocasses comigo, eu dava 4e 50 contos…
— Não! — respondi sem hesitar. — Não sou mercenário e vou para onde me mandam.
Embarquei no Príncipe Perfeito e conheci a bordo uma bonita moça, de nome Salomé. Andámos muita vez juntos, dançámos quase sem­pre um com o outro e, em Luanda, despedi-me dela com a promessa de lhe escrever.
Não morri em Mueda, porque as orações de minha mãe me protege­ram. Atirada por um bando de guerrilheiros, uma granada caiu junto de mim, mas não explodiu.
Como todos os combatentes, deparei com angustiantes problemas humanos. Por exemplo, durante uma patrulha de reconhecimento armado, com objectivo importante e rigorosamente secreto, alguma coisa buliu, por entre o capim alto.
Afocinhámos na picada, com as caras no lodo e o dedo no gatilho das armas.
— Esperem a minha voz de fogo! — transmiti ao pelotão. E ficámos à espera do que surgisse.
Afinal, surgiu uma velha tacanha, com as mãos bem erguidas acima da cabeça, já de carapinha toda branca.
Logo cercada por quatro soldados, a pobre mulher nem conseguia falar, do muito que tremia.
         — Raios parta o azar! — praguejou o meu sargento — se a deixa­mos ir, adeus segredo desta operação! E levá-la às costas não podemos, porque nos atrasa a marcha. O diabo da velha… Olhe, meu alferes, vou com ela para trás daqueles arbustos <e arruma-se a questão…
— Ninguém toca nessa mulher! — decidi, após segundos de refle­xão, que me pareceram anos — a velha vai connosco. Quando não puder andar, carrega-se numa padiola.
— Desculpe, meu alferes, mas está a arriscar a vida de todos nós…
— A nossa vida está sempre em risco. Não a quero defender com um assassínio. Vamos!…
1.3 — Uma certa confusão de sentimentos…
Naquele meu grupo de amigos, quase todos camaradas de trabalho no meu jornal, a alegria era sincera e profunda. E, se bem que temperada pelo respeito devido a meu pai, também em mim o era.
Mas, em termos de generalidade, na cidade branca e preta, veri­ficava-se uma certa confusão de sentimentos, à volta da grande interro­gação que se levantava para os lados do futuro. Como se ia pôr termo à guerra de Angola?
Numa geral aspiração de paz, os angolanos brancos receavam que fosse, para eles, a paz dos vencidos, ou mesmo a paz da sepultura. E a grande massa dos angolanos de cor, que não tem ambições políticas, pensava no que poderia acontecer nos dias da confusão.
Por isso, não houve imediatamente em Luanda nada semelhante à explosão de alegria popular que aconteceu em Lisboa no dia 1.°de Maio. E isto parece-me grandemente significativo, porque em Lisboa havia apenas a deposição de um regime e, em Angola, estava no horizonte o nascimento de uma nova nação.
O Rosa Amaral, escandalizado com esta apatia, perguntava:
— Então, que raio de pasmaceira é esta?! Quando chega a Luanda o 25 de Abril?
E, dias mais tarde, foi, com alguns partidários políticos mais decidi­dos, quem organizou a primeira manifestação de apoio ao Movimento das Forças Armadas.
— Tens de vir! — disse-me ele no dia aprazado. — E vê se contas a verdade no jornal!
— Estás a insultar-me com a recomendação. Mesmo com a Censura, se calei muito do que sentia, nunca disse o que não pensava. Entendido?
— Tá bem, mas quero-te lá com o teu saco de adjectivos de primeira escolha… A concentração é às 15 horas, no Largo Dom Afonso Henriques.
Quando lá cheguei, já o largo estava cheio de gente de todas as classes sociais e de todas as cores da pele. Mas pareceu-me que a maior parte era de curiosos, sem integração real no sentido político daquele encontro.
O Rosa Amaral foi o primeiro a falar, empoleirado no pedestal daquela estátua, que Lisboa nos mandou como sendo Afonso Henriques mas que, na má língua de Luanda, era Egas Moniz, antes de ir ao rei de Leão com a corda ao pescoço…
Com o rosto moreno debruado pela barba bem tratada, o Rosa Amaral lembrava um condottïere, com a bravura dum guerrilheiro na alma dum poeta lírico.
Falou pouco e bem. Disse que o programa era irem dali ao Largo do Palácio e, seguidamente, ao comandante-chefe. Afirmou que Luanda devia associar-se à alegria de todo o Povo português, pelo regresso às liberdades democráticas.
E logo irromperam os primeiros aplausos:
— Muito bem! Muito bem!…                                           •
Aquecido pelo entusiasmo popular, o orador lançou-se nas grandes
afirmações.
— A partir desse glorioso amanhecer de 25 de Abril em que o sol já era o rosto da Liberdade…
— Muito bem! Muito bem!
— …é preciso que todos nós, finalmente restituídos à nossa digni­dade de homens, todos nós…
— Apoiado! Viva o 25 de Abril! Viva o general Spínola!
— …todos nós — dizia eu — gritemos a nossa liberdade, abracemos a nossa liberdade, defendamos a nossa liberdade…
— Muito bem! É assim mesmo! Viva a Liberdade!
— …e proclamemos bem alto a nossa união, a nossa força, a nossa…
— Muito bem! Muito bem! O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido. Viva a Liberdade!
— Peço a palavra!
— Tem a palavra o senhor (como se chama?)
— Abel Rieiros, metalúrgico.
— Tem a palavra o sr. Abel Rieiros…
— Pois eu pedi a palavra só para dizer aqui bem alto, sem medo dos pides, e dos fascistas e do grande raio que os parta a todos…
— Muito bem! Apoiado! Isso é que é falar…
— …só para dizer que sempre fui um bom democrático. E agora que foi esmagada a cabeça da tirania…
— Muito bem! Viva o 25 de Abril!
— …agora, coimo estava a dizer, só quero gritar com toda a minha alma: viva a Liberdaaaaade!…
— Viva!!! — ecoou a multidão em delírio.
E outros vivas explodiram, ao general Spínola, ao Exército Português, a Angola, ao MFA, a Portugal, até mais outro, bem cabido mas de cariz pessoal:
— Viva o dr. Rui Luís Gomes, que é meu amigo! E logo a nota cómica, inevitável na euforia dos grandes entusiasmos populares:
— Viva o amigo do sr. dr. Rui Luís Gomes!
— Viva!
— Viva a Democracia!
— Viva!
— Viva a Liberdade!
— Viva!
— Viva Luanda!
— Viva!
— Viva Angola!
— Viva!
— Viva Portugal!
— Viva a gente dos Muceques!
— Viva!
— Viva, outra vez e sempre, o 25 de Abril!
— Viva Moçambique!
— Viva!
— Viva Cabo Verde!
— Viva!
— Viva S. Tomé e Príncipe!
— Viva!
— Viva Portugal!
No rosto fino de Rosa Amaral, notei o aborrecimento de ver descarrilar a sua manifestação para níveis de mau gosto e de chacota.
— Meus senhores — pediu, erguendo os braços num gesto de reclamar silêncio — temos de ir ao Palácio.
— Mas eu também quero falar — lembrou um dos presentes.
— Deixem falar o homem! — gritaram várias vozes.
— Sim, porque ou há liberdade ou não há liberdade! — refilou o candidato ao uso da palavra.
liderados por velhos democráticos de sempre, outros claramente nas­cidos das despertas ambições dos oportunistas de todas as horas con­fusas.
A Acção Nacional Popular, a Mocidade Portuguesa e outras institui­ções do regime deposto foram sucessivamente dissolvidas. Quase todos os mais entusiásticos defensores de Salazar e Marcelo Caetano desapare­ceram como por encanto. Afinal, nesta terra, agora novamente designada como colónia, só havia democratas. Democratas sinceríssimos, fidelís­simos e indefectíveis…
Meu pai, no seu cadeirão de repouso, lia os jornais de ponta a ponta, acendia os cigarros uns nos outros e não correspondia às minhas tentativas de o distrair da sua crescente amargura.
— Porque não aceita a realidade, pai?
— Sou um vencido e aceito a derrota.
— Mas com uma cara de desesperado…
— Estás a ser cruel, meu filho. Lembras-me aquele tenente americano da «25.a Hora» que aponta a sua máquina fotográfica a Johan Moritz e pede: — Smille! Também tu queres que eu sorria para ficar bonito no retrato?
— Só queria vê-lo menos infeliz…
— Ouço dobrar a finados por uma Pátria que sonhei grande. Não é música agradável…
— Como podemos ser tão diferentes, pai?!
— Estás profundamente enganado, rapaz! Ambos somos sinceros e é na sinceridade que se igualam os homens com ideologias diferentes. Assisti à Revolução de 28 de Maio de 1926 e as palavras que hoje se dizem são bem semelhantes às que então se disseram.
— Mas com sinais diferentes…
— Sempre os povos gostaram dos ventos da mudança. Eu já estou velho demais para mudar. Segue o caminho que julgas melhor e deixa-me ser fiel a mim próprio. Não viro a casaca, até porque foi albarda que nunca tive.
— Bem sei. Usou roupa de fardo, para eu continuar a estudar…
— Que importância tem isso, agora?
Meu pai é assim: uma rocha inabalável. E nem eu gostaria que fosse diferente…
Entretanto, na Metrópole, começaram as greves reivindicativas. E não tardou muito que o processo ecoasse em Angola, com perturbações de toda a ordem que só a espantosa vitalidade económica do território poderá vencer.
Houve a greve dos estivadores do Porto, a dos Transportes Colec­tivos, a dos Bancos, a dos serventuários da Câmara, a do Caminho de Ferro de Benguela, a das tripulações de alguns navios fundeados no porto e até, numa hora em que se pediam vassouradas gerais, também parou a laboração de uma fábrica de vassouras.
Assisti, por incumbência do meu jornal, à mais breve e mais ordeira de todas: a da Refinaria de Petróleo, cujas unidades pararam às 12 horas de uma sexta-feira e recomeçaram o fabrico ao anoitecer desse mesmo dia.
No intervalo, houve reunião no Centro de Convívio do pessoal da Petrangol, com diálogo animado e a serena paciência dum major do Exército, que ajudou a conciliar as partes em litígio.
As palavras mais exaltadas que ouvi, enquanto o oficial tentava demonstrar os inconvenientes de uma tal greve, viriam dum operário mais renitente, que do meio da assistência, comentou:
— Parece um guarda republicano a falar!
Mas o major não ouviu (ou não ligou) e tudo terminou em beleza com um convite que lhe foi dirigido pelo pessoal da refinaria para uma visita a unidade.
O oficial acedeu, circulou através dos toppings e das fornalhas, acabando por entrar na sala de controlo.
— Agora, o sr. major carregue neste botão! — pediu o chefe do turno.
— Para quê?! — disse o oficial. — Eu não percebo nada de refinarias de petróleo…
— Nem é preciso. Basta carregar neste botão. Faça favor! O major fez o que lhe era pedido e o técnico declarou com a maior naturalidade:
— Pode V. Ex..cia telefonar ao sr. comandante-chefe que a Refinaria de Luanda já está de novo em labutação. Aqui tem o telefone…
1.5 — De Salomé à Mariluz
Ainda não tenho 35 anos e já uso um estado civil que cheira a velho: sou viúvo. Viúvo daquela Salomé que encontrei a bordo do Príncipe Perfeito, durante a minha viagem para Moçambique e a quem prometi escrever quando ela desembarcou em Luanda.
Prometi e fui além da minha promessa. Na verdade, as minhas cartas e as dela tornaram-se tão frequentes e progressivamente tão íntimas que logo se transformaram em namoro pegado. Namoro por correspondência, que é dos mais perigosos que podem acontecer entre homem e mulher.
Teimoso como sempre fui, consegui vir passar a Luanda as minhas primeiras férias militares, viajando num velho Skymaster da FAP.
Meu pai ficou delirante, porque pensou que seria por amor à família. E também era, mas não em regime de prioridade. A razão mais forte estava naquelas cartas incendiárias, em que, às minhas primeiras ousadias verbais, a Salomécorrespondia sem hesitações, abrindo-se toda, como um botão de rosa que desabrocha ao toque mágico dum sol primaveril.
Passei a frequentar a casa dela, onde fui acolhido com as honras de noivo declarado, aceite e seguro. Ela morava numa vivenda do Bairro da CAOP, bonita e confortável. Chamava-se Salomé de Almeida Cader­nais, filha de Júlio de Malva Cadernais, funcionário público, e de Cremilde Figueirinhas de Almeida Cadernais, dona de sua casa e muito senhora do seu arrebitado nariz.
Era de leite e mel para mim, essa dama ainda frescalhota, bastante espalhafatosa, com todos os vícios da nova rica e sempre com quatro pedras na mão contra o marido, que usava com ela a fatal condescen­dência de quase todos os homens pacíficos e bons.
O meu pensamento de que a filha única talvez saísse à mãe depressa naufragou nas vagas encapeladas do nosso desvairo amoroso.
E o que tinha de acontecer, aconteceu…
Com uma honestidade herdada de meus pais, considerei-me com­prometido e, no termo da comissão militar, casei com a Salomé, no maior disparate que ainda cometi na minha vida.
Abreviando uma história cuja recordação ainda me aflige, passo imediatamente ao final. Aquele precipitado casamento falhou em menos de dois anos, felizmente sem filhos, porque ela não os queria ter.
Requeremos o divórcio de comum acordo. Pouco depois de o juiz ter lido a sentença, ela matou-se estupidamente num aparatoso desastre de automóvel. E, apesar de tudo, tive muita pena dela.
Durante longos meses, que lentamente se foram dobando em três novelos de anos, senti-me complexado pela ideia de ser viúvo. Entendia que isso me colocava à margem de qualquer interesse de rapariga.
Até que reparei nos olhos límpidos da Mariluz (Maria Lucinda, na pia do baptismo).
Os olhos límpidos diziam coisas suaves mas eu já tinha perdido a sensibilidade requerida para bem as entender. Interpretei-as com um sentido que não tinham, aproveitei a primeira oportunidade para avançar com as mãozinhas, levei uma tampa de todo o tamanho e tive o bom senso de reconhecer o meu erro.
— Desculpa, Mariluz! — pedi com humildade. — Transformei-me num bicho… Sabes que fui casado?
— Contaram-me.
— Foi uma péssima experiência!
— Acredito. E deste agora em experimentador profissional…
— Será um pouco isso…
— Mas é mau. Nem todas as mulheres são iguais.
— Estás zangada comigo?
— Não gostaria que me obrigasses a tanto.
— Não quero obrigar-te a nada. Só gostaria de me reconciliar com a vida.
— Acabarás por encontrar quem te ajude nessa boa tarefa.
— Talvez já tenha encontrado…
Ela sorriu, com os seus modos comedidos de menina séria e bem educada. Multiplicámos os nossos encontros, comigo no comportamento de namorado fiel e respeitador. Contei-lhe a minha vida. Contou-me a dela. E nasceu entre nós uma doce intimidade.
Nos olhos límpidos também às vezes chispavam fulgurações muito vivas, cuja intenção não me atrevia a perguntar. Tornava-se belíssima nesses momentos fugazes.
— Porque estás tão linda? — perguntei às vezes.
— Isso é dos teus olhos… — respondia evasivamente.
— Gosto muito de ti — disse-lhe, mais tarde, evitando ainda a palavra amor.
— Não gostas mais do que eu…
Arregalei os olhos, na surpresa daquela inesperada confissão. E, depois, murmurei-lhe baixinho:
Tu dizes que gostas muito e eu digo que gosto mais; juntam-se as bocas num beijo e os beijos ficam iguais…
— Bonitos versos! São teus?
— São.
— Dedicados à tua primeira mulher?
— Fi-los esta noite, porque não conseguia dormir.
— Aquém?
— A uma certa rapariga, cuja lembrança me tira o sono…
— Não te sabia poeta. Os poetas imaginam coisas…
— Não há como tirar a prova da verdade!
E assim aconteceu o nosso primeiro beijo de amor…
1.6 — «Nem precisa, homem!»
Num dos primeiros dias de Maio, o cabo João dos Santos, da Polícia Militar, estava de sentinela à porta de armas da Fortaleza de S. Miguel, em Luanda.
Pensava na sua modesta casa na Rua da Figueirinha, em Oeiras, onde sua mãe o aguardava ansiosamente, agora que a guerra de Angola ia findar, para dar lugar a uma solução política, livremente escolhida por toda a população da maior província africana de Portugal.
Sonhava com o belo sorriso daquela moça leal e afectiva, que encon­trara na Feira Popular de Paço de Arcos, pouco antes do seu embarque para Luanda, e que agora lhe escrevia todas as semanas. Sentia-se já demais, de guarda àquela grave fortaleza de outras eras, tendo à sua frente quatro grandes canhões do século XVIII.
Mas, de repente, olhando por cima daquelas peças históricas, avistou um belo Mercedes a atravessar a ponte dos suicídios que une a cidade alta ao morro de S. Miguel, por cima da ravina que do Hotel Continental conduz à Praia do Bispo.
O veloz automóvel galgou rapidamente a pequena encosta, entrou na meia laranja e estacou junto da porta de armas. Já perfilado em con­tinência, o cabo viu como do carro saía um general de quatro estrelas. E, ao fitar-lhe o rosto, João dos Santos ia caindo de puro espanto. À sua frente estava o general Costa Gomes.
Com um risinho de esguelha, o antigo comandante-chefe das For­ças Armadas de Portugal em Angola correspondeu à continência do militar, entrou no túnel de acesso e pediu ao oficial de serviço que o conduzisse ao comandante-chefe.
Em passadas largas e firmes, foi pisando aquelas pedras históricas e entrou na impressionante sala de comando.
Também colhido de surpresa, o general comandante-chefe das Forças Armadas ergueu-se da cabeceira da grande mesa rectangular, onde estudava um grande mapa do Sector Leste e bateu a continência.
— Podes sair — disse o general Costa Gomes — já estás substituído neste posto. — E o outro saiu, sem dizer palavra.
Entretanto, alguns capitães e um major, que tinham chegado de Lisboa no mesmo avião militar do general Costa Gomes, reuniram-se no salão de convívio da Base Aérea n.° 9, à volta de mesas bem fornecidas de cerveja Cuca e de uísque White Horse.
— Como foi isso do 25 de Abril? — perguntou um piloto de heli­cópteros.
— Temos aqui o cérebro da revolução — informou um dos recém-chegados. — Ele que vos conte.
O oficial indicado bebeu o resto do seu uísque, esmagou no cin­zeiro o cigarro que começava a fumar e declarou que tudo tinha sido muito simples.
— Os gajos estavam todos podres. Não foi preciso disparar um tiro. Tudo funcionou com a precisão dum relógio suíço. Logo às primeiras horas da manhã, já sabíamos que tínhamos vencido.
— Mas o Presidente do Conselho só se rendeu ao fim da tarde
— objectou um tenente aviador.
— No Carmo, o capitão Salgueiro Maia armou em menino bem com­portado, que não gosta de partir a louça. Ia-se lixando, porque chegou a estar encalhado entre a Guarda Republicana que o visava das janelas do Quartel e uma força de infantaria, cujas intenções não conhecíamos e que descia dos lados da Santa Casa da Misericórdia. Mas o Maia é um gajo fixe e tudo terminou em bem.
— E agora? — quis saber o chefe dos mecânicos da Base.
—  Agora, vamos começar a limpar as pocilgas do país.
— Quanto às colónias? — insinuou outro.
— Temos de acabar com esta guerra sem sentido e entregar a terra aos donos. Estamos muito satisfeitos com os nossos camaradas de Angola. Mas os elementos do MFA devem manter os olhos bem abertos. Sabemos que há por aí uns tipos com peneiras. Vão ser imediatamente enquadrados por gente da nossa inteira confiança… Vejo aí, na placa de estacionamento dois Camberras da África do Sul! — que vieram cá fazer?
— Havia um plano para acabar com os últimos focos de resistência dos turras — explicou o comandante da Base. — E os nossos caças bom­bardeiros F 84 já não estão operacionais. Com as três Fortalezas Voadoras B 26 vindas de Lisboa e uma pequena ajuda da Força Aérea Sul Africana, já podíamos actuar em força.
— Tudo isso é história antiga — decidiu o major. — O general Costa Gomes deve estar a despedir o comandante-chefe. E certamente ordenará a partida dos Camberras para a sua terra e o regresso das três Fortalezas Voadoras a Lisboa. Os bombardeamentos da aviação em Angola termina­ram. E pronto, rapazes! Vão consciencializando as tropas da necessidade de abandonar uma terra que nos não pertence, Portugal tem de reconquis­tar a sua dignidade e o seu prestígio no mundo. O fascismo terminou. É preciso substituir rapidamente os elementos suspeitos. E cautela com a maioria dos brancos, hein!…………
Entretanto, falando ao findar desse mesmo dia, pela Emissora Oficial de Angola, o general Costa Gomes adoptava um tom muito diferente, manifestando uma grande confiança no futuro do que significativamente chamou «a maior parcela de Portugal».
Afirmou que Angola continuaria portuguesa, embora ressalvando que seriam as suas populações — todas as suas populações — a decidir sobre os laços que desejavam manter com a Mãe-Pátria, no exercício do seu direito à auto-determinação. Assegurou solenemente que nada se faria sem que a etnia branca fosse previamente consultada. E, referindo-se aos guerrilheiros, que então passou a chamar movimentos emancipalistas, embora considerasse muito pequena a suarepresentatividade, disse que poderiam vir para a sua terra dialogar connosco no plano das ideias políticas. «Mas com uma condição — acrescentou — a de deporem as armas. Tenho ordens terminantes da Junta de Salvação Nacional para nãopermitir a propaganda de movimentos em armas. Permitir isso seria apu­nhalar os nossos soldados pelas costas.»
Antes de regressar a Lisboa, não deixou de visitar um velho amigo e conterrâneo, em casa de quem jantava frequentemente quando foi comandante-chefe das Forças Armadas na maior província do Ultra­mar Português.
E como este, enquanto lhe servia um uísque bem doseado, insi­nuasse que não tinha um centavo fora de Angola, atalhou impulsivamente, em tom de grande convicção:
— Nem precisa, homem!… Se eu fosse rico, era agora que investia todo o meu dinheiro nesta bela terra.
1.7 — Manifestação e contra-manifestação
Veio a Luanda o ministro da Comunicação Interterrítorial, com a declarada intenção de auscultar as populações sobre a nomeação do novo governador-geral.
Com a sua paciência de advogado, habituado a dirimir «milandos» em Lourenço Marques, ouviu quantos quiseram falar-lhe e depois, numa animada conferência de imprensa, revelou desconsoladamente que, em vez de um nome, lhe tinham sugerido quarenta.
No dia da partida (26 de Maio de 1974), autorizou que adeptos dos movimentos emancipalistas se manifestassem em frente do palácio. E pôde ler dezenas de cartazes, desde os apelos à independência total e imediata, até aos «vivas» e«morras» que são inevitáveis quando o povo começa a falar sem papas na língua.
Mas o pior aconteceu depois: a contra-manifestação, em que o ministro foi alvo de palavras azedas, que persistentemente o acompanha­ram até ao avião do regresso a Lisboa e, mais do que todos os discursos de circunstância, o terão alertado para a real complexidade do processo de descolonização de Angola.
De regresso a casa, informei meu pai dos acontecimentos e pedi a sua opinião.
— Nunca aprovei faltas de respeito à autoridade constituída — respondeu ele prontamente. — Mas a primeira manifestação também foi um erro. Assisti, por acaso, à debandada dos manifestantes. E não gostei.
— Incomodaram-no?!
— Nada. Quando atravessava um grupo mais numeroso, até um garoto negro teve um rasgado gesto de sinaleiro e berrou cordialmente:
— Deixem passar este branco velho!
— Mas também houve atitudes bastante diferentes, pedradas em automóveis, coisas que podiam dar muito mau resultado.
— A contra-manifestação foi mais desordeira— intercalei, em defesa da verdade.
— Não sei, porque não vi. Mas, a ter de acontecer, foi bom que o ministro assistisse. Se já cá não estivesse e depois lho contassem, talvez não acreditasse…
— Não me diga que aprova?!
— Não aprovo nada! Já te disse que não gosto de desordeiros, sejam eles quem forem. Mas os governantes que nos mandam de Lisboa devem saber prever as reacções de todos os sectores da população. Luanda não foi construída por gente abúlica ou insensível…
Calei-me respeitosamente. Meu pai aparentava uma serenidade que não sentia. Continuava fiel a convicções muito sinceras. E ao mais ligeiro toque, a ferida sangrava…
Eu via os factos de outra perspectiva. Mas também começava a sentir-me apreensivo. Não poderá a Nação Angolana nascer sem grandes sofrimentos e convulsões?…
Tardou mais tempo do que o previsto a nomeação do novo governador-geral de Angola, mas acabou por chegar. E, com grande surpresa para muitos, recaiu sobre o general Silvino Silvério Marques.
— Vais à chegada do governador? — perguntou-me a Mariluz, na manhã do dia anunciado para o acontecimento.
— Tenho mesmo de ir, porque estou encarregado da reportagem para o jornal.
— Correm por aí uns panfletos, a aconselhar que não vão lá…
— Então, irá muito mais gente.
— E é capaz de haver confusão.
— Confusão também é notícia…
— E perigo…
— Gostarias de um homem medroso?
— Não. E até aos bocadinhos te aceitaria com amor inteiro. Mas a coragem não impede a prudência…
— Um jornalista é, de profissão, um imprudente. Mas não te aflijas, que não vai haver nada de especial.
E até houve. Não pelo facto de o avião dos TAP chegar atrasado, ao que já estamos habituados, mas porque não vi os costumeiros ranchos de crianças das escolas, nem as bandeiras da Mocidade Portuguesa, nem as camionetas carregadas com gente dos muceques. O que logo se notava era um dispositivo militar de muito respeito…
No entanto, não faltava gente, ou por sincera dedicação a um gover­nante já conhecido em Angola, ou em reacção bem luandense contra o conselho de não comparecer.
De inteiramente novo, registei a presença dum grupo, situado bem em frente da saída da aerogare, com três cartazes, num dos quais se dava o «fora» ao governador prestes a chegar. Isto acontecia pela primeira vez em Luanda, depois de quase meio século em que os governantes enviados de Lisboa eram sempre entusiasticamente aplaudidos à chegada e severamente criticados à partida…
Mas também este incidente teve um desfecho ainda mais original e imprevisto. Após a breve cerimónia do protocolo, e quebrando a rotina da habitual mensagem aos microfones da Emissora Oficial na sala dos VIPS, o general Silvino Silvério Marques atravessou por entre o povo que enchia o átrio do aeroporto e encaminhou-se para o automóvel.
Com o seu modo grave mas afável, saudou a multidão acumulada no largo e, como não podia deixar de ser, leu num dos cartazes erguidos bem à sua frente:
«Silvino, vai-te embora!»
Teve um sorriso indefinível e com a mão fina saudou cordialmente quem assim o hostilizava.
Aconteceu então o inacreditável: o grupo deixou cair o cartaz e correspondeu à saudação do governador com uma salva de palmas.
O general Silvino Silvério Marques entrou no carro e seguiu para um palácio já seu conhecido e para uma das mais amargas fases da sua vida de português, de soldado e de governante.
Mas esta sua segunda passagem pelo Governo-Geral de Angola, infelizmente tão breve, foi um clarão de esperança para a esmagadora maioria dos angolanos de todas as etnias.
1.8 — Um clarão de esperança
Assim o afirmou, com inteira verdade e muita oportunidade, um dos mais antigos colaboradores do meu jornal, com ideias muito seme­lhantes às de meu pai, que saudou o novo governador-geral com palavras de muito respeito e admiração, sem se importar absolutamente nada com a bruta hostilidade, que já então começava a manifestar-se, da parte dos novos antifascistas, contra tudo o que pudesse interpretar-se como apoio, directo ou indirecto, a homens do antigo regime.
«Depois de Norton de Matos — escreveu ele — o general Silvino Silvério Marques é o único governador-geral de Angola a voltar ao cargo que anteriormente exerceu.
«Deixou Angola há cerca de oito anos, com as lágrimas nos olhos. Regressa em circunstâncias decisivas para o destino desta terra e com uma amplitude de iniciativa que nem ao general Norton de Matos foi concedida.
«Penso conhecer bastante bem as suas qualidades, porque sou teste­munha presencial da sua actuação no Conselho Legislativo e beneficiei do privilégio de o acompanhar em algumas das suas viagens através de Angola.
«Não agradou então, nem agradará agora, a toda a gente. Mas o defeito que mais insistentemente se lhe apontou, durante os quatro anos do seu anterior Governo, foi, afinal, a sua mais alta virtude: a sua contínua preocupação de chamar os mais válidos naturais da terra ao desempenho de funções qualificadas no Governo, na administração pública e nas empresas.
«Trabalhou esclarecidamente pela sociedade multirracial, com uma honesta e constante atenção aos homens de cor, mas com os olhos bem abertos para os legítimos interesses de todas as etnias. Diziam alguns que só apertava as mãos dos pretos. Mas, sempre que o acompanhei, vi que apertava a mão de toda a gente.
«A sua coragem está documentada pelo próprio facto de aceitar, nas presentes circunstâncias, as tremendas responsabilidades do cargo de governador-geral de Angola.
«Mas, embora altamente dotado para as tarefas mais delicadas, o general Silvino Silvério Marques precisa aflitivamente, não do apoio de todos (que nunca o terá) mas, pelo menos, do apoio de uma significativa maioria dos angolanos de todas as etnias.
«Se lhe negarmos este apoio, talvez nem assim o levemos ao desâ­nimo, porque é um soldado robustecido na luta e um homem de coração africano, definitivamente ligado a esta terra pelo sangue de um filho muito querido.
«Nós é que, abandonando-o à hostilidade aberta dos seus inimigos, poderemos entrar nos tenebrosos resvaladouros do desespero.
«Na verdade, o general Silvino Silvério Marques representa agora uma esperança para todas as populações de Angola.
«E é esta esperança que eu hoje saúdo, com inteira sinceridade, mas sem qualquer espécie de subserviência.»
No dia seguinte, quando saía da Igreja de Jesus, onde fora ouvir missa, o novo governador-geral encontrou o autor do artigo e, depois de lhe agradecer as suas boas palavras, acrescentou, de olhos nos olhos:
— Continue a defender a Angola dos portugueses…
Houve quem ouvisse essa recomendação, porque no dia seguinte, o Santos Gouveia, que estava a ficar «vermelho assanhado», como dizia o Rosa Amaral, comentou na redacção do jornal:
— Não vai durar muito, com estas ideias ultrapassadas…
O Santos Gouveia sabia que esse governante profundamente dedi­cado à terra do seu governo já estava sob a implacável hostilidade dos que, em Luanda e em Lisboa, tinham pressa de entregar todos o Ultramar Português ao despotismo de Moscovo.
OS DIAS MALDITOS
2.1 — A morte do enfermeiro Pedro Benge
Num dos primeiros dias de Junho, ainda antes da chegada do governador-geral Silvino Silvério Marques, o enfermeiro negro Pedro Benge foi assassinado por um branco.
Correu que o acto tresloucado acontecera na sequência duma dis­cussão azeda.
— O enfermeiro limitou-se a dar «vivas» ao general Spínola — diziam alguns.
— Não acredito! — afirmava o Baldaque, que é um moço ponderado e sério.
         — Eu conheço o assassino e já lhe falei agora na cadeia. Está arrependidíssimo do que fez, mas afirma que não conseguiu dominar-se quando o enfermeiro lhe fez ameaças relativas à filha e à mulher.
— E será verdade? — perguntei eu.
— Ninguém sabe, porque não houve testemunhas. Mas estou ten­tado a relatar esta conversa no jornal.
— É disparate! Coisas destas só se afirmam quando se podem provar.
— Compete-nos esclarecer o público.
— Assim não esclareces nada, porque tu próprio não conheces a verdade.
— É a versão mais verosímil. E eu não vou afirmar que é a verda­deira. Julgas possível que um homem normalmente sensato mate outro só porque ele dá vivas ao Chefe do Estado?!
— Vivemos horas de anormal excitação…
— Tentar explicar um gesto insensato é combater o clima de anormalidade.
— No caso presente não será. Tudo quanto pareça atenuante do crime servirá para enfurecer os mais exaltados. E, para a população negra, já o Pedro Benge se transformou num mártir.
          Embora me não parecesse convencido, o Baldaque escreveu uma crónica sóbria e objectiva, abstendo-se de comentários. E o funeral de Pedro Benge, com slogans e bandeiras do MPLA, foi uma impressionante manifestação de protesto ordeiro  esilencioso. Claro que o dispositivo militar, dentro e fora do cemitério, também era de respeito. E houve o cuidado de fechar ao trânsito de viaturas a zona mais quente do percurso.
A tensão na cidade encaminhava-se para o ponto de ruptura.
Ao amanhecer de um desses dias, o Gama Ribeiro apareceu na redacção do jornal, onde eu passara a noite.
— Preciso dum fotógrafo! — anunciou de olhos esgazeados.
— Há novidade?
— Há mais um crime. Lá em cima, à entrada do Muceque Lixeira, um motorista de táxi está morto, ao volante do seu carro. Estrangulado.
— Por quem?
— Ninguém sabe dizer. Aparentemente, pêlos passageiros que trans­portava. Está de cabeça caída para trás, sobre as costas do banco dianteiro, na surpresa da morte. Um horror!
Precisamente nesse momento chegava o fotógrafo do jornal, tam­bém alarmado. E seguiram ambos para o local da tragédia.
Na tarde do mesmo dia, os motoristas de táxi manifestaram-se junto do Palácio, protestando contra o crime e pedindo providências quanto à sua segurança no exercício da profissão.
Foram-lhes prometidas.
Mas, logo no dia seguinte, verificou-se na mesma zona um estúpido assalto aos passageiros dum machibombo. Morreram inocentes que paci­ficamente voltavam do seu trabalho.
Germinavam as sementes malditas do ódio.
— Foram os taxistas! — gritavam uns.
— Não foram nada! — contestavam outros.
E as opiniões dividiam-se, conforme as simpatias e tendências de cada um. Só a imprensa de Lisboa parecia dona da certeza absoluta: «tinham sido os racistas brancos.»
Começou, para mim, um tempo de intensa actividade profissional. O jornal queria uma cobertura completa dos acontecimentos. E eu fui para o meio de emoções terrivelmente contagiosas.
          Nunca lamentei tanto o meu escasso poder de expressão. Não há palavras que digam o impacto daquela multidão silenciosa, acompanhando a pé a última viagem de Pedro Benge, sem mesmo olhar para a tropa que o general Franco Pinheiro encarregara de assegurar a ordem e a digni­dade do cortejo fúnebre. Não conheço adjectivos capazes de definir a atitude serena e vigilante dos soldados brancos e negros. E não há, na minha singela técnica de jornalista, recursos para exprimir a luz amar­gurada dos olhos dos brancos (falo da grande maioria pacífica), ao sabe­rem-se incriminados pela imprensa metropolitana de todo o mal que acontecia em Luanda.
Não é preciso ser branco (e eu não digo a minha cor) para compre­ender o profundo desgosto de homens tão injustamente apreciados por gente do mesmo sangue e da mesma Pátria. Não é preciso ter as mesmas ideias políticas, nem as mesmas crenças religiosas; basta ser apenas um homem como eles.
Mergulhado nos acontecimentos por dever de ofício, sinto uma enorme tristeza ao relembrar esses dias malditos, que mancharam de sangue a mais bela cidade da África tropical.
Vi a raiva incontrolada das multidões exasperadas. Senti o cheiro acre do sangue derramado, ainda vivo e quente. Ouvi os gritos do ódio adulto e choro confrangedor das crianças aterrorizadas.
Não quero — ninguém deve querer — que Luanda se transforme num hediondo matadouro.
Toda a minha alma se insurge contra os instigadores de tamanho crime. Todo o meu coração pede que se trave esta escalada de violência.
E não me digam que as nações também nascem em dor!
Será que todos nos entregamos à fatalidade?!…
2.2 — Sangue, intrigas e traição
Prosseguiram e agravaram-se os tumultos nos muceques.
Numa segunda-feira, por ordem da FNLA, os trabalhadores de cor faltam em massa, guardando o luto pelos seus mortos.
A tropa negra deixa as armas nos quartéis e marcha para a Forta­leza de S. Miguel, onde protesta junto do comandante-chefe contra a sua exclusão das patrulhas de protecção ao povo dos subúrbios.
Uma grande multidão civil, que vai na retaguarda dos soldados, depara com uma barreira da Polícia Militar. Impasse. Manifestantes mais exaltados tentam desarmar um elemento das forças armadas. Segue-se a inevitável reacção pelo fogo. Estalam rajadas das armas de guerra, primeiro para o ar, depois para o monte. Tombam alguns manifestantes. Um jovem estudante de Medicina, que se apeia de uma ambulância para acudir aos feridos, é fulminado por uma bala vadia. E, pela tarde, os autotanques dos bombeiros lavam o sangue da Avenida Álvaro Ferreira…
Uma delegação do M.P.L.A. vai a Lisboa expor a sua versão dos acontecimentos. E, dias depois, na orla dos muceques, encontrei um dos seus elementos, que afirmava, num grupo de militantes do partido do dr. Agostinho Neto:
— Nada temos a recear de Lisboa. Os homens do MFA estão mortinhos por se verem livres de Angola…
Contei isto ao Rosa Amaral. Respondeu-me que o MPLA era um partido de fanfarrões. Mas estava internamente tão esfrangalhado que já não valia o espirro dum gato sifilítico.
— Talvez não valha — comentei, reticente —, mas não me admiro nada se conseguir afastar daqui o general Silvino Silvério Marques. Já o chamaram a Lisboa…
— É verdade?! — perguntou o meu colega de redacção.
Era verdade. E essa viagem não teve regresso. Será que o dr. Al­meida Santos o mandou para Luanda, não porque assim lho tivessem pedido os homens de Angola, mas para mais depressa o queimar?!…
Já em pleno domínio da traição, esse Homem bom, generoso e com­petente foi substituído por uma Junta Governativa, presidida pelo almi­rante Rosa Coutinho.
O Almirante Vermelho desceu na capital de Angola com a arrogân­cia de um comandante de tropas de ocupação.
— Quando volta o sr. general Silvino Silvério Marques? — pergun­taram-lhe os jornalistas no aeroporto.
— Já não é governador-geral de Angola — respondeu com a sua malcriadez de complexado pelas sevícias a que o submeteram em Matadi.
— Quando será a independência de Angola?
— São os angolanos que hão-de decidir. Eles já decidiram? — fez ele com o seu risinho cínico…
2.3 — Que querem fazer da nossa cidade?!
— Será agora que teremos algum sossego? — pergunta-me a Mariluz, com o seu ar de donzela assustada.
— A história dos homens é uma crónica de guerras.
— Bem sei. Mas nós precisamos de paz e tu andas no meio dos tiros…
— Com uma esferográfica e um bloco de apontamentos.
— Frágil couraça contra as balas das metralhadoras!
— As armas hão-de calar-se.
— Não é o que se vê…
E não era.
Chegaram mais dias tumultuosos. Durante a noite, a escuridão dos muceques, enjeitados pela energia eléctrica vinda do Quanza, ilumi­nava-se com o rubro clarão dos incêndios. Os estabelecimentos comer­ciais dos brancos e cabo-verdianos foram sistematicamente pilhados e queimados. A morgue encheu-se de cadáveres e o Hospital de S. Paulo ficou encharcado pelo sangue dos feridos. No Golfe, no Cazenga, no Lixeira, no Prenda e no Catambor, multiplicavam-se as agressões entre homens da mesma ou diversa cor.
Com a pura intenção de evitar maior efusão de sangue os soldados tentavam restabelecer a ordem com a simples presença. Mas havia nos subúrbios gente interessada em que não houvesse paz, excitando as populações. E estas interpretavam como fraqueza as armas silenciosas. Tropas de elite, de bravura comprovada, envergonhavam-se de recuar perante bandos cada vez mais atrevidos e receberam, finalmente, ordem de abrir fogo, quando absolutamente necessário.
Nas zonas centrais da cidade recomeçaram a ouvir-se as rajadas das armas automáticas. Helicópteros e Dorniers da FAP sobrevoavam incessantemente as áreas mais afectadas.
Os comerciantes dos muceques fugiram para a zona do asfalto. Luanda — a cidade branca e preta — parecia infectada pela doença do apartheid. Como não sabe viver dessa maneira, tomou, durante algum tempo, os aspectos duma cidade morta. E a revista Notícia, numa das suas crónicas mais emocionantes, perguntava desoladamente:
— Que querem fazer da nossa cidade?
Com uma inconsciência incrível, a imprensa lisboeta continuava a sua odienta campanha contra os brancos de Angola, atribuindo-lhes todas as culpas, mostrando-se vivamente interessada em despertar todos os ressentimentos da população negra, acirrando o ódio, parecendo dese­jar que não ficasse nem um só branco vivo, numa cidade por brancos portugueses fundada há quatrocentos amos.
— Como pode isto acontecer?! — perguntava-se entre gente pací­fica, que sempre viveu do seu trabalho, que sabe ser pior do que nos muceques de Luanda a vida em certas aldeias do Norte metropolitano, e que tem sido tão explorada como os pretos pelos colonialistas de Lisboa e Porto.
Instalou-se um forte dispositivo de segurança entre a cidade e os subúrbios. Na linha divisória, todos os carros são interceptados, para se. ver se levam armas.
Meu pai gosta de ir ver o que se passa, em lentos passeios a pé, ou no seu velho Cortina.
No regresso de uma dessas voltas de curiosidade, encontra-me em, casa e, contra o seu costume, mete conversa:
— A tropa começa a cumprir — informa. — Numa ida ao Aeroporto, mandaram-me parar três vezes. E, logo à primeira, um sargento, que deve ser do Minho e ainda conserva as cores de lá, espreitou para dentro do automóvel e disse:
— Traz alguma arma?
— Não senhor.
— Hum! Assim já velhote, com certeza tem aí a sua pistola…
— Já lhe disse que não tenho. Mas pode revistar-me…
— Não temos  ordens  para revistar ninguém. Siga!
— E o pai seguiu? — perguntei eu.
— Com alguma desilusão. Se a tropa quer controlar, deve contro­lar a valer.
— O pai disse que a tropa está a cumprir…
— Pois disse…
— Então — fiz eu, perplexo.
Ele olhou para mim durante segundos, teve um sorriso triste e esclareceu:
— Cumpre as ordens que recebe. Só o futuro dirá se chegam para impedir maior sangueira.
2.4 — «Podia matá-lo, seu marinheiro de água doce!»
O Rosa Amaral já não mostra o mesmo entusiasmo com que orgarnizou em Luanda a primeira manifestação a favor do Movimento das For­ças Armadas.
Foi hoje ao enterro do jovem estudante de Medicina, morto na Avenida Álvaro Ferreira, durante a humaníssima tarefa de acudir aos feridos, quando os soldados tiveram de optar entre abrir fogo ou entregar as armas aos civis amotinados.
— Maldita bala! — exclamou ele, ao regressar à redacção com os apontamentos para a reportagem do funeral.
— Estava muita gente?
— Nada que se pareça com um acompanhamento de Pedro Benge.
— Aí entrou política…
— Começo a odiar a política — fez ele com desalento. — A morte desse moço branco é tão lamentável como a do enfermeiro negro.
— Mas não foi um crime.
— Sei lá…
— Estás desorientado, homem!
— Venho de ver enterrar um amigo…
— Que não foi visado pessoalmente.
— A morte com alvo certo é o gesto assassino de um só homem. A morte indiscriminada é um crime de todos.
— Também te consideras culpado?!
— Claro que sim. Todos nós somos responsáveis pelo clima de loucura que deixámos criar em Luanda. Andamos todos excitados. E pouco se faz para apagar a fogueira.
— Estás a ser injusto. Todas as emissoras e jornais de Luanda se juntaram agora num apelo à calma.
— Bem sei, mas não basta. Nos muceques apedrejam os carros dos bombeiros que vão acudir aos incêndios. Há dias passaram pelas ruas da cidade os quatro negros mortos no assalto ao machibombo. Mas a quinta vítima foi esquecida, porque era um branco, que também lá morreu. Não gosto de cortejos macabros e, muito menos, de qualquer espécie de discriminação…
O Rosa Amaral é branco e louro como um inglês de Oxford, mas sei que tal circunstância nada influi nas suas apreciações. Não há, no seu coração, nem um miligrama de preconceitos étnicos. Lamenta, tanto como eu próprio, este vento de violência que devasta os subúrbios de Luanda, e em que é de pretos o maior número de vítimas, porque já não há bran­cos para matar, embora conste que os há, vindos de fora de Angola, para incitar à matança.
Sucedem-se os actos incompreensíveis para quem seja apenas um homem bom. Os brancos deixaram de ir aos muceques, mas há milhares de pretos que fogem para os bairros de predominância branca. A pilha­gem, o incêndio e a morte continuam à solta nas zonas suburbanas.
«Vários incêndios crepitam. Acorrem novamente os bombeiros, mas desta feita não passam. O acesso foi bloqueado. Recorrem os bom­beiros ao exército para que lhes possibilite o acesso. Sem melhores resul­tados. Uma barragem na entrada corta a via e uma multidão atrás dela hostiliza os soldados. O que arde é para arder…»
Assim escreve a revista Notícias, no seu número de 10 de Agosto.
Até as ambulâncias que recolhem os feridos são alvejadas com coqueteis Molotov. Nem os postos de venda de pão escapam à fúria destruidora. Nem as escolas, tão necessárias à promoção social dum povo que vai para a independência num mundo ferozmente competitivo.
Os cinemas suprimem sessões, mesmo no centro da cidade. Era certo dia, é interdito todo o trânsito automóvel após as 20 e 30. Parece morta, a minha linda Luanda!
Numa dessas noites de sono intermitente, acordei com o estalar de tiros mais próximos e fui à varanda da frente, onde já encontrei meu pai.
— Há para ali barulho do grosso — informou ele, apontando o Muceque Prenda.
E havia. Tiros soltos de pistola, logo seguidos de rajadas de G3. Estouros maiores, que parecem de granadas de mão. Explosões mais aba­fadas, mas sinistras, talvez dos foguetes das basucas. Depois a cadência das armas de guerra, no tiro-a-tiro. E mais disparos de pistolas. E novas rajadas de carabinas automáticas, agora contínuas, resolutas, raivosas, na decisão militar de acabar com aquilo. Quinze minutos de fogo nutrido, terrivelmente ampliados pelo multiplicar da nossa angústia.
— É uma autêntica batalha! — diz meu pai.
— Parece que já acabou — respondo eu, dando voz à minha espe­rança.
Esperança vã, porque o tiroteio recomeça, ainda mais vivo. Agora julgo distinguir o ribombo dos morteiros. Um helicóptero, denunciado mais pelo seu grasinar característico do que pelas luzes de posição, aparece em voltas apertadas sobre o Prenda. E, logo a seguir, as rajadas tornam-se menos frequentes, o tiro-a-tiro rareia e volta um silêncio que, para alguns, terá sido definitivo.
Só então reparamos, meu pai e eu, que todas as janelas do largo fronteiro à nossa casa estão cheias de gente alarmada por esta guerra estúpida que tenta atingir uma cidade pacífica.
A guerrilha suburbana já acontece em pleno dia. À entrada do Muceque Lixeira, mesmo ao pé da rua asfaltada, incendeiam mais um estabelecimento, que fica a arder durante horas. Os trabalhadores da zona industrial da estrada do Cacuaco preferem regressar a suas casas pela Avenida da Boavista.
A notícia (ou o boato) de que pretendem desarmar a Polícia de Segu­rança Pública leva uma grande massa de civis até ao Comando-Geral da Corporação. Forma-se um cortejo até ao Palácio do Governo Geral. Um magote de populares teima em entrar no edifício e procura o presidente da Junta Governativa, que foge de gabinete em gabinete, até ser cercado por uma turba furiosa. Pula para cima duma secretária e ergue as mãos a proteger a cabeça, na exacta posição de um animal encurralado — a única posição em que poderá ficar na história.
Invectivado, insultado, trémulo de medo, promete tudo, concorda com tudo, confessa que os verdadeiros colonialistas estão em Lisboa.
A multidão acalma, chega mesmo a sorrir com desprezo. E, segundo se afirma no dia seguinte por toda a Luanda, uma rude mulher, vendedeira de peixe no Mercado dos Lusíadas, terá então bradado para o Almirante Vermelho:
— Podia matá-lo, seu marinheiro de água doce, mas o senhor não vale os 7$50 que me custa uma bala…
Depois desse dia, o Palácio do Governo Geral passou a ser guar­dado por fortes destacamentos dos fuzileiros especiais, que vigiavam permanentemente nos terraços do edifício, à volta dele e ao longo dos corredores.
2.5 — «A minha cubata a tropa não pode chegar…»
Nas repartições, nas fábricas, nos escritórios das empresas privadas, nas esplanadas, nos cadeirões da sapiência da Livraria Leio, nos cafés, nos restaurantes, no convívio das famílias à mesa das refeições, os acontecimentos dos muceques constituem o tema de todas as conversas.
— São racistas brancos — afirmam os mais timoratos, que tentam uma carta de seguro, dizendo-se agora do MPLA.
— São guerrilheiros da FNLA que se infiltraram nos subúrbios — declaram outros, argumentando com o facto de ninguém hostilizar os pretos na cidade do asfalto.
— É tudo uma desgraça — concluem aqueles para quem o sangue inocente não tem cor política.
E a tónica geral das conversas é de espanto, apreensão e terror.
Ainda não disse que fiquei sem mãe aos 10 anos de idade. Meu pai não voltou a casar. E, desde então, quem governa a casa é minha Tia Isaura, irmã de meu pai e como ele nascida na Gabela, na primeira década deste século. Embora mais velha do que o irmão, mantém-se uma mulher de armas que traz a casa num brinquinho, sem criados mas com a ajuda de todos os electrodomésticos de que se pode dispor em Luanda.
Por isso, quando não há visitas, que são raras, somos apenas três à mesa.
Meu pai anda pouco falador, mas ela fala pêlos dois.
De política nada entende — afirma —, mas não se coíbe de rir das ingenuidades do «menino», como continua a chamar-me.
— Sabe de quem tenho pena, menino? Dessa pobre gente dos muceques, que anda entregue à bicharada.
— Os pretos ou os brancos?
— Todos os que não querem barulhos e andam metidos neles. Os brancos já de lá saíram, depois de verem queimadas as suas casas. E os bailundos estão a fugir para as suas terras. Ainda esta manhã, quando voltava do talho, encontrei uma família completa, a caminho da Estação do Caminho de Ferro, com as biquatas às costas. O menino já viu aquela tristeza?
Eu já tinha visto.
A todo o comprimento da fachada do velho edifício do Bungo e dos armazéns para mercadorias, uma pobre multidão de fugitivos aguarda o comboio que os leve para longe das makas que outros alimentam e eles não querem. Fogem de zonas onde se morre sem saber porquê. Onde se mata sem saber porquê. Onde as balas são anónimas e os incêndios constituem a única iluminação pública. Onde a noite tem garras de chumbo quente que se cravam em carne de inocentes. Onde já nem a luz do Sol intimida a fúria do crime. Onde se barra o caminho dos chefes de família que pretendem ir ao seu trabalho. Onde a loucura é a ordem do dia e a insónia a tortura das noites, quando já nem os cães respondem ao ladrar das metralhadoras.
Pobre gente apavorada, que foge dos seus lares e abandona os seus empregos, com o pânico de quem foge dum terramoto!
Homens emagrecidos no trabalho sem pão suficiente, mulheres com filhos ao colo e outros agarrados às saias, crianças em pasmo de espanto ou na eloquência das lágrimas infantis. E o estendal comovedor da pobreza! Velhas mesas de pé coxinho, cadeiras desconjuntadas, col­chões de folhelho atados com fios de mateba, míseros trastes de cozinha sumariamente embrulhados em jornais, panelas amolgadas, caçarolas enegrecidas, fogareiros de ferro, malas de fechos avariados atadas com cordéis, fardos de roupa remendada, alguns caixotes de ferramenta, sacos de plástico atulhados com as últimas compras do Mercado de S. Paulo ou do «Pão de Açúcar» — toda a pobreza em gritante comício de condenação ao egoísmo dos ricos, à incúria das autoridades e à fraqueza patente das chamadas forças da ordem. A debandada dos enjeitados da cidade, que só têm os braços para trabalhar e não sabem política, não pertencem a movimentos de libertação e nada fizeram — nada, Senhor Deus! — para merecer a desgraça que lhes acontece, sem saberem como veio, de quem veio e porque veio.
São apenas as vítimas habituais de todos os conflitos, de todo o choque de ideias, de todas as ambições embrulhadas em palavras bonitas, que eles não compreendem e aos seus ouvidos apenas soam com o sen­tido de um «salve-se quem puder!»
Dos seus cómodos automóveis, os brancos olham e passam. Das suas barulhentas motorizadas, outros negros, bem vestidos e bem alimen­tados, olham e passam.
Mas eles só têm a esperança ao comboio que os leve para longe duma cidade que parece louca, para longe dos bairros do medo, da pilha­gem e da morte.
Aproximo-me desse quadro vivo do êxodo e é com timidez que faço algumas perguntas:
— Você donde é?
— Sou da Quibala — responde-me um preto de pequena estatura, que vigia o seu grupo familiar.
— Operário?
— Sim: carpinteiro de cofragens.
— E deixa o emprego?!
— Não quero morrer.
— Onde é a sua casa?
— Era no Cazenga. Queimaram-na.
— Dizem que por lá agora está mais sereno.
— Ainda ontem me apontaram uma faca…
— Mas a tropa está lá.
— À minha cubata, a tropa não pode chegar.
— Quem são os culpados da confusão?
— Não sei.
— São os brancos! — grita raivosamente uma rapariga de outro grupo.
— Não mintas! — repreende uma velha — Não foi um branco que te trouxe até aqui na sua carrinha?!
— Esse é branco bom. Mas os brancos bons são poucos…
— Mas ainda há brancos no Cazenga?! — pergunto eu.
— Ainda há — teima a moça. — Com olho azul e cabelo da cor da tuge de menino com diarreia…
— Talvez nem sejam portugueses — insinuo.
— Não sei: são brancos.
E, sem dúvida alguma, naquele rosto de rapariga vi perfeitamente os sinais do ódio racial. Mas na grande multidão dos fugitivos só estava a pobreza, igual em todas as raças, filha do egoísmo de outros homens, sem discriminação de política, religião ou cor…
2.6 — Hum! Quais são os problemas que este Governo já resolveu?
A Mariluz apareceu-me hoje muito triste.
— Que te aconteceu, pequena? — perguntei, solícito.
— Meu pai parou as obras, por falta de pessoal.
— Greve?
— Não. Os bailundos foram-se embora. Nunca vi o meu velho tão desanimado. Nem quis almoçar…
É a ocasião de falar um pouco da família desta moça amorável e sensata. Seu pai é natural de Luanda, filho de branco e de mestiça, e não nega a cor da mãe, embora seja de tez mais clara que a de muitos algarvios curtidos pelo ar do mar.
Casou com uma branca e, na sua profissão de construtor civil, o sr. Armindo das Neves Calabriz conseguiu meios de vida confortável para a família. A dona da casa, Aríete de Moura Calabriz, pertence a uma família antiga, de origem beira, radicada em Angola há três gerações. Fez o 7.° ano dos liceus e só não tirou um Curso Superior porque os pais não tinham posses para a sustentar em Lisboa, nesse tempo em que ainda não existia a Universidade em Angola.
A Mariluz, filha única, frequenta Química Industrial na Universidade de Luanda.
É uma família do velho estilo, com a autoridade paterna bem ins­talada e firme, embora sem despotismo.
Habitam numa vivenda do Bairro Miramar e fazem vida de bom nível, mas sem luxos que escandalizem os mais pobres.
Com o sr. Calabriz falei há dias, na intenção de o tranquilizar quanto às minhas intenções sobre a filha. Levava um discurso cuidadosa­mente estudado, mas ele estragou todos os meus planos, recebendo-me com a maior naturalidade e lançando logo uma pergunta sobre o assunto político do dia:
— Que raio de gente é essa, que manda agora em Lisboa? Então, nomeiam para aqui  um  governador-geral  e nem sequer lhe dão tempo de acabar de formar o seu Governo?!
— Estamos numa fase muito complexa — expliquei eu cautelosa­mente —, o Governo de Lisboa tem agora muitos problemas a resolver…
— Hum! — resmungou o sr. Calabriz — quais são os problemas que este Governo já resolveu?
— Está a ser injusto — protestei com respeitosa firmeza —, o regresso às liberdades democráticas é um facto.
— Nunca ninguém me impediu de ser democrático.
— Aqui, em Angola…
— É onde tenho vivido, desde que sou gente. E não precisei de esconder as minhas ideias políticas.
— Nas conversas com amigos. Se escrevesse para os jornais, tomaria conhecimento com a Censura.
— Esqueci-me que você é jornalista… Tá bem! Então, diga lá o que o trouxe a esta sua casa…
— Vinha informá-lo das minhas intenções sobre a Mariluz… Encontramo-nos com frequência…
— Eu sei — disse ele, assumindo um ar muito sério. E sério se manteve durante lentíssimos segundos. Depois, cravou nos meus os seus olhos castanhos e disse, numa voz pausada, baixa, quase segredada:
— Sabe que estimo profundamente a Mariluz?
— Também eu.
— Não quero que lhe aconteça algum mal…
— Nem eu. Pode confiar em mim. E suponho que também confia na sua filha.
— Se não confiasse, fechava-a à chave. Nós somos uma família honrada. E espero que se não esqueça disso…
Eu não esquecia. E agora, quando a Mariluz me falava na tristeza do pai, sentia as preocupações daquele homem, como se fossem minhas.
— Gosto profundamente de meu pai — disse-me ela, acentuando o seu ar melancólico. — E ele não sabe estar parado. Além disso/, e como já te disse, nós não somos ricos.
— Acredito. Teu pai  é honesto demais para enriquecer depressa.
— Exactamente. Meu pai não explora ninguém e cumpre escru­pulosamente os contratos que assina. Ora, durante os últimos tempos, tudo aumentou à bruta. As construções contratadas há seis meses cus­tam agora quase o dobro. Com as obras paradas e letras a vencer, as perspectivas não são risonhas.
— Toda esta confusão há-de passar — profetizei por não ter mais nada que dizer.
— Não é o que parece. Porque expulsam os bailundos? Não terão eles o direito de trabalhar em Luanda?
— Claro que têm. E suponho que ninguém os expulsa. Fogem porque não gostam de barulhos.
— Meu pai diz que ninguém lhes dá a protecção que merecem. E diz isto indignadamente. Não é só porque as obras param; ele afeiçoa-se ao pessoal com quem trabalha…
— As Forças Armadas já estão a restabelecer a tranquilidade…
— Na cidade do asfalto — interrompeu ela com vivacidade. — Em certas zonas dos muceques, parece que nem entram.
— Não podem entrar, querida — expliquei pacientemente. — Tu nem fazes ideia do que é o interior de alguns muceques de Luanda. Naqueles meandros, a coragem dum soldado pouco vale.
— E quem lá vive fica à mercê do mais forte, não é?
— Não tanto como julgas. Os pretos de Angola têm um sentido de solidariedade humana bem mais apurado do que muitos brancos. Mas, nesta emergência, não querem por companhia gente de quem desconfiam.
— Posso fazer-te uma pergunta ingénua?
— As perguntas ingénuas ficam bem em meninas como tu…
— Acreditas  que  a independência  de Angola se faça em  paz?…
2.7 — «Se aparecesse um chefe…»
Um velho amigo de meu pai veio a nossa casa, certa manhã, antes do nascer do sol.
Vi-o entrar, alto e magro, em mangas de camisa, com um ar febril.
Fecharam-se ambos no escritório e lá permaneceram durante três horas, com uma garrafa de uísque, um balde de gelo e algumas sodas bem geladas…
Não era a primeira vez que meu pai mantinha longas conversas com pessoas importantes do regime deposto e também com gente nova, que tinha feito o serviço militar na luta contra o terrorismo e agora se inter­rogava sobre o futuro. Dava-me a impressão de andar a conspirar.
Desta vez, decidi interrogá-lo, sem receios nem complexos, pois ambos sabíamos que tudo quanto entre nós se dissesse, entre nós ficaria, selado pela nossa recíproca e absoluta lealdade.
— Julgo conhecer este senhor — insinuei quando meu pai voltava de acompanhar o visitante à porta de saída.
— É natural. Até há pouco ensinava Economia na Universidade de Luanda. Agora, vem de Lisboa. Incógnito…
— Trouxe-lhe notícias?
— Más! Os comunistas estão a tomar conta de Portugal…
— E sobre Angola?
E como ele tivesse para mim um sorriso ambíguo, acrescentei:
— Se é segredo, não diga…
— Bem sabes que não tenho segredos para ti. Mas conheço as tuas ideias e não quero desgostar-te.
— O pai nunca mês desgosta. Se não é segredo, conte!
— É segredo, mas não para ti, porque te sei incapaz de comprome­ter este homem, que vem de Lisboa com muita coragem e uma ideia grande e generosa.
— Louvo a coragem e gostava de conhecer a ideia.
— Quer manter Angola portuguesa.
— E o pai acredita que é possível?
— Contra o que parece, as populações de Angola, na sua esma­gadora maioria, não querem separar-se da Mãe-Pátria. E andam apavora­das com os acontecimentos. O visitante de há pouco confia nisso…
— Eu ouvi a um dos chefes locais do MPLA afirmar que Lisboa quer ver-se livre de Angola o mais depressa possível.
— Também sei disso, mas os homens de Angola ainda terão uma palavra a dizer, se conseguirem sair deste perigoso atordoamento em que caíram.
— A que chama «perigoso atordoamento»?
— Talvez eu não tenha usado a expressão mais adequada. Os homens de Angola andam hesitantes, entre a -esperança e o desespero. Encontram-se paralisados pelo receio de provocar um banho de sangue. Fecham-se num silêncio angustiado. Vivem aprisionados numa teia de sentimentos complexos. Sentem-se abandonados, traídos, caluniados. Se aparecesse um chefe…
— Esse professor da Universidade veio convidá-lo para qualquer aventura?! — interrompi, muito preocupado.
— Não! — respondeu ele com veemência. — Já não tenho idade para aventuras. Infelizmente!…
E, após um melancólico silêncio, acrescentou:
— Mas, acredita, rapaz: continua a haver bons e corajosos portugueses em Angola. E a grande massa da população não gosta nada da confusão que se estabeleceu…
— Nunca lhe ocultei as minhas ideias, pai. Mas gosto de o ver assim, mais animado.
E era totalmente sincero neste meu gostar. Via o meu velho reju­venescido com a esperança de que ainda pudesse sobreviver o seu ideal de uma grande pátria multirracial e pluricontinental.
Eu considerava tudo isso ultrapassado, mas quase me apetecia compartilhar de uma ilusão que o tornava tão feliz.
E foi a última vez que o vi ainda confiante.
NO RUMO DA INDEPENDÊNCIA
3.1—O discurso presidencial de 27.7.74
Em 27 de Julho de 1974, num discurso justificadamente classificado de histórico, o general António de Spínola, presidente da República Portuguesa, reconheceu às populações da Guiné, Angola e Moçambique o direito à autodeterminação e à independência, declarando-se pronto a iniciar imediatamente o processo de transferência de poderes.
Sinto-me feliz, porque sou angolano e sei que Angola reúne todas as condições para uma independência autêntica. Há, todavia, uma tarefa prévia e fundamental: a fraterna reconciliação de todos os angolanos, tanto dos que pegaram em armas e assim nosarranjaram três exércitos (que não chegam, porque são demais) como daqueles que, durante estes últimos treze anos, continuaram a obra do progresso desta terra, criando-Ihe perspectivas e estruturas muito superiores às que existiam em 1961.
Ora, é essa fraterna conciliação que eu ainda não vejo. Dentro e fora de Angola, pretos e brancos estão muito mais divididos do que nunca e, com Portugal a oferecer a independência e a paz, a guerrilha instala-se na própria cidade de Luanda onde, até agora, as Forças Arma­das Portuguesas nunca a tinham deixado chegar. E, com ela, chegam aos subúrbios sistemas de apartheid que nunca existiram nesta bela cidade atlântica, já a rondar os 400 anos de idade.
O Gama Ribeiro deitou chispas de lume pelo bigode à antiga por­tuguesa, quando lhe falei nestes termos.
— Até pareces fascista, homem!
— Bem sabes que o não sou.
— Então porque estranhas que fale agora em excesso quem andou de boca fechada durante meio século?! Não é a falar que a gente se entende?
— Devia ser. Mas o que eu noto é que, com tantas sessões de esclarecimento, cada vez andamos mais baralhados…
— É o fenómeno da descompressão.
— Deus queira que não redunde em grossa pancadaria!
— Todos queremos a independência.
— Cada um à sua maneira. E também há quem só queira tacho.
— Isso era no tempo da outra senhora.
— Os homens não mudam só com usar um cravo vermelho na lapela…
— Estás um corvo de mau agoiro…
— Talvez. Mas explica tu esse apartheid que agora existe em alguns muceques de Luanda…
— Referes-te ao Golfe?
— Exactamente.
— Não é apartheid nenhum, criatura. Eu levo-te lá e já vês como é…
Fomos.
Na fronteira do que risonhamente passou a chamar-se «o Estado Livre do Golfe», um cabo do posto de controlo militar mandou-nos parar.
— Que desejam?
— Dar uma vista de olhos pela zona.
— São jornalistas?
— Até somos — declarou o Gama Ribeiro —, mas não viemos pro­priamente nessa qualidade. Aqui o meu colega tem umas ideias esquisi­tas sobre este muceque e eu gostava de lho mostrar…
— Está bem — disse o militar —, mas nesta altura não lhe posso dar escolta; e, sozinhos, nem pensar!
Então, um preto de meia idade, que assistia à cena, a alguns passos de distância, aproximou-se e ofereceu os seus préstimos:
— Eu acompanho-os.
O cabo olhou para ele e perguntou-lhe se tomava a responsabilidade.
— Se vêm na boa intenção, ninguém lhes faz mal. E já íamos a largar, quando o cabo interveio:
— Um momento! Os senhores levam armas?
— Nem um canivete! — declarámos ambos ao mesmo tempo.
— Desculpem, mas tenho de verificar…
Erguemos os braços e ele passou uma rápida vistoria. Depois decidiu que o nosso Volkswagen ficava ali: nos teríamos de seguir a pé.
E lá fomos, com o amável cicerone, que informou chamar-se Paulo Cabanga.
O Muceque do Golfe, que é dos mais recentes de Luanda, não tem os intrincados meandros de certas zonas do Rangel ou do Lixeira. Já foi instalado com algum ordenamento, embora elementar. E lá dentro, tudo nos pareceu calmo e normal.
Pelos estreitos arruamentos de terra batida, havia crianças a brincar. Uma delas, contagiada pelo tiroteio  dos últimos dias, apontou-me um cabo de vassoura, fuzilando-me com uma rajada terrível: tá-tá-tá-tá-tá!
— Pronto! — gritei, entrando no jogo. — Estou morto. Pronto! O miúdo  riu, consolado, mas  o  seu riso  apagou-se  logo, ante  a severa repreensão do Paulo Cabanga:
— Tem juízo, menino!
— Não fez nada de mal — aleguei, lembrado de iguais brinca­deiras do meu tempo de garoto.
— Com a morte não se brinca — sentenciou o Cabanga, ainda com olhos maus para a criança encabulada.
— Este é o senhor presidente da Comissão Administrativa do Bairro do Golfe — apresentou o Cabanga, indicando um negro de meia idade, elegante e bem vestido, que, por trás duma secretária metálica, falava pausadamente a um grupo de populares.
Notei a sua barbicha à Lumumba, que lhe prolongava o queixo volun­tarioso, e os seus olhos espertos, protegidos por óculos de pequena graduação.
— São jornalistas? — perguntou, depois de um certo olhar para o apresentante.
— Somos. E pretendemos ver como se vive neste bairro. Dizem-se coisas na cidade…
— Nós sabemos… É para contar no jornal?
— Talvez — respondi eu. — Mas, por agora, apenas desejamos saber como funciona isto.
— Melhor que dantes — respondeu o presidente. — Ninguém cui­dava disto. Agora cuidamos nós.
— Já prometeram a água — lembrou o Gama Ribeiro.
— Prometeram mas ainda não cumpriram. É sempre assim…
— É verdade que não deixam entrar aqui os brancos? — perguntei do meu lado.
— É verdade e não é. Os brancos podem entrar, desde que sejam acompanhados por um de nós. E com os pretos de outros muceques é igual. Não queremos cá quem não seja do bairro…
— Porquê?!
— Porque queremos viver em paz…
3.2 — O engenheiro Balanta
Hoje almoçou connosco o eng.° Duarte Balanta, que foi geólogo da Companhia de Petróleos de Angola e, por morte do pai, abandonou as boas perspectivas que ali lhe ofereciam para tomar conta da herança paterna — uma grande fazenda de café nos Dembos.
É um rapaz novo, se bem que já casado e pai de um bonito par de miúdos, que são o seu maior enlevo.
Há semanas que o não via e notei-lhe alguns cabelos brancos.
— Já?! — estranhei no tom cordial da nossa antiga amizade.
— Já, o quê?
— Essas veneráveis cãs nas tuas fontes de menino  rico…
— Aí está uma frase bem recheada de asneiras — sentenciou ele com a voz calma dum juiz em férias. — Os meus cabelos brancos ainda se não podem chamar veneráveis e eu já não sou rico nem menino. Sou apenas um pai cheio de preocupações.
— Preocupações porquê? Nasceste em Angola, nunca andaste na política, sabes cheirar as riquezas do sub-solo…
— E tenho, nos Dembos, uma fazenda de café que vai ficar afogada em capim.
— Já percebi… É essa história do avanço dos guerrilheiros de Holden Roberto. Uma fase que há-de passar…
Meu pai parou a colher da sopa, a meio caminho do destino, para me perguntar em que factos concretos baseava eu tanto optimismo.
— Está na ordem natural das coisas — afirmei sem hesitações.— Em vésperas de negociações, a Frente Nacional de Libertação de Angola prepara uma posição de força.
— Força da FNLA não será igual a fraqueza de Portugal?
— Portugal já desistiu de continuar em Angola.
— Mas pode manter a sua dignidade! — atalhou o meu pai, ele­vando a voz.
— Gostaria que me explicasse melhor — insinuei com a calma toda, para o não irritar.
— Interpreta como quiseres. A mim custa-me falar em certas coisas…
— Também a mim — interveio o eng.° Balanta —, mas compreendo o problema. Ou Portugal conserva em Angola a capacidade de iniciativa que lhe permita a função de árbitro no processo da independência, ou esta já não será uma concessão: será uma conquista.
— Não vejo bem onde está o valor prático da diferença — afirmei eu. — Parece mera subtileza.
— Não é mera subtileza — contestou o engenheiro. — Embora nas­cido em Angola, sou de raiz portuguesa e não gosto de ver Portugal na função de triste figura. Já que reconheceu a Angola o direito à independência, deve dar-lha de mão a mão, efectiva e limpa. Tem de manter a força indispensável para desencorajar as pressões externas e permitir que as populações façam a sua opção política, num processo correcto e livre. Para transferir os poderes soberanos, deve exercê-los com dignidade e (eficiência até à declaração da independência. Se perder a autoridade e os meios de a impor, quais são os poderes que vai transferir? Ninguém pode dar o que já não tem…
— Exacto! — concordou meu pai, que parecia encantado com o dis­curso. — Em tudo isto, eu já não sou mais do que mero espectador. Mas se os meus cansados olhos me não enganam, assisto a tristeza dum rápido desmoronamento de estruturas que levaram muito tempo a cons­truir. É lamentável…
— São as convulsões naturais do nascimento duma nova nação…
— Naturais, uma ova! — refilou o engenheiro. — Que raio de natura­lidade encontras tu nesta atitude de se expulsarem os bailundos das fazendas onde trabalham?!
— Talvez uma questão de bairrismo. Em Trás-os-Montes também se diz que «para lá do Marão mandam os que lá estão»…
— Chama-lhe o que quiseres. Para mim, que também nasci nesta terra e nela tenho trabalhado à bruta, chama-se a ruína completa. Que mal fiz, para tamanho castigo?! De resto, a minha desgraça, somada à desgraça de muitos outros cafeicultores, gradua-se numa trágica sangria económica de Angola. Se esta loucura pega, vai perder-se a próxima colheita de café, no valor de três ou quatro milhões de contos. E, o que é pior, os cafezais ficarão Infestados. Quem lucra com isso?
— Há que pensar em termos de cidadão angolano — lembrei com intenção.
— Sou tão angolano como tu — declarou o engenheiro. — Nem podes fazer ideia dos sacrifícios que a meu pai custou aquela fazenda de café. Esse pedaço de cafezal roubou-lhe anos de vida. Morreu com 52 anos. E, seguidamente, fui eu que lhe sacrifiquei a minha profissão, para a qual estudei no Instituto Superior Técnico de Lisboa. Agora, sem um centavo fora desta terra, olho para os meus filhos e pergunto se os poderei ver passar fome num canto qualquer de Portugal, que vai ficar reduzido a menos da vigésima parte do que era antes da Revolução de 25 de Abril, e que parece disposto a receber-nos à pedrada.
— Quem te diz que serás obrigado a sair de Angola?
— E quem me garante que não?
— Tens de compreender os legítimos direitos do povo angolano.
— E compreendo. Mas a justiça perfeita tem de ser para todos, não é verdade? — acrescentou, voltando-se para meu pai.
— Quem pode hoje dizer o que é a verdade? — disse ele com uma profunda e contagiante melancolia.
Neste breve diálogo se define o clima da população branca de Angola, em começos de Setembro de 1974.
3.3 — O 7 de Setembro
— Lê! — convidou o Baldaque, quando cheguei à redacção, em 7 de Setembro de 1974, entregando-me um pedaço de fita do Telex.
Era a primeira notícia da Reuter sobre os incidentes da véspera em Lourenço Marques.
Uma viatura com a bandeira da Frelimo içada sobre o espelho rectrovisor, descendo a Avenida da República, tinha passado em frente do Scala e do Continental, arrastando pelo chão a Bandeira Nacional.
Numa reacção imediata, os numerosos frequentadores dos dois cafés cercaram os atrevidos, zurziram-nos a soco e a pontapé, viraram o carro e, levantando do chão a Bandeira de Portugal, foram apedrejar as montras do Diário de Notícias, que ultimamente se tornara frelimista ferrenho.
O incidente transformara-se rapidamente num generalizado protesto contra a entrega de Moçambique à Frelimo. E os que, na véspera, tinham assim desagravado a Bandeira portuguesa estavam agora de posse do Rádio Clube de Moçambique, donde irradiavam constantes apelos à união de todos os moçambicanos contra o vergonhoso acordo de Lusaka e trans­mitiam palavras de esperança no futuro do Grande Estado Português do Índico.
— Vai correr sangue… — murmurei com o meu instintivo horror a todos os aspectos da guerra civil.
— Talvez— admitiu o Baldaque. — Mas o que esses homens fizeram é um gesto lindo. Querias que ficassem insensíveis à profanação do sím­bolo da Pátria?!
— Queria que, em todo o Ultramar português, a prometida indepen­dência se processasse em paz.
— Também eu. Mas seria preciso que não houvesse traidores no Governo de Lisboa. E há… Também aqui enxovalharam a nossa Bandeira, no Clube do Golfe, ao que consta, com a conivência de um oficial portu­guês. Não te lembras?
— As autoridades desmentiram…
— Os maiores mentirosos são os que mais desmentem — senten­ciou o Baldaque. — Sei de boa fonte que não se trata de um boato. E é por isso que me sinto orgulhoso com a atitude dos homens de Moçam­bique. Estão a dar-nos um exemplo maravilhoso. Oxalá se aguentem!
Por toda a cidade, principalmente entre os brancos, mas também entre muitos pretos e mestiços, e não obstante o justificado receio da feroz perseguição do Almirante Vermelho, o ambiente era de alvoroço e de esperança.
— Têm toda a razão! — exclamava-se em reuniões convocadas para casas particulares, ou segredava-se, com mais cautela, às mesas dos cafés — Estão cheios de razão. Deus os ajude!
Na Pastelaria Versalhes, aonde fui tomar o meu pequeno almoço, o Sanches Quintão, funcionário de Fazenda recentemente transferido da Outra Costa, demonstrava por a + b, num círculo de amigos, que a Frelimo
era apenas um bando de comunistas e só os comunistas portugueses é que a consideravam representativa dos povos moçambicanos.
— Então, por que raio de mania lhe querem entregar Moçambique?!
— perguntava o Tobias da Farmácia Central.
— Não é mania: é refinada traição — assegurava o da Fazenda. — Eu ainda estava em Nampula quando o general Costa Gomes, logo após o 25 de Abril, em 12 de Maio, salvo erro, declarou que, se a Frelimo qui­sesse continuar a guerrilha, o papel das Forças Armadas portuguesas era bem claro: «prosseguir no combate, defendendo o povo irmão, agredido no sagrado direito de decidir em paz os seus próprios destinos.»
— Tá bem! — disse, da mesa próxima, um branco de idade, já com os cabelos todos brancos, que ostentava na lapela do casaco o emblema do Colégio Militar. — Mas os senhores sabem qual era a alcunha do Costa Gomes no Colégio Militar?
?!
— Judas.
Ninguém comentou e o ancião também não disse mais nada…
Durante a tarde, já havia quem sugerisse o envio de telegramas de apoio aos ocupantes do Rádio Clube de Moçambique.
Mas aí, os mais prudentes reclamavam calma. Enquanto a situação se não clarificasse, a ninguém interessava criar pretextos para uma repres­são brutal da Junta Governativa.
Claro que também não faltava quem classificasse tudo aquilo de manobra de fascistas, apoiados pela África do Sul. Mas, pelo menos em Luanda, o sentimento mais generalizado era de grande euforia e de uma enorme esperança.
Nessa noite, ao regressar a casa, encontrei meu pai, sentado ao pé do nosso grande aparelho de telefonia, ouvindo sofregamente a emis­são do Rádio Clube de Moçambique.
Mas não trocámos uma única palavra sobre o assunto.
3.4 — A desistência do general Spínola
Inesperadamente surgiu a notícia do encontro dos generais António de Spínola e Mobutu Sese Seku na ilha do Sal. Fui eu que a mostrei no telex da Reuter ao Santos Gouveia que me veio render no turno da noite.
— Que raio de fita é esta?! — explodiu o repórter, que é um adepto furioso do MPLA, rival da FNLA sediada em Kinshasa.
— Parece-te episódio de cinema? — piquei eu, que admiro a espon­taneidade deste moço, sem dúvida sincero, embora faccioso.
— Cinema, uma gaita! O que me parece é uma refinada malandrice.
— Vê como falas de dois Chefes de Estado…
— Não se trata de quem esteve na ilha do Sal — declarou o Gou­veia, que nem é de birras contra pessoas. — Anota lá montes de respeito pêlos dois generais, sem distinção de branco e preto. A refinada malan­drice vem deste mundo em que vivemos…
Fitei o colega com os olhos cândidos dum menino totalmente igno­rante das manhas da política mundial…
— Não topas a manobra? — investiu ele.
— Eu, não…
— Pois é fácil de compreender…
E, apontando-me aos olhos um dedo minaz, sentenciou, em berros curtos, raivosos, definitivos:
— Os americanos, meu filho! A CIA! A fraude de uma independên­cia apenas teórica! A transferência de poderes para outros que não os angolanos! Neo-colonialismo, entendes?
E começou às voltas pela sala, batendo patadas no chão, irrequieto e furioso como um tigre encurralado.
— …Porque   a verdade  é   esta —  retomou,  estacando  na minha frente —: quem está por trás de Kinshasa é Washington. E há um cunhado de Mobutu que se chama Holden Roberto. Estás a ver a jogada capitalista?
— Espera aí, pá! — interrompi deliberadamente. — Pode ser que tenhas razão. Mas é cedo para essa fúria toda. Nem sequer sabemos o que foi tratado na ilha do Sal…
— Péssimo sintoma, menino! Mais que péssimo. Quem me dera poder deslindar toda esta merda!
— Há liberdade de imprensa — lembrei, já no acto de sair.
— Pois há… — fez ele, arreganhando para mim um risinho feroz. — E a multazinha por agressão ideológica?…
Seguidamente sentou-se à secretária e sacou bruscamente da esfe­rográfica, com o brio alucinado de um Dom Quixote a arrancar da espada…
*
Os acontecimentos dos últimos dias de Setembro fizeram-me esquecer os maus agouros do Santos Gouveia, muita vez excessivo mas sempre sagaz e bem intencionado. A ida de várias pessoas a Lisboa, a convite do Chefe do Estado, e a expectativa criada pelas notícias sobre a manifestação da maioria silenciosa foram temas de todas as conversas. Depois, o discurso do general Spínola, a renunciar à chefia do Estado, surgiu em grande estilo de final de acto, com todos os seus temperos de emoção e drama.
Os brancos de Angola sentiram-se ainda mais abandonados.
Até o general Spínola, que sempre os tentara tranquilizar, e que ultimamente lhes criara uma derradeira esperança declarando que assumia pessoalmente a direcção da descolonização de Angola — até esse aca­bava de abandonar o seu posto, deixando o campo livre aos que apenas desejavam entregar à Rússia o Ultramar Português, a qualquer preço e o mais depressa possível.
3.5 — Bombas e tiros de morteiro
Na noite de 2 de Outubro, o estourar de uma primeira bomba alvo­roçou a plateia do Cinema Tivoli. Ao segundo rebentamento, ocorrido a pequena distância do ecrã, toda a assistência debandou em pânico.
No dia seguinte, houve disparos de morteiro para a Feira Popular, instalada ao lado da Avenida Lisboa, e foguetes lançados contra um Jumbo carregado de passageiros, na placa de estacionamento do aero­porto de Luanda. O gigantesco Boeing 747 escapou por uma unha negra  porque, logo ao primeiro foguete, o comandante apagou todas as luzes e safou-se da placa segundos antes de ser atingida uma das escadas de acesso, que lhe estavam encostadas.
— Estamos a chegar ao fim — declarava o Baldaque na redacção do jornal, comentando a notícia da prisão de gente grada, acusada de ligações com os acontecimentos de 29 de Setembro em Lisboa. — Não te parece?
Encolhi os ombros, sem resposta para dar-lhe. E, como sempre que me sinto enervado e perplexo, procurei a companhia apaziguante da Mariluz. Mas também ela cedia ao nervosismo envolvente.
— Parecia tudo tão simples! — lamentou numa voz desiludida.
— Estás doente? — perguntei, notando-lhe os olhos febris.
— Não. Mas passei uma noite abominável. De minha casa ouvia-se perfeitamente o tiroteio, para os lados do Rangel. E, em certos momen­tos, parecia uma autêntica batalha. Minha mãe já fala em partir para Lisboa. Mas meu pai, coitado…
Passei-lhe um braço carinhoso à volta dos ombros, com receio de que rompesse a chorar.
— …Teu pai tem mais fé em Angola, não é verdade?
— Talvez. Mas quase não fala connosco. E com certeza lhe custará muito ficar só… Porque ele terá de ficar, amarrado ao seu trabalho. Não temos nada em Portugal. Não conhecemos lá ninguém…
— Começaste por dizer que tudo parecia simples… — lembrei eu, mais comovido do que desejava parecer.
— E parecia, a julgar pelos dados da questão. Angola quer ser inde­pendente. O novo Governo de Lisboa concorda que sim senhor e diz aos movimentos emancipalistas que se juntem numa frente comum, para receber os poderes soberanos. Parece-te complicado? Mas o que acon­tece é que, em vez de uma festa de confraternização, arma-se uma bara­funda em que ninguém se entende. Com a garantia da independência, a capital de Angola em vez de lançar foguetes dispara tiros, em vez de cantar a vitória, enche-se de luto e de sangue. Entendes alguma coisa disto?!…
— Procuro aceitar a realidade tal como ela é. O 25 de Abril não é natural de Luanda: nasceu em Lisboa…
Num dos três dias seguintes, à hora do almoço, chamaram meu pai ao telefone.
— O próprio — declarou ele, ao atender.
— Sou a pessoa menos indicada para depor neste momento…
— É verdade: trabalho em Angola há quarenta anos. Mas não nasci cá. E a independência é para os naturais da terra…
— Bem: se põe a questão em termos de eu colaborar ou não no esclarecimento do público, decida o senhor. Mas, nesta emergência pre­feria não comparecer a essa tal mesa redonda. Se insiste em nome dos direitos da informação, irei.
— Está bem. Aparecerei no Restinga às 14h30m. Até logo!
— Que é? —perguntei, logo que ele desligou o telefone.
— Uma brigada da Televisão Portuguesa teima que eu vá a uma mesa redonda sobre a comunicação presidencial de 27 de Julho. Uma chatice!…
— Não sei porquê. Vai lá, diz o que pensa e acabou-se!
— Se eu disser tudo o que penso, prendem-me! Vou falar o mínimo possível. Queres ir comigo?
— Com muito gosto! Embora o pai não precise de companhia.
— Sabe-se lá… Ando com os nervos tão arrasados, que já tenho medo de guiar. Prefiro que tu me leves, se puderes…
— Claro que posso. Talvez até arranje uma «caixa» para o jornal.
Acabámos de almoçar e, na hora aprazada, comparecemos no Res­tinga da ilha.
A equipa da W integrava três homens: o chefe, sério e de poucas palavras; o operador, gorducho de cara reinadia, e um sujeito comprido e magro, com um bigode à tártara que lhe dava um ar feroz.
Com eles estava um moço negro, que meu pai conhecia, porque logo o abraçou efusivamente.
— Há que tempos que o não vejo! — disse. — Por onde tem você andado?
— No Campo de S. Nicolau…
—Você esteve preso?!
— Durante três anos.
— Palavra que não sabia… — garantiu meu pai, no tom de quem sinceramente lamenta.
Mas quando o meu bom velho me pareceu perder algo daquela sua serenidade caldeada em muitas dores, foi já sentado à mesa redonda, numa luxuosa vivenda do Futungo de Belas, ao ouvir a identificação dos presentes. Só então verificou o seu completo isolamento ideológico, visto que ia depor com dois elementos do MPLA, ambos recém-libertados dos Campos do Tarrafal e de S. Nicolau, e mais dois dirigentes de um partido surgido após o 25 de Abril mas solidário com o mesmo movimento emancipalista. Ele, que sempre tinha defendido a presença de Portugal em Angola…
Notei a rápida crispação que lhe vincou as rugas do rosto. E, no meu íntimo, perguntei se ele se não julgaria apanhado numa espécie de emboscada.
No entanto, a sua voz pareceu-me calma quando, no fim de todos, declinou o seu nome, sem mais recomendação que a de residir em Angola há quarenta anos «de maneira tão colonialista que se agora tivesse dei regressar à Metrópole teria de pedir emprestado o dinheiro para a pas­sagem».
— Quer dizer-nos a sua opinião sobre o reconhecimento, pelo Chefe do Estado (português, do direito à independência -para Angola, Guiné e Moçambique? — perguntou-lhe o chefe da equipa da TV.
— Desejo primeiro esclarecer que estou aqui depois de repetida­mente me ter confessado a pessoa menos indicada para depor sobre o assunto.
— É verdade — confirmou o homem da TV.
— Já aqui ouvi opiniões que respeito, mas de que profundamente discordo…
— A nossa intenção — declarou o chefe da equipa — é precisa­mente levar aos telespectadores de Portugal todo um amplo leque de opiniões.
— O sr. general Spínola — lembrou meu pai — aludiu no seu dis­curso de 27 de Julho findo «àqueles que honestamente sonharam uma África lusa». Eu sonhei mais do que isso: sonhei e preconizei um Portugal do Minho a Timor, com absoluta igualdade para todos os portugueses, em que um negro da nossa África pudesse chegar até à Presidência da República e Luanda viesse um dia a ser a capital de Portugal. Esse meu sonho não morreu — foi assassinado! Considero-me politicamente vencido e acato, de coração aberto e leal, uma Angola independente, que o pode ser em paz e prosperidade, desde que mantenha a sua fisionomia mul­tirracial. Fora da multirracialidade, receio que até o próprio nome de Angola venha a desaparecer do mapa deste continente. E é tudo.
Após os longos segundos de silêncio que se seguiram à fala do velho teimoso, o chefe da equipa perguntou-me se também queria falar.
— Não senhor — respondi com certo orgulho. — Só meu pai foi convidado.
— Pensa como ele?
— Isso não é preciso para o grande respeito e consideração que lhe consagro.
Despedimo-nos  de todos  os  presentes   e   regressámos   à   cidade.
Pelo caminho, perguntei a meu pai se estava arrependido de ter comparecido à mesa redonda.
— Bem… — disse ele com uma certa ironia — consegui resistir à tentação de os tratar por «senhores turras». E, ao fim e ao cabo, também eles me não chamaram reaccionário, fascista explorador, como todos os dias faz certa gente de Lisboa. Não reparaste?
— Reparei, pai. E nunca admiti que assim não acontecesse. Em todos os sectores da política se pode ser honesto e sincero.
Ele levantou os óculos para a testa, esfregou os olhos cansados e pareceu-me concordante com as minhas palavras…
3.6 — «Já agora, mate-me, C…!»
Quando lembrei que o 25 de Abril não é natural de Angola, porque nasceu em Lisboa, a Mariluz arregalou para mim uns olhos interrogativos, mas não pediu explicações. E ainda bem, porque, ao dizer tais palavras, obedeci apenas a uma nebulosa intuição, nada fácil de esclarecer em termos concretos de encadeamento lógico.
Repensando-as agora, até me parece que acertei numa verdade capaz de explicar muita coisa. No binómio geo-humano Portugal-Angola, o 25 de Abril só tem um aspecto comum: constitui, para ambos os povos, um marco histórico. Mas a partir dele, até pela própria força das ideias que o animaram, os caminhos podem divergir até ao ângulo raso.
O 1.° de Maio de 1974, tão eufórico na capital de Portugal, foi um dia como outro qualquer nas praias luandenses. E, mesmo para aqueles portugueses aqui radicados, que sempre se manifestaram genuinamente democráticos e contrários ao regime deposto, a alegria da recobrada liberdade não tardou a ensombrar-se com as preocupações fundamentais da sobrevivência nesta terra, de uma etnia continuamente insultada, caluniada e aviltada pela imprensa, a rádio e a televisão de Lisboa e Porto, na sua quase totalidade.
Já disse que não é preciso ser branco, para compreender a amargura dos brancos perante este comportamento estúpido e injusto dos ho­mens que agora mandam na sua Pátria. E ainda esta tarde, ao regressar da redacção do meu jornal, pude ver bem uma imagem bem dramática desta situação.
Na Bolacha da Alameda Dom João II, ao esbarrar com o sinal ver­melho, travei já demasiado à frente, para continuar a ver as luzes do semáforo e aguardei calmamente o aviso do carro que me seguia. Esse aviso soou, anunciando a luz verde, e arranquei. Mas logo estaquei brus­camente, quase a tocar num branco de meia idade que, de olhos alucina­dos, barba crescida e os braços abertos como os de Cristo a oferecer-se à cruz, berrou numa voz tremendamente amargurada:
— Já agora, mate-me, C…!!!
E o palavrão mais obsceno do vocabulário português atingiu-me em pleno rosto, como um vómito de sangue e fel.
— Desculpe! — balbuciei impressionadíssimo com aquela máscara de tragédia. E, abrindo-lhe a porta do carro, pedi-lhe que entrasse, para eu o levar aonde quisesse ir.
Ele entrou, reconheceu-me e curvou a cabeça, na vergonha do seu procedimento.
— Sabe?… — explicou quando já subíamos a Avenida dos Comba­tentes — Um homem chega a pontos que já não tem mão nas palavras…
— Nem eu reparei que você ia a passar. Andamos todos avariados… Onde quer que o deixe?
— No primeiro bar que veja. Preciso de me embebedar…
— Para quê, homem?
— Para esquecer… Eu tinha aí uma pequena oficina no Cazenga. Queimaram-na…
— E não lhe ofereceram passagem para Lisboa?
— Para morrer lá de fome?! Eu nasci em Angola, de pais que tam­bém já aqui nasceram e estão agora no Cemitério do Alto das Cruzes… Desço aqui, se faz favor…
Encostei ao passeio, junto da esplanada Punia dei Este e acon­selhei-o a espairecer, falar com os amigos, reconstruir a sua vida. Embe­bedar-se era disparate.
— Talvez nem consiga embebedar-me — confessou ele com um riso triste. — Só me restam 50 paus…
E estendeu-me a mão calejada no duro trabalho de muitos  anos.
Com emoção inexprimível, meti-lhe discretamente nela uma nota de 100, num gesto impulsivo e apenas obediente ao desejo de ajudar aquele pobre português a afogar a sua dor, ainda que fosse em vinho…
Conto esta ocorrência, como exemplo das tragédias vivas com que hoje se depara nas ruas de Luanda.
É por estas e outras coisas do mesmo género que o 25 de Abril tem, em Angola, um sentido diferente do que lhe dão em Lisboa. Lá, foi apenas uma viragem política. Aqui, iniciou um processo de marcha para honrosas mas pesadas responsabilidades. O que parecia tão simples — assumir uma independência que já ninguém nega — fermentou no veneno de velhos ódios, causando a morte de muitos milhares de inocentes. E ninguém sabe quanto sangue ainda será derramado num caminho que devia ser juncado de flores, já que representa o nascimento de uma nova nação, com todas as condições para ser grande e próspera.
Não consigo pensar nestas coisas com a cabeça fria, como tantos aconselham, principalmente quando já têm garantido o embarque para Lisboa. Ninguém vive com o coração frio. Nem sei quem possa pensar com os miolos congelados. Todo o homem vivo é nervos, calor e vibração.
Se há tiros no silêncio das noites luandenses e o sangue derramado torna mais vermelhas as areias dos muceques, e são aos milhares os habitantes em êxodo e as famílias sem futuro, como posso eu, que sou apenas um homem dedicado a esta terra e a este povo, como posso eu contar friamente os que fogem e os que morrem?!
Por Deus, irmãos! Reparem que até os circuitos integrados dum computador aquecem no trabalho de tais contagens.
E lá me perdi de novo, nesta baldada tentativa de explicar como o 25 de Abril não é, para os luandenses, o que representa para os lisboetas. Há nesta afirmação um conteúdo real em que eu sinto o sabor da ver­dade. Mas se pretendo evidenciar-lhe o sentido concreto, logo me enredo numa complicada teia de ideias, sentimentos e circunstâncias, que me deixam perplexo e confuso, como na perdição dum nevoeiro…
Talvez, no entanto, os leitores possam reter, de toda esta baralhada verbal, a ideia certa de que Luanda não é Lisboa e que o 25 de Abril, longe de lhes apagar as diferenças, só veio torná-las maiores e mais evi­dentes.
A pluralidade dos partidos, em regime democrático, possível nas velhas Nações do Ocidente Europeu, talvez seja irrealizável numa nas­cente nação da África tropical. As querelas políticas, perfeitamente natu­rais e importantes no hemiciclo do Palácio de S. Bento, parecem por enquanto vazias de sentido para pretos e brancos de Luanda, que acordam agora com o crepitar das metralhadoras, ou são forçados a abandonar os seus empregos, ou ignoram se o dia da independência será uma festa de confraternização ou um banho de sangue.
Perante este acervo de interrogações e problemas essenciais, o leque das ideologias políticas é um objecto de luxo, bem dispensável pela grande massa dos que vivem do seu trabalho e nada mais pretendem do que a independência no progresso e na paz. E os cravos vermelhos do 25 de Abril, que nunca foram aborígenes de Angola (nem mesmo de Por­tugal) até podem ser acusados de uma transplantação colonialista e contrária à genuína autenticidade da terra angolana.
3.7 — O João Sujo
Moro num bairro sossegado, onde a regra de vida é uma decente mediania, mas também há gente pobre e um ou outro rico em figuras de excepção.
Em dias do meu descanso semanal, que são variáveis na rotação dos turnos do meu serviço, costumo sair, num pequeno passeio a pé, depois do pequeno almoço.
Como parceiro certo, segue-me um cão grande, não sei de que dono nem de que raça, com o pêlo encarapinhado dum caniche malfeitão e uns olhos leais e camaradas.
Diz meu pai que os donos lhe dão banho com normal regularidade, mas o bicho corre logo para uns barrocais próximos e ali se rebola consoladamente, até ficar mais enlameado do que um suíno ao sair do espojadouro. De positivo, eu nunca o vi limpo e, por isso, lhe chamo João Sujo, nome que ele aceita, arreganhando os dentes, numa espécie de riso compreensivo e bom.
Ora, não sei por que silenciosa e discreta amizade (que gostosa­mente declaro recíproca), o João Sujo alinha sempre comigo nesses pas­seios matinais, em dias limpos do meu trabalho de jornalista.
Não se encosta às minhas pernas, porque bem sabe como está
enlameado, nem estende a língua para a lambidela da sabujice, porque
é um bicho rude, franco e alérgico a lisonjas políticas e artes correlativas.
Ele acompanha-me para outra espécie de demonstração. A duas centenas de passos de minha casa, ao lado direito de uma rua a subir, dentro do quintal de uma vivenda de luxo, há três canzarrões dálmatas, sempre muito limpos e asseados, no seu pêlo branco salpicado de boli­nhas pretas. E é com a mira neles que o João Sujo me segue, para mos­trar a este seu amigo, em particular, e a todo o bairro em geral, o seu infinito desprezo de plebeu por aqueles três impertigados fidalgos.
Lança-lhes, ainda de longe, o seu desafio, bem claro e três vezes repetido, como valente cavaleiro que desfralda a sua bandeira de guerra, ao avistar o castelo do inimigo fanfarrão. E logo os três lordes compare­cem ao portão, alinhados como soldados em parada, solenes como minis­tros em despacho, arrogantes e pimpões como um triunvirato de ditado­res. E dignam-se mirar o intruso, respondendo com três latidos serenos e compassados ao ladrar viril daquele enxovalhado proletário. Este acelera o ritmo da ladração, investe com o focinho contra a fronteira de ferro que o separa dos inimigos, mostra-lhes a dentuça afiada. Os três dál­matas perdem a sua compostura de bichos-de-bem, eriçam o pêlo fino, revelam os seus genuínos dentes de cão. E é, durante minutos, uma terrí­vel batalha de insultos, entre o podengo vilão e os três grão-duques da Dalmácia, agora iguais nas dentuças ferozes, encharcadas pela baba do ódio.
O João Sujo aguenta-se lindamente, não cede um milímetro da sua posição, tem mesmo o focinho para além da raia definida pêlos varões de ferro do portão e algumas vezes consegue tocar, com os seus dentes vorazes de cão da rua, as orelhas bem lavadas dos enfurecidos dálma­tas. E são eles que vão cedendo terreno, recuando ora um ora outro, nuns ganidos que me soam a pedidos de socorro.
Será com medo dos dentes arreganhados do João Sujo? Será para não conspurcar os seus finos pijamas às bolinhas no contacto com aquele mísero rafeiro enlameado?
Não sei. Mas são eles que fogem, refugiando-se no seu luxuoso canil, todo em ferro esmaltado a branco.
O João Sujo tem então, para mim, um olhar de esguelha, como quem me pisca o olho, e retira com dignidade, não sem primeiro alçar a perna contra a ombreira do portão, para regar o local da vitória.
Nesta cena, tantas vezes repetida, abstenho-me de tomar partido com gesto de apreço ou palavra de estímulo. Assumo a atitude neutra dum observador imparcial. Mas não sou. Cá no meu íntimo, sinto que ficaria danado se o João Sujo se deixasse vencer e escorraçar. Os três limpíssimos dálmatas nunca me ladraram nem morderam. Mas, instin­tivamente, não gosto do seu ar altivo, autoritário e mandão.
Sempre as minhas simpatias foram para os mais humildes, sobre­tudo quando são corajosos. E nesta birra do João Sujo contra os três empertigados guardas da vivenda de luxo, não há um miligrama de inveja — é tudo vontade de se afirmar, de mostrar que também existe, de pro­var que não tem medo.
Coisas que eu gosto de ver…
 Nessa manhã, ainda sorria da cena do João Sujo, no seu último acto de vingança contra a prosápia dos três dálmatas, quando encontrei o eng.° Balanta, que vinha de comprar o jornal.
— Quais são as últimas? — fiz eu, na pergunta habitual dos dias que correm.
— Chega amanhã a delegação da FNLA — informou ele com voz de caso.
— É uma consequência do acordo de cessar-fogo, há dias celebrado em Kinshasa — insinuei.
— E os outros movimentos? — lembrou ele.
— Agora só falta o MPLA…
— Acreditas na possibilidade da frente comum?
— Desde que os três movimentos se juntem em Luanda, acabarão por se entender. Por vezes é só uma questão de palavras…
— Neste caso, não é. Tenho amigos nos dois movimentos e sei que os seus ideários são muito divergentes, quase antagónicos.
— Mas combateram pelo mesmo objectivo fundamental: a indepen­dência. Não me parece complicado que todos concordem em pegar na bandeja que o Governo de Lisboa agora lhes oferece.
— Não parece, mas é — teimou o engenheiro.
— A FNLA e a UNITA já deram o exemplo.
— É fácil um entendimento com o dr. Jonas Savimbi, que me parece o espírito de conciliação em pessoa e não está sujeito a pressões do exterior. No MPLA há outros problemas.
— Continuas pessimista…
— Talvez, mas com sobejas razões. E só desejo que o futuro des­minta tudo quanto hoje receio. Pelo menos, não imitarei esse desgraçado que ontem varou o coração com uma bala, no momento em que devia embarcar para Lisboa.
— Não sabia disso. Quem foi?
Ele disse-me o nome: exactamente o nome daquele branco que há dias, na Alameda Dom João II, quando se viu à frente do meu carro que arrancava, pediu que o matasse, sublinhando o pedido com o palavrão mais obsceno do vocabulário português.
Senhor Deus! Tanta tragédia que hoje caminha pelas ruas desta minha bela e querida cidade!…
AS BOAS PALAVRAS
4.1 — A chegada das delegações
A chegada a Luanda da delegação da Frente de Libertação de Angola (FNLA) passou quase despercebida da grande massa da população. Veio, instalou-se e o seu chefe, Heidrich Vaal Neto, começou a falar num tom de moderação e maturidade política, surpreendeu muita gente, lembrada da dureza deste Movimento, durante a segunda quinzena de Março de 1961.
Na redacção do meu jornal, o Sousa Quevedo pareceu-me logo con­quistado.
— Fala muito bem, este homem! — declarou sem hesitações.
— É um político — sentenciou o Santos Gouveia, reticente. — E, se é inteligente, um político sabe levar a água ao seu moinho.
— Já é saber alguma coisa — disse o Quevedo. — E eu, dos políticos da última colheita estou farto de ouvir disparates, quando não são bafo­radas de ódio. Este procede doutra maneira.
— Fala de outra maneira — corrigiu o Santos Gouveia sem disfarçar a sua hostilidade. — Espera pelas obras.
— Claro que todos devemos esperar pelas obras — concordou o outro. — Mas até essa esperança morre para os que desconfiam de toda a gente.
— Eu não desconfio de toda a gente — afirmou o Quevedo.
— Confias no MPLA — insinuei eu do meu lado.
— E tens alguma coisa com isso?! — refilou o Santos Gouveia, pronto para a contestação.
— Nada, menino. Absolutamente nada — declarei com ênfase. — Sempre fui respeitador das opiniões alheias. Mas, se não te importas de ouvir, também gostei das palavras do dr. Vaal Neto. Não há ódio nelas, e o ódio pode estragar completamente a independência de Angola.
— Já te esqueceste dos ataques da UPA em 1961? — perguntou ele de rompante.
— Todos temos muito que esquecer. E se queremos a paz, é tolice continuar a lembrar coisas da guerra.
— Há muitas maneiras de guerrear…
— Bem sei. Mas nunca a guerra deixa de ser aquele monstro de que falava o padre António Vieira. Se estás em maré de recordações trágicas, podes lembrar as atrocidades da última conflagração mundial, cometidas por alguns dos mais civilizados povos do mundo… E há ainda outra coisa que tu deves saber: é que os homens mais duros na guerra são, por vezes, os mais compreensivos na paz. Não é verdade?
Vieram depois as delegações do MPLA e da UNITA. E aí, as massas populares manifestaram-se em pleno.
A recepção aos representantes do MPLA foi um autêntico delírio. E, embora sem tanta gente, os filiados, aderentes e simpatizantes da UNITA, dois dias mais tarde, manifestaram um entusiasmo igual.
Em ambos os casos, logo que o avião tocou a pista, a multidão venceu todas as barreiras, invadiu a placa de estacionamento e transfor­mou a escada de acesso ao transporte aéreo num incrível e barulhento cacho humano.
Encarregado da reportagem, vi-me inteiramente naufragado naquele mar de gente, perdi-me do meu fotógrafo e senti-me em riscos de sufocar na terrível compressa daquela vaga humana, que irresistivelmente rolava ao encontro dos recém-chegados.
A delegação do MPLA esperou mais de uma hora pela possibilidade de desembarcar. E, seguidamente, correu verdadeiro perigo quando os mais eufóricos se apinharam sobre o autocarro que a transportava à sala dos VIPS e a assistência receou que o tejadilho abatesse.
Tudo se repetiu à chegada dos delegados da UNITA, com a agra­vante de alguns incidentes, ocorridos antes, pela acção nefasta de agita­dores estranhos ao Movimento. Quanto eu pude julgar, na confusão em que me vi envolvido por ambas as partes, a UNITA beneficiou de maior concorrência da etnia branca que, misturada à população negra, acom­panhou a delegação até às suas instalações, num impressionante cortejo automóvel, com o habitual grazinar das motorizadas e a sinfonia das buzinas.
Em minha casa, logo após a chegada do MPLA, meu pai saudou-me com um riso triste:
— Deves ter passado um mau bocado, rapaz!
— Foi uma cena indescritível —declarei, ainda aturdido.
— Eu ouvi tudo pela rádio. Quando o repórter da Emissora Oficial emudeceu de repente, cheguei a pensar numa tragédia.
— Felizmente, tudo acabou bem.
— Um problema tremendo!
— Que problema?
— O controlo das massas populares…
— Gostaria que explicasse melhor…
— Basta que tires as conclusões do que se passou. A multidão quase impedia de desembarcar precisamente aqueles que tanto desejava ver e abraçar. E isto, apesar dos apelos dos seus líderes…
— O povo é assim mesmo.
— Pois é. Mas se isto acontece quando as massas populares vibram de alegria, imagina o que será se um dia reagirem pelo ódio.
— Os chefes dos movimentos emancipalistas também sabem disso. Todos eles querem que a independência se realize em paz.
— Acredito. Mas querer não é poder. Tudo depende desta fase de diálogo e mentalizacão em que vamos entrar. Os três movimentos preci­sam de conjugar todos os seus esforços nesta tarefa complexa e difícil. Mas parece que também estão divididos entre si.
— Juntam-se agora em Luanda. Isso ajudará muito, se não lhes fal­tar uma boa colaboração dos que não pegaram em armas, mas querem esta terra próspera e feliz. Devemos esperar, pai! E ajudar…
— Pois claro! E que Deus confirme a nossa esperança! 4.2 — «Ê por todos, patrão!»
Desprezando as tonalidades que as ideias assumem no pensamento de cada homem, pode afirmar-se que nos três movimentos emancipalistas, agora presentes em Luanda através das suas delegações, existem os três rumos tradicionais da política: o Centro, a Direita e a Esquerda. E é segundo esta definição de valores que se vai dividindo a parte da popula­ção que não pegou em armas e constitui a esmagadora maioria dos pretos e mestiços de Angola.
Recordo, a propósito, a resposta de um velho jardineiro bailundo e velho amigo de meu pai, a quem perguntei se era da FNLA, do MPLA ou da UNITA.
— É por todos — declarou logo ele, lançando olhares receosos para todos os
lados. — Agora, o povo tem de ser por todos os que lutaram.
         Fiquei  a  pensar  nas  sibilinas  palavras   daquele velho   assustado. Nisto deram as promessas de uma livre e aberta consulta às populações, na base de um homem-um voto.
Todos os principais responsáveis pelo 25 de Abril prometeram repetidamente que seriam os povos do Ultramar Português a decidir o seu futuro. Mas agora afirmam que os movimentos emancipalistas (os turras, evidentemente…) são osúnicos representantes dos povos de Angola. E comportam-se de tal modo que a grande massa dos angolanos, apavora­dos e desprotegidos, numa terra sem autoridade e sem lei, já se dizem de acordo com quem lhes parece mais forte, porque pode matá-los sem que ninguém lhes valha.
Será este o prometido referendo?!
4.3 — As inevitáveis mudanças
Antes de mais nada, um homem deve compreender os seus seme­lhantes. E não os compreenderá, fechando-se no círculo das suas convic­ções, por mais sinceras que sejam, como quem se defende com a barreira de altos muros ou com as pontas dilacerantes do arame farpado.
Abrindo os ouvidos do corpo e do espírito às ideias de quem lhe fala, um homem não arrisca a sua verdade subjectiva: apenas a põe em prova, confrontando-a com uma verdade diferente, como quem tempera o aço ao rubro, mergulhando-o na água fria.
Há quem não saiba escutar, porque as suas ideias são tão vivas que repelem o diálogo. Defeito ou qualidade? Nem sequer me permito julgar. Mas não gosto de falar a quem só ouve a própria voz. E por isso me calei perante o Gouveia, com quem não sei discutir, embora seja seu verda­deiro amigo.
Não duvido da sua inteira sinceridade, quando afirmou que esta é a hora de todos os angolanos optarem por um dos movimentos de liber­tação. Compreendo mesmo o plano de honestidade em que se apoia esta sua opinião. E até admito que seja ele quem está na razão, para o que subjectivamente basta estar de acordo com a sua consciência.
Eu faria o mesmo, se assim o tivesse decidido, aberta ou clandes­tinamente, antes do 25 de Abril. Mas a verdade é que nessa altura, eu não decidi. Decidir agora quando, nos Movimentos, as semelhanças inte­ressam mais do que as diferenças, seria da minha parte uma atitude oportunista, que é muito diferente de ser uma atitude oportuna.
Estou certo? Estou errado? Estou a dizer o que penso. E é tudo.
Digo o que penso, mas continuo de olhos bem abertos para o que acontece à minha volta e com o espírito preparado para as inevitáveis mudanças. Mudanças que já começam a ver-se nesta cidade capital. E, principalmente, no seu rosto humano.
No espaço de poucas semanas, o povo dos subúrbios, que representa mais de dois terços da população luandense, emergiu da penumbra em que vivia. O aumento do poder de compra, resultante dos primeiros aumentos nos salários mais baixos, ampliou a sua influência no mercado de consumo. E já com a certeza de vir a ter uma representação autêntica no exercício do poder político, entrou activamente no diálogo das ideias, com uma eloquência bem característica dos povos bantus.
Muitas surpresas aconteceram já neste domínio, pulverizando velhos preconceitos ou ideias construídas sobre a resignação de gente que durante séculos refreou as palavras. A primeira, talvez a maior dessas surpresas, veio com a chegada das delegações dos movimentos emancipalistas, quando se viu como sabiam falar de paz e enfrentar as perguntas mais ardilosas dos jornalistas, esses mesmos homens que, na opinião de muitos, só sabiam dar tiros e montar emboscadas, na dura estratégia da guerra de guerrilhas.
Mas também depois se viu como, de entre as massas populares, se erguiam oradores de inesperado poder comunicativo, chefes de bairros com notáveis qualidades de organização e bom senso, toda uma extensa gama de valores humanos que prudentemente se refugiavam no anonimato do silêncio.
A minoria branca, quase toda se repartiu entre dois exageros: ou pulou para a frente dos Movimentos, agitando-se em atitudes de mais papista que o Papa, ou caiu numa atitude de expectativa, cheia de ansie­dades e preocupações, amargurada pela injusta campanha que lhe move a imprensa de Lisboa e Porto, resignada a colaborar com as novas auto­ridades, pedindo apenas o privilégio de continuar a viver e a trabalhar nesta terra.
4.4 — A greve dos camionistas
Num dos primeiros dias de Novembro de 1974, chegou à Cela uma enorme coluna de camiões, logo rodeados por grande multidão, alarmada pela notícia de que tinham sido atacados.
— Não — esclareceu o motorista Manuel António Luís do Pranto. — Nós não fomos atacados. Mas, a alguns quilómetros do Dondo, encontrá­mos o cadáver do Pedro Calha, que ontem tinha partido sozinho, com o seu camião carregado de cimento, a caminho de Nova Lisboa. Antes de o matar, vazaram-lhe os olhos…
E,  a  terminar aquela  história de horror, gritou   desvairadamente:
— Quem nos protege, a nós que só queremos trabalhar?! Apareça alguém, do Exército Português, do MPLA, da FNLA ou da UNITA, apareça alguém para defender quem precisa de ganhar o pão de seus filhos!…
Como ninguém respondesse a este e a outros apelos semelhantes, os camionistas, a meados desse mesmo mês, efectuaram uma breve paralisação dos transportes rodoviários, como aviso, e anunciaram que, se até ao fim de Novembro lhes não garantissem um mínimo de segu­rança, não sairiam mais para a estrada.
Esta declaração saiu no meu jornal, com grande relevo. E, logo de manhã, fui até à Portugália, na mira de comentários que me ajudassem a escrever um artigo para o dia seguinte.
— É uma brincadeira de mau gosto — sentenciava o Silva Carvalhais, modesto empregado de escritório que repentinamente descobrira a sua vocação política.
— É simplesmente uma greve — rectificou o Sanches Quintão, que o malogro do 7 de Setembro, em Lourenço Marques, tornara conflituoso. — E a greve, agora, é um direito dos trabalhadores. Ou não é?!
— Neste caso, constitui um crime contra a economia de Angola — rosnou o Carvalhais.
— E quando a UNTA decide impedir a descarga dos navios acostados ao Cais de Luanda, o que é?! — refilou o Quintão.
— Tudo isto é lamentável — interveio um despachante oficial. — Por exemplo, essas paralisações da actividade portuária já nos estão a tornar a vida mais cara.
— A paralisação da camionagem pode redundar numa autêntica tragédia — declarou o Carvalhais. — São cerca de 2400 camionistas que ameaçam entrar em greve em 30 do corrente…
— Mas note que apenas pedem um mínimo de protecção para eles, na estrada, e para as famílias que deixam nas suas casas em Luanda — lembrou o despachante. — Parece-me justo.
E voltando-se ostensivamente para mim, acrescentou:
— Que nos diz o sr. jornalista?
— Repito as suas palavras de há pouco — respondi sem hesitações. — Tudo isto é lamentável. Mas também representa um sério aviso para os novos governantes.
Angola tem de saber aproveitar todos os valores humanos que actual­mente constituem a sua força de trabalho. A greve anunciada para o fim deste mês, a verificar-se, pode trazer consequências terríveis, porque dei­xará Luanda no resvaladouropara a fome. E, no entanto, trata-se apenas de 2 368 camionistas, quase todos brancos, num pequeno sector de acti­vidade. Assim se verifica como é difícil prescindir dos meios humanos de que Angola presentemente dispõe. Todos são bem poucos para as imensas tarefas do futuro.
— Irra, que grande discurso! — exclamou o Carvalhais, com alguma ironia, batendo as palmas.
— Não é discurso: é apenas uma opinião que me pediram — emen­dei com veemência. — Angola funciona como um delicado e complexo organismo vivo, com sectores essenciais, onde qualquer lesão afecta a saúde de todo o conjunto. Se os responsáveis pelo futuro desta terra não compreenderem a tempo esta realidade, não tardará muito que tenham de enfrentar gravíssimos problemas…
Entretanto, é justo dizer que, nessa emergência, os responsáveis mostraram compreender a situação.
Na iminência de uma ruptura que poderia começar com a atitude dos camionistas, tanto os membros da Junta Governativa como os dele­gados dos movimentos emancipalistas conjugaram os seus esforços para convencer os camionistas a continuar a garantir acirculação de produ­tos e mercadorias essenciais à vida das populações.
Preocupadíssimos, talvez amedrontados com a perspectiva de um levantamento geral da grande massa dos angolanos brancos, pretos e mestiços, evitaram todos as palavras ou atitudes que pudessem acirrar os ânimos, prometeram tudo, concordaram com tudo.
E a greve dos camionistas não se concretizou.
4.5 — «Se começam aos tiros uns aos outros…»
A presença das delegações dos três Movimentos em Luanda parece estar a ser benéfica em muitos aspectos.
O Rosa Amaral, cofiando a franja loura, concorda que sim senhor, que talvez haja muita verdade nisso, desde que se jogue com os máximos e os mínimos e se obtenha a média ponderada.
Com estas palavras sibilinas, assim filtradas pela barba decorativa, quer o meu colega dizer que o encontro dos grupos que se hostilizaram nas matas também envolve certos riscos.
— Se começam aos tiros uns aos outros, é o diabo! — avisa ele com evidente preocupação.
— E porque hão-de começar aos tiros?! — perguntou a Mariluz que assistia à nossa conversa. — Vê só o que dizem as siglas: MPLA — Mo­vimento Popular de Libertação de Angola; FNLA — Frente Nacional de Libertação de Angola; UNITA— União Nacional para a Independência Total de Angola. O grande objectivo é sempre o mesmo.
— Mas há as circunstâncias de modo — lembrou o Rosa Amaral. — Os três Movimentos querem a mesma coisa, mas de modo diferente. E é daí que podem nascer as complicações…
— As divergências ideológicas só azedam com o vinagre do facciosismo — opinei eu. — Há muita gente que sabe discutir lideras sem as transformar em pedradas.
— Mas não é preciso ser faccioso para sustentar vigorosamente um determinado tipo de regime político. Basta estar convicto da sua ver­dade. E há convicções igualmente sinceras nas ideias mais antagónicas.
— Isso é verdade — concordei. — Até posso demonstrar com um facto recente. Tive há dias em minha casa um moço estupendo, tão deli­cadamente atento ao que eu dizia da conjuntura angolana, que despejei todo o meu saco de esperanças, dúvidas e receios, com aquela satisfa­ção de falar que sempre nasce de haver alguém que parece escutar-nos com agrado. E o meu visitante tinha um sorriso calmo no rosto sim­pático… Falei, falei, falei, até que julguei correcto pedir-lhe também a sua opinião. E sabem o que aconteceu?
— Ele abundava nas mesmas ideias… — apostou a Mariluz.
— Ele estava nos antípodas do meu pensamento. E assim mo foi dizendo, primeiro num sereno encadeamento de raciocínios, depois com tanta propriedade de termos, com tal poder de comunicabilidade, com tão evidente e forte convicção, que imediatamente me apercebi estar diante de um tribuno, completamente seguro da sua verdade e brilhantemente dotado para a transmitir a outros homens. Ouvi dele as afirmações mais contrárias às minhas ideias, mas sempre fascinado pelocalor em que as envolvia. Desmantelou, uma por uma, as grandes realidades em que fir­memente me apoio — Deus, Pátria, Família — sem me atingir pessoal­mente nas minhas convicções. Simplesmente disse o que ele próprio pensava, os ando do mesmo direito que antes me concedera, evitando magoar-me e sem tentar qualquer forma de aliciamento. Formidável!
— Mas, afinal, que era ele? — quis saber o Rosa Amaral.
— Disse-mo com simplicidade, no fim da sua longa dissertação: declarou-se um «anarquista puro».
— Foge! — exclamou o meu colega, piscando um olho à Mariluz. — Olha com quem anda metido este teu amigo!…
Não gostei do tom daquelas palavras, nem da piscadela de olho que as sublinhou, nem do sorriso com que a Mariluz correspondeu. Não gostei de nada disso, nem consegui descobrir a razão de não gostar… Senti-me confuso e perplexo e reagi em conformidade:
— A que vem tamanha espantacão, pá? Quis apenas dar-te um exem­plo real da possibilidade de convicção sincera em todos os quadrantes da política…
— Está bem — condescendeu o Rosa Amaral, desinteressado de abrir controvérsia. — Mas a verdade é que fugimos do primeiro assunto que era importante. Há, entre os movimentos emancipalistas, ideologias que vão desde a direita àesquerda, passando pelo centro. Juntam-se agora em Luanda e noutras cidades de Angola, com homens armados. Tu dizes que é um facto benéfico. E eu digo que veremos…
— Pois, esperemos para ver, seguindo a pragmática dos norte–americanos.
E assim se encerrou a questão, porque, sem saber como, eu tinha perdido a vontade de continuar a conversa.
O ACORDO DO ALVOR
5.1 — Vaivém nos céus africanos
Fui encarregado da cobertura do meu jornal na cimeira do Algarve e, embora avisado apenas noventa minutos antes da hora da partida, ainda tive tempo de informar a Mariluz, que me apareceu no terminal da FAP quando já chamavam para o avião que nos levaria a Lusaka, para daí tomar o rumo de Faro, com escala na ilha do Sal.
Mas a moça vinha com o Rosa Amaral.
E novamente ouvi, no meu íntimo, aquela voz de alerta, que soara pela primeira vez, no fim da história do anarquista, quando o meu cama­rada de redacção, piscando o olho à Mariluz, tinha exclamado:
— Foge! Olha com quem anda metido este teu amigo!
E, nesta atitude, bem como no sorriso com que a moça correspon­deu, quis o diabo que eu visse (ou suspeitasse] uma secreta cumplicidade, qualquer coisa como a ofensiva concordância de ambos na ideia de que eu era, afinal, um desses ingénuos tolinhos que acreditam na boa fé de toda a gente.
Mobilizei todas as minhas reservas de bom senso para travar den­tro de mim a suspeita maluca. Ergui contra ela montes de argumentos, toda a lealdade da moça e todos os laços de amizade e camaradagem que me ligavam ao Rosa Amaral. Com algum êxito, mas não completo nem perdurável.
A suspeita renascia, ao ver os dois novamente juntos para assistir à minha partida, tratando-se por tu (nem reparava que eram amigos de infância…), revelando uma intimidade que só agora me parecia excessiva e comprometedora. Que haveria entre eles?… E, de repente, concluí que estava cheio de ciúmes.
— Ora viva o menino que nasceu num fole! — saudou o Amaral, no seu jeito aberto de sempre.
— A que vem a piada?!
— Não é piada nenhuma: é inveja, invejinha reles, meu filho! Ir à Cimeira do Algarve não é para toda a gente…
— Ainda estás a tempo de ir na minha vez.
— Bolas para o disparate, pá! — reagiu ele. — Bem sabes que sou teu amigo. E se estás com o estômago azedo, vou buscar-te um copo cheio de sais de frutos…
— Não gostas de ir? — interveio a Mariluz, em missão de paz.
— Não gosto de ir para longe de ti — declarei, envergonhado do meu mau humor.
Ouviu-se nova chamada dos passageiros, tentei estrangular aquela ideia diabólica num apertado abraço ao Rosa Amaral, dei à Mariluz um beijo longo e peremptório de resoluto proprietário e lá fui para o Boeing 707, marcado com a cruz de Cristo.
O vaivém dessa viagem veio depois na imprensa de Luanda e ainda estará presente na memória dos leitores desta baralhada narrativa, que já nem sei se é história, ou crónica, ou romance, ou somente a con­fissão plena e sincera de um homem apanhado no torvelinho de muitas interrogações.
A Lusaka tinha chegado o Presidente do Malawi e havia no aeroporto um dispositivo militar de muito aparato.
Talvez por que algo tivesse falhado na programação da nossa via­gem, ninguém nos esperava. E o fotógrafo Pedro Gil Vaz, que da porta do avião disparou a sua máquina, foi logo preso por soldados que lhe con­fiscaram o filme, embora com bons modos e soltando-o pouco depois.
Ficámos duas horas dentro do avião, até que ouvimos o comandante anunciar que regressávamos a Luanda.
Aterrámos às 2 da manhã seguinte e retomámos o mesmo rumo cento e cinquenta minutos mais tarde.
Então, toda a engrenagem funcionou bem. Os drs. Agostinho Neto e Jonas Savïmbi embarcaram com as suas comitivas e o avião, desde a véspera transformado em lançadeira de tear, rumou novamente para o Atlântico, sobrevoou Luanda pelas 15 horas, fez a sua prevista escala técnica no Aeroporto da ilha do Sal e daí galgou até às brancas areias de Faro.
Um dos assessores do almirante Rosa Coutinho, homem com muita experiência das vicissitudes humanas, talvez tenha adivinhado o meu drama interior e meteu conversa:
— Você vai muito calado, moço…
— Sou pouco falador dentro dum tubo de alumínio — desculpei-me eu. — Talvez sofra de claustrofobia…
— Há um processo de combater isso, homem! É abrir os largos espaços do pensamento. Que pensa você da Cimeira?
— Penso que do alto dela se poderá ver melhor o futuro de Angola.
— E eu espero que assim seja. Tenho fé no povo angolano.
— Também eu — disse ao velho senhor. — Mas a fé não basta: é indispensável a coragem de defender aquilo em que acreditamos. E tudo isso pode começar na Cimeira.
— Dizer que pode é uma forma de talvez. A sua fé não parece isenta de receio…
— Eu sei — respondi com intenção. Uma intenção que o meu com­panheiro de viagem não podia adivinhar, pois ignorava a espécie de veneno que se infiltrara no meu sangue.
5.2 — A/o aquário
Ao descer no Aeroporto de Faro, deparámos com um dispositivo militar ainda mais forte e severo do que em Lusaka.
— Cautelinha com a máquina — segredei ao Pedro Gilvaz, o fotó­grafo que estivera preso, durante alguns minutos, na capital da Zâmbia.
— Não é preciso recomendar — disse ele com um riso amarelo. — Sempre aprendi bem as lições.
Levaram-nos para o Hotel Dom João II, onde encontrámos camaradas de toda a parte do mundo. Todos ávidos de notícias. Cada vez mais ávidos, como sempre acontece com as coisas que não há.
Do luxuoso Hotel da Penina, onde funcionava a Cimeira, nada trans­parecia. E as tropas do COPCON fechavam a zona num círculo intrans­ponível. Só o Gilvaz, que afinal esquecera a lição, usando uma tele-objectiva conseguiu a primeira fotografia com sentido de furo jornalístico. Mas só o disse quando já a tinha expedido para o seu jornal.
Cada um de nós ia telegrafando comentários, mais ou menos apro­priados, para manter a expectativa dos leitores. A tónica do verbo encher era o clima cordial em que decorriam as negociações. E eu também bati essa tecla com a consciência de transmitir a verdade.
Não sabíamos mais nada. Elementos da informação dos três Movi­mentos vieram sucessivamente ao Hotel Dom João II explicar a razão do silêncio. E a sua visita deixou de boca aberta muitos jornalistas, portugueses e estrangeiros, que tinham um razoável conhecimento do MPLA mas consideravam insignificante a importância da FNLA e da UNITA. E, em certos casos, julgando que lhes seria fácil usar a técnica das per­guntas capciosas, esbarraram com interlocutores bastante cultos, sem­pre delicados e prontos nas respostas, mas dizendo apenas o que queriam dizer e sabendo temperar com um sorriso algumas boas lições que deram a quem pretendia atraí-los ao terreno resvaladiço das declarações ino­portunas,
— Têm muita categoria! — disse-me, num desses casos, o repórter de um diário lisboeta.
— Pois que imaginava você? — fiz eu, sem esconder a minha vaidade de angolano.
Devo ainda esclarecer que, durante esses dias de quase férias no Hotel Dom João II, a que chamávamos «o aquário», por ali nos sentirmos como peixinhos de águas presas, completamente isolados dos aconteci­mentos da Cimeira da Penina—, durante todos esses dias de frustração jornalística (onde estavam as notícias para transmitir?…), a minha capa­cidade de observação e análise esteve bastante obscurecida pela nuvem tempestuosa do ciúme.
Lá longe, no calor tropical de Luanda, certamente haveria repetidos encontros entre a Mariluz e o Rosa Amaral. E, contra todas as vozes do bom senso, eu torturava-me a imaginar o tema das conversas.
O Rosa Amaral era um rapaz simpático, inteligente e com fama de atrevido. E, no meu desvairamento, chegava a perguntar se a Mariluz não poderia cansar-se de uma espera sem termo à vista, se não interpretaria como fraqueza de amor a minha continuada abstenção de maior intimidade física. Toda ,a mulher é um ser complexo, para quem o amor é a força maior. A pressa da conquista ofende-a. Mas também as mais honestas perguntam, por vezes, que paixão é a do homem que não assume a res­ponsabilidade de saltar certas barreiras.
Na torrente destes pensamentos, lembrava-me de certas condescen-dências dela, em momentos de maior abandono, da sua pronta resposta aos meus beijos mais possessivos, da tremura da sua voz ao pedir-me que «tivesse juizinho».
Ficava então convencido de que ela cederia se eu insistisse. Algu­mas vezes, à minha desistência, perante a sua instintiva defesa de don­zela, correspondia com a iniciativa de um novo beijo fremente e apaixo­nado. E era depois bem frágil e hesitante o seu gesto de me afastar com as suas mãos de amorosa. Tão frágil e hesitante que mais parecia uma nova carícia…
Apelava para toda a lealdade da minha promessa ao pai Calabriz e começava a falar do meu jornal, dos estudos dela, de qualquer coisa que me distraísse daquela obsessão. Ela sorria, com um ar de compreensão resignada. Parecia-me agora que era de compreensão resignada…
E — tenho de confessar tudo — lamentava não ter chegado àquela intimidade física total, que realiza a plenitude do amor entre homem e mulher.
De nada me valia combater esta ideia: não conseguia vencê-la.
5.3 — Negócio de contrabando
Durante a minha estadia no Algarve, recebi apenas uma carta da Mariluz. Breve e simples, dizia-me, no essencial, que sentia saudades de mim, que em Angola se vivia uma grande esperança na Cimeira da Penina e que passava o tempo livre a perguntar aos meus amigos se tinham notícias minhas e todos lhe respondiam que não. Incidentalmente, per­guntava se as turistas estrangeiras dos hotéis de luxo do Algarve eram assim tão atrevidas como lhe dizia o Rosa Amaral.
E foi principalmente nisto que eu reparei. Nem o toque de ternura, bem patente nas palavras da missiva, nem o final «com beijos da tua Mariluz», nem o facto concreto de ser ela a primeira a escrever-me, nada disso diluiu o fel daquela curta referência ao homem cuja influência eu desvairadamente ampliava e temia.
E logo esta maldita imaginação, que algumas vezes quase me faz perder o sentido do real, se pôs a trabalhar raivosamente na interpretação daquelas poucas palavras.
Com que danada intenção o Rosa Amaral falava à minha prometida noiva dos assaltos femininos que eu poderia sofrer nas praias algarvias?
Esta pergunta ciumenta foi analisada, explorada e dissecada, até às suas últimas consequências, durante toda uma noite de insónia. E cheguei a considerar esse bom camarada de redacção como um traidor infame. Ele sabia que eu não era tão santo que enjeitasse os bons pitéus femininos, sempre possíveis para os jornalistas em digressão pêlos apo­drecidos países do Ocidente. Elas começam por pedir as últimas notícias e, a poucos minutos de conversa, logo deixam desapertar osoutien…
Mas o Rosa Amaral também tinha boas provas do meu amor por aquela rapariga, tão intenso e sincero que em nada podia ser afectado pelas efémeras aventuras sexuais do homem-macho. E no caso presente, nem isso tinha havido. As insinuações do Amaral eram, não só malévolas mas também gratuitas, porque vivi no Hotel Dom João II, tão casto como um José do Egipto.
De regresso a Luanda, no auge da minha crise de ciúme, cometi um dos actos mais vis desta minha vida ainda em começo: não avisei a Mariluz e passei o dia inteiro a espreitá-la. Segui-a desde a sua casa à Universidade, esperei-a à saída das aulas. Não a surpreendi a falar com o Rosa Amaral. Não me apercebi de nada que justificasse as minhas des­confianças. Mas o veneno continuava activo. Se o combatia com a ideia de que o ciúme é, por via de regra, injustificado, logo o meu demónio interior me respondia que essa lei era a do ciúme feminino. As mulheres é que são useiras e vezeiras em desconfiar do que não existe. Nos ho­mens verifica-se o contrário: são sempre os últimos a saber como andam de cabeça armada e nem sequer marram…
Ao Rosa Amaral só o vi quando, no dia seguinte, entrei na redacção.
— Chegaste depois dos colegas?! — estranhou ele.
— Cheguei ontem.
— E só hoje é que apareces?!
— Vinha muito cansado…
— Cansado de descansar no «aquário» Dom João II?!
— Há coisas que fatigam mais do que o trabalho.
— Também é verdade. E, além disso, o dia da chegada tinha de ser para a Mariluz.
— Ainda lhe não falei.
O Rosa Amaral recuou dois passos e ficou a contemplar-me como se eu fosse um bicho de antes do dilúvio.
— Homem, isso é crueldade!
— Explicarás porquê…
— Porque essa estupenda moça, durante todos estes dias, não falou senão de ti. Quando eu lhe disse que não te faltariam distracções no Algarve, ia-me batendo…
— Só se perderiam as que caíssem no chão.
— Irra, que é de amigo! Comeste figos  envenenados  em Faro?…
— Há muitas espécies de veneno.
— E ainda mais de ingratidão… Será que realmente te apareceu alguma dessas ávidas escandinavas que até no Inverno frequentam os hotéis do Algarve?
— Queres parar com as tuas  malditas insinuações? — berrei eu.
— Onde estão as insinuações? Tu é que voltas chato como burro. Que te aconteceu?
— Nada.
— Pois, dá graças a Deus. Aqui, ainda ontem houve uma tragédia das antigas. Lembras-te do Simão Caldeira?
— O marido daquela senhora bastante histérica? — perguntei, acei­tando de boa mente a mudança de assunto.
— Esse mesmo. Ontem matou a mulher e suicidou-se.
— Horrível! — exclamei repentinamente humanizado. — Esse homem sempre me pareceu infeliz.
— E ainda o era mais do que parecia. Já se tinha tentado suicidar várias vezes. A mulher acudia-lhe sempre. Depois, nas suas crises de histerismo, fazia-lhe a vida impossível. Até que, pelo visto, o Caldeira compreendeu que só havia uma forma de sair deste mundo: obrigá-la a sair primeiro. Isto imagino eu, porque a verdadeira explicação ninguém a conhece. Ninguém adivinha quanta angústia pode andar escondida na alma de um homem…
Ele calou-se e eu também. O impacto de tamanha tragédia teve o condão de aplacar a minha pequena tempestade sentimental. E creio que todos somos assim…
Dos Acordos do Alvor, soube apenas que as reuniões tinham decor­rido em ambiente cordial, que passaria a funcionar um Governo de Tran­sição, com três ministros portugueses e outros três de cada um dos Movimentos, e que a independência seria proclamada em 11 de Novembro de 1975.
Não sei se em Lisboa o povo teve conhecimento de mais pormeno­res. Em Luanda, não. E, que me lembre, nem sequer foi publicado na im­prensa o texto do Acordo.
A entrega de Angola fez-se com todos os segredos e cautelas de um negócio de contrabando…
5.4 — O Governo de Transição
O Rosa Amaral saiu, pouco depois tocou a campainha do telefone e, ao atender, ouvi a voz da Mariluz:
— Disseram-me agora que já cá estás…
— Desde ontem.
— Oh querido!…
E foi só esta a sua reacção de surpresa.
— Donde telefonas? — perguntei, cheio de vergonha.
— Da Universidade. Tenho agora uma aula de Matemática. Mas falto e vou já aí.
— Não: sou eu que vou ter contigo. Só tenho de terminar umas notas de reportagem. Aproveita a tua aula.
— Com que atenção?
— Com a que puderes. Antes da aula findar, aí estarei à tua espera. E estava.
Agarrou-se a mim, e no longo beijo que trocámos, todo o meu ciúme se dissolveu. Como pude eu duvidar de tão enternecido amor?!
— É verdade que chegaste ontem? — perguntou-me ela, depois de entrar comigo no carro.
— Valerá a pena falar nisso? — fiz eu, fugindo às explicações.
— Vale — afirmou ela. — Custa-me a compreender a tua pouca pressa de me veres…
— Vi-te ontem, meia hora depois do desembarque.
— ?!
— É verdade. E vi-te mais vezes durante todo o dia.
— Pois tiveste a coragem de nem me falar?!
— Olha, Mariluz, é melhor confessar tudo, embora me custe. Andei a espreitar-te…
— Jesus, que coisa bárbara! E que descobriste?
— Descobri que sou bastante imbecil. Desde a minha partida para o Algarve, andei cheio de ciúmes.
— Ciúmes?! Oh querido!
E beijou-me novamente, com todo o ímpeto de uma intensa paixão. Depois despegou a boca da minha e, com as suas lindas mãos apoiadas nos meus ombros, perguntou de quem tinha eu ciúmes.
— Do Rosa Amaral.
A isto ela respondeu com uma gargalhada inteiramente imprevista. E, ainda entre acessos de riso que tentava dominar, declarou que eu tivera pura e simplesmente um golpe de loucura.
— Tu nunca podes ser imbecil, mas foste horrivelmente injusto para um dos teus melhores amigos que, só por isso, também o é meu. O Rosa Amaral falou-me sempre de ti como um pai casamenteiro e desejoso de arranjar noiva para o filho.
— Vamos esquecer tudo isso, está bem? — sugeri com um arrepen­dimento sincero.
— Pela minha parte, delibero nem tomar conhecimento — respondeu ela singelamente.
A 31 de Janeiro de 1975, tomou posse o Governo de Transição. E, nesse dia, a alegria da grande massa da população de Luanda encheu tudo, não deixando tempo nem espaço para quaisquer incidentes.
O mesmo aconteceu em 4 de Fevereiro, quando o Presidente do MPLA regressou à sua terra, após longos anos de ausência.
As Forças Armadas Portuguesas timbraram em assegurar ao dr. Agostinho Neto uma protecção absolutamente eficaz. Trouxeram-no do avião para a sala dos VIPS num blindado Chaimite e transportaram-no depois para o Palácio do Governo num helicóptero escoltado por mais dois.
A enorme multidão que se apinhava ao longo da Avenida de Lisboa ficou frustrada no seu desejo de saudar o recém-ohegado. E, na redac­ção do meu jornal, houve quem estranhasse o impressionante dispositivo de segurança, em relação a um líder político profundamente admirado e estimado na capital de Angola.
— Basta um só louco para abater um homem — reagiu o Santos Gouveia. — E o dr. Agostinho Neto também aqui conta com alguns ini­migos ferozes…
— Além disso — reforçou o Baldaque — não foi ele que pediu pro­tecção. A sua completa segurança era um ponto de honra para as autori­dades e para as Forças Armadas. Se lhe acontecesse algo de mau, seria aqui o fim do mundo…
Durante os dias que se seguiram, os partidos políticos surgidos após o 25 de Abril foram-se dissolvendo um a um, aconselhando os seus adeptos a optar pelo movimento de libertação que mais lhes agradasse. Politicamente (e erradamente), os brancos apagavam-se, ainda esperan­çados numa independência real para todos, acreditando ainda em quem os entregaria, como servos da gleba, aos novos senhores de Angola, que nem sequer são os angolanos…
A controvérsia política ficou circunscrita à defesa dos ideários de cada movimento. E, durante algum tempo, o maior problema continuou a ser o das dissidências no seio do MPLA, que atingiram o seu «clímax» no assalto aos aquartelamentos de Daniel Chipemba.
NOTA:
O Acordo do Alvor foi assinado em 15 de Janeiro de 1975 e publicado em Suple­mento ao Diário do Governo n.° 23 — l.a Série — datado de 28 do mesmo mês, mas distribuído bastante mais tarde.
Vale a pana transcrever o seu artigo 9.°:
«Artigo 9.° — Com a conclusão deste Acordo, consideram-se amnistiados, para todos os efeitos, os actos patrióticos praticados no decurso da luta de libertação nacional de Angola que fossem considerados puníveis pela legislação vigente, à data em que tive­ram lugar».
Estes actos patrióticos foram, por exemplo, os horrendos massacres de civis brancos, pretos e mestiços, que encheram de sangue e de carne esfrangalhada o Nordeste de Angola.
           Um general do Exército Português assinou esta infâmia!…
O Acordo foi declarado transitoriamente suspenso pelo Decreto-Lei n.° 458-a/75, de 22 de Agosto de 1975, que é mais um documento miserável assinado pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves e pelo Presidente da República, Francisco da Costa Gomes. Os seus únicos efeitos práticos foram deixar o MPLÂ inteiramente à vontade para usurpar o Poder e ignorar a alínea i) do artigo 24.° (garantir e salvaguardar a defesa de pessoas e bens) e, sobretudo, o artigo 54.° pelo qual «a FNLA, o MPLA e a UNITA se comprometeram a respeitar os bens e interesses legítimos dos portugueses domiciliados em Angola».
ENTRE A ESPERANÇA E O DESESPERO
6.1 — As boas palavras
Há três ministros portugueses no Governo de Transição. Ou pela própria natureza das suas funções ou porque o processo de abandono efectivamente já começou, têm-se abstido de qualquer atitude política. E os brancos, aqui nascidos ou radicados, respiram mais fundo cada vez que os novos governantes de raça negra reafirmam que é angolano todo aquele que nasceu em Angola, fixou residência em Angola e ama sincera­mente esta terra.
Um deles é meu pai.
Ontem, depois do jantar, meti conversa:
— Então, pai, que me diz do novo Governo?
— Parece-me bem intencionado.
— Na sua boca são palavras de grande elogio…
— Na minha boca?! — reagiu ele, vincando as rugas verticais da testa. — Alguma vez me conheceste o vício da intransigência?
— Não. E desculpe o deslize. Mas lembrei-me das suas convicções.
— O que disse em nada as afecta. Continuo saudoso do meu sonho de um Portugal do Minho a Timor. Mas deves lembrar-te de que, nesse meu ideal de uma grande Pátria, sempre defendi uma completa igualdade para todos os seus cidadãos…
— E lembro: uma pátria grande e original, em que um preto de Angola pudesse ascender naturalmente à Presidência da República e Luanda viesse a ser a capital da Nação.
— Exactamente.
— Uma bela utopia!
— Não era utópica, não! Simplesmente, sobreveio o mais terrível veneno das pátrias: a Traição!…
— O pai fez o que pôde…
— Que podia eu?!
— Defendeu as suas ideias com sincero amor a esta terra. Posso testemunhar que foi um grande lutador.
— Que termina vencido.
— A sua dedicação a Angola continua.
— E continuará, enquanto tiver um sopro de vida. Por isso me alegro quando as declarações dos novos governantes revelam maturidade, rea­lismo e bom senso. Que Deus os ajude!
— Acha que precisam?
— Muito. Deixaram-se degradar estruturas vitais. Criaram-se maus hábitos muito mais fáceis de adquirir que de emendar e, para complicar tudo isto, entrou-se numa profunda crise de autoridade. Não é assim?
— Talvez fosse inevitável.
— Em certa medida, aceito que teria de haver um período de des­compressão, em que os adeptos da independência exprimissem a sua alegria. Mas, se ainda compreendo o que se passa à minha volta, não foi bem isso o que aconteceu. O que mais se nota nas populações é uma grande preocupação.
— A seguir ao 25 de Abril, o ambiente geral pareceu-me de satis­fação e cordialidade…
— Também a mim. Mas durou pouco. E quando o ódio começou a fazer vítimas inocentes, e as estruturas económicas sofreram os primeiros abalos, os governantes, ou traíram preconcebidamente, ou deixaram-se arrastar pêlos acontecimentos, receando que uma actuação firme os com­plicasse ainda mais.
— Não lhe parece justificado um tal receio?
— Nem ponho a questão, porque há uma verdade acima dela: o pri­meiro dever de um governo é governar.
— Bem: mas isso é já o passado. E eu gostaria de o ouvir falar sobre o presente.
— O presente anda cheio de boas palavras. Mas não é com palavras que se constrói o futuro…
Olhou-me silenciosamente, durante um longo minuto e, depois, continuou:
— Sei que és um sincero adepto da total independência de Angola e, por isso mesmo, não gosto de te contrariar; mas queres saber qual continua a ser a minha opinião?
— Creio que sei…
— A independência de Angola só pode acontecer na Independência de Portugal. Não acredito noutra!
Fitei-o com certa estranheza, por verificar que ainda não tinha mu­dado nada. Depois, comentei:
— Belo, mas ultrapassado!
— Talvez — murmurou ele com olhos distantes. — Mas até o chefe da guerrilha na Guiné era da mesma opinião…
— O quê?!…
— Exactamente o que te digo. Em 1971, o eng. Amílcar Cabral decla­rou que, se Portugal tratasse o seu ultramar em plena igualdade com a Metrópole, de forma que um negro da Guiné ou um mestiço de Cabo Verde pudessem ascender àPresidência da República Portuguesa, eles não teriam de lutar pela independência, «porque já seriam independentes num quadro mais vasto e muito mais eficaz do ponto de vista histórico».
— Isso é verdade?!
— Foi ele próprio quem o disse, em entrevista para a revista «Anti-colonialismo». Posso mostrar-te o «recorte» que ainda conservo em meu poder.
— Espantoso!
— Certo! — rectificou meu pai — Amílcar Cabral era um homem de formação portuguesa. E por isso o assassinaram… Existe uma realidade que vocês, os puros idealistas da independência, parece que nunca desco­briram ou já esqueceram. E é que toda a Campanha contra Portugal tem sido conduzida pelas grandes potências, principalmente pêlos russos, que pretendem substituir os portugueses em África. E são eles que agora mandam em Lisboa… Tens dúvidas?
— Sinceramente, tenho!
— Eu, não. Mas oxalá seja eu que esteja enganado!…
6.2 — Entrevista
Creio ter já dito que a face humana desta cidade está a sofrer uma rápida transformação. A grande massa dos subúrbios, que representa mais de dois terços da população luandense, começa a emergir da penumbra em que viveu até hápoucos meses. É ela que fala, argumenta e reivindica.
Com a teimosa esperança que é uma das suas características étnicas, os brancos de Angola compreendem a situação e nem estra­nham o facto de terem desaparecido, quase completamente, das gravuras dos jornais e revistas. Os angolanos de cor subiram definitivamente para o primeiro plano da vida política e social.
Os homens que andam na boca do grande público e nos noticiários da imprensa e da rádio são, agora, além dos presidentes dos movimentos de libertação e dos novos governantes, os seus mais directos colabora­dores, com predomínio dos elementos das etnias negras.
As figuras de vértice — Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi — até há pouco só bem conhecidas dos seus militantes, defi­nem-se perante o conjunto das populações.
A minha profissão de jornalista tem-me oferecido algumas opor­tunidades de contacto com os actuais responsáveis pelo destino desta terra. Parecem-me homens convencidos das suas verdades, mas simples, afáveis -e compreensivos. Gosto da sua facilidade de expressão, tão característica dos povos bantus, da sua maneira directa de encarar os problemas, da sua enorme vontade de encontrar os melhores rumos para a Angola do futuro.
Ontem, entrevistei um dos membros do Governo de Transição. Antes de qualquer pergunta, tomou a iniciativa de afirmar a importância da imprensa! Entrelaçou os dedos das mãos sobre os joelhos, esteve durante um longo minuto com os olhos alongados, através da ampla janela, para a cidade velha que descia até aos modernos arranha-céus da Avenida Marginal e disse:
— Os jornais exercem uma grande influência sobre as massas — disse — e, nesta hora de Angola, é imperativo que a exerçam no me­lhor sentido…
— Pode haver concepções diferentes do que seja esse «melhor sentido» — insinuei.
— Claro que pode. Mas, na presente conjuntura da nação angolana, não nre parece difícil encontrar um ponto de convergência.
— Como definir as coordenadas desse encontro?
— Basta que os jornalistas se orientem pela realidade essencial desta fase histórica de Angola. Vivemos uma fase de transição para o pleno exercício da soberania. É nas dificuldades da travessia desta ponte que se conjugam presentemente os esforços de um governo com igual representação de cada um dos três Movimentos. Haverá algum bom angolano que não deseje uma travessia sem perigosas colisões?
— Com direito ao qualificativo de bom, não há.
— Então, aí está o ponto de convergência: não complicar ainda mais as tarefas do Governo de Transição. Ou, por outras palavras: evitar tudo quanto nos divida, num momento em que precisamos do esforço conju­gado de todos. Certo?
— Certíssimo! E, pela minha parte, dentro da modéstia das minhas possibilidades…
— Não há, nas minhas palavras, qualquer alvo pessoal — atalhou o ministro. — Nem sequer sugiro que os jornalistas sacrifiquem as suas ideias ou se diminuam na sua personalidade. Apelo apenas para o bom senso de todos, no sentido de atenderem agora ao que é essencial.
— Nos  domínios do essencial podem  inscrever-se vários temas…
— Creio serem do conhecimento geral. Salvaguardadas as indis­pensáveis condições de paz, é preciso que a juventude continue a estudar, que os trabalhadores continuem a trabalhar e que os erros antigos sejam gradualmente corrigidos, sobretudo no que respeita à equitativa distribuição da riqueza por aqueles que efectivamente a produzem. E repare que, afinal, ainda não saímos do primeiro problema, porque tudo isto se insere no quadro das condições de paz.
6.3 — Situação explosiva
Na redacção do meu jornal, discutia-se a conferência de imprensa dada em Kinshasa pelo presidente da FNLA, por motivo da comemoração do 14.° aniversário do 15 de Março de 1961.
— Quando Holden Roberto considera explosiva a situação em Angola — começou o Santos Gouveia — faz-nos um aviso terrível.
— Quem me avisa meu amigo é — sentenciou o Sousa Quevedo. — E as palavras do presidente da FNLA são objectivas, embora cautelosas. «Não é minha intenção entrar em polémica com quem quer que seja
— afirmou ele. — Mas, em função dos acordos de Alvor, a situação em Angola preocupa-me realmente. Tenho a impressão de que as assinaturas não estão a ser respeitadas e isso é grave. Eu considero a situação em Angola explosiva. É um vulcão. Dizem-me que há movimentos que se opõem às eleições. Boatos que nos chegam aqui e que não sei se será assim ou não. Mas as eleições fazem parte dos acordos de Alvor. Por isso as eleições devem ter lugar…»
— Nestas afirmações — concluiu o Sousa Quevedo — vejo apenas uma honesta preocupação, misturada ao desejo de evitar maior efusão de sangue.
— Certo! — concordou o Santos Gouveia. — Mas não se absteve de afirmar que não há segurança em Angola, especialmente em Luanda.
— E é mentira?
— Bem…
— Bem, uma ova! Toda a gente sabe dos assaltos que todos os dias se praticam em Luanda. E Holden Roberto não tem medo da verdade.
— Ando pelas ruas de Luanda e ainda me não aconteceu nada — alegou o Santos Gouveia.
— Pode acontecer-te amanhã — interferi do meu lado. — Ao Cardiga, que é do MPLA como tu, ontem, em plena Baixa e à luz do dia, roubaram–Ihe 4 contos, arrancaram-lhe o relógio do pulso e bateram-lhe.
— São coisas que acontecem em toda a parte.,.
— Não com este descaramento e sem que a polícia ou a tropa inter­venham. O Jorge Penha, que trabalhava na Robert Hudson, foi ontem levar a bagagem para o Infante Dom Henrique, em que regressa a Portu­gal. Os dois carregadores negros que contratou começaram por pedir 300 escudos à hora; depois de içarem para bordo a primeira mala, pediram 600 — e o Jorge, apesar dos protestos da mulher, que estava com ele, pagou. Daí a meia hora, pararam e declararam que sótrabalhavam por 1 200 escudos para cada um. Aí, o Jorge refilou. Então o carregador sacou do bolso uma navalha de ponta e mola, apontou-a ao peito do branco e ameaçou:
— Pagas, e já! Senão…
A mulher do Jorge, aflitíssima, correu até um polícia, que rondava perto, e contou-lhe o que se passava.
— Não posso fazer nada, minha senhora! — disse o guarda enver­gonhadamente. — Estamos rigorosamente proibidos de intervir…
— Tem de se atender à conjuntura — teimou ainda o Santos Gouveia.
— Holden Roberto está bem dentro dela e exprime claramente os seus receios — disse o Sousa Quevedo.
— O presidente da FN1A fala dentro de um certo ideário político e com uma determinada intenção — explicou o Santos Gouveia. — Não aceita o Poder Popular…
— Vamos apreciar as coisas com serenidade — aconselhei eu — Holden Roberto também diz que está ao lado do povo. Mas entende que o povo manda através dos homens que livremente escolhe para o exercício do poder. E, nisto, pareceter o acordo de Jonas Savimbi. Nenhum deles quer a anarquia.
— E o dr. Agostinho Neto quer?! — refilou o Sousa Quevedo.
— Ninguém disse isso, pá! Estou a tentar explicar posições dife­rentes: mais nada! E nem sequer vou dizer qual é a que julgo melhor. Todos temos de fazer um esforço para compreender o que se passa, o que não é nada fácil nem agradável. Ora, enquanto dois dos movimentos tendem para um regime democrático, baseado no voto secreto dos cida­dãos, há um terceiro que se apoia na força emocional das massas, pre­tendendo que o povo participe directamente no exercício do poder. Por outras palavras: o dr. Agostinho Neto luta contra a ideia duma burguesia negra que substitua a burguesia branca. E a sua arma é o Poder Popular.
— Também o dr. Savimbi se apoia no povo — argumentou o Santos Gouveia.
— Bem sei — confirmei eu. — Qualquer dos movimentos em armas quer o apoio popular e precisa dele. A diferença está nos processos. Holden Roberto e Savimbi concordam em que a vontade do povo se mani­feste pelo voto secreto, em eleições livres. Agostinho Neto prefere que as massas populares reajam agora, organizando-se para manifestar a sua força e exprimir directamente a sua influência política. Dum lado temos o processo clássico da Democracia; do outro há um processo revolucionário semelhante ao que presentemente se verifica em Portugal.
— E para que lado pendes? — atacou rudemente o Sousa Quevedo.
— Para nenhum. Como jornalista, procuro observar os factos como eles são e interpretar lealmente o pensamento dos líderes políticos da hora presente. Quando me enganar, aceitarei que me corrijam e darei publicamente a mão àpalmatória.
— …Lavando-a primeiro na bacia de Pilatos — rosnou o Sousa Quevedo.
— Merda para as tuas piadas de comício barato! — explodi com certa irritação. — Reconhecer um erro é o contrário de fugir às responsabilidades.
— Merda, digo eu, para a tua atitude de juiz arbitrai — vociferou o outro. — Tu não tens ideias próprias, pá?!
— Claro que tenho. Mas não as devo inserir no pensamento alheio. Isto, como jornalista. Como angolano, sei que vivemos numa fase política muito delicada. Não quero escrever uma só palavra que possa contribuir para cavar ainda mais as dissidências que já existem. Achas que faço mal?
— Acho que a tua calma é indecente — definiu o Sousa Quevedo, desistindo de me convencer.
Só então reparei que o Baldaque ainda não tinha dito uma única palavra. E decidi sacudi-lo daquela espécie de torpor meditativo:
— E tu, dorminhoco, que pensas dos três movimentos de liber­tação?
— Não acredito em nenhum — respondeu ele soturnamente. — Há uma vil traição em curso…
RESVALADOURO
7.1 — O vilão com a vara na mão
Por essa altura já o Almirante Vermelho era a criatura mais execrada pêlos portugueses de Angola.
O seu riso era uma mistura de ódios recalcados, íntimos complexos e vaidades grotescas. E ria por tudo e por nada, só para ficar bem no retrato.
Gostava imenso de falar na rádio e apressou, quanto pôde, a instala­ção da televisão em Luanda, sonhando com a presença da sua cara nos televisores dos luandenses.
Medroso como um rafeiro Cabiri, transformou o Palácio do Governo Geral numa caserna Com homens armados a circular em todos os corre­dores, fuzileiros especiais nos terraços do edifício e, quando o seu medo era maior, com um aparatoso dispositivo militar, que cercava toda a zona, desde a Avenida Álvaro Ferreira até ao Largo do Baleizão. No entanto, sempre que os brancos ainda residentes nos bairros suburbanos reclama­vam protecção, respondia que Angola não era para timoratos.
Foi, em Angola, a sinistra figura do vilão com a vara na mão. Logo à chegada a Luanda, como presidente da Junta Governativa. a que os luandenses chamavam «o quinteto de cordas», quando os jornalistas lhe perguntaram quando voltaria o general Silvino Silvério Marques, respon­deu brutalmente:
— Já não é governador geral de Angola.
Era um malcriado.
Interrogado, na mesma ocasião, se a independência de Angola estava para breve, declarou que esse era um assunto a decidir por todas as populações, e perguntou, com o seu risinho alvar:
— As populações já decidiram?!…
Mentia com cínico descaramento.
E, ao regressar da Cimeira do Alvor, em que o não deixaram parti­cipar, teve a incrível atitude de pretender passar por alto comissário. À pergunta sobre quem seria nomeado para o novo cargo, insinuou ambiguamente:
— Por enquanto sou eu o alto comissário.
Procedia como um insuportável fanfarrão.
No entanto, o Gouveia, coerente com as suas tendências políticas, ainda tentava defendê-lo.
— Governar Angola, nesta fase da transição, é uma empreitada do inferno — dizia ele. — O almirante faz o que pode.
— Faz asneiras aos montes — arrematou o engenheiro Balanta, que andava de um terrível mau humor. — Falei há dias com um oficial dos «comandos» que quase chorava de raiva. A tropa foi proibida de entrar nos muceques, porque esse malvado careca tem um plano diabólico. Vai deixar armar o «poder popular» e, entretanto, já mandou tirar as armas aos brancos.
— Eu não entrego a minha pistola — declarou um camionista da Petrangol.
— Não terás outro remédio — afirmou o engenheiro. — Até sei que, na tua Companhia, já as começaram a recolher.
— Mas a minha arma não é da Companhia — esclareceu o camio­nista. — Foi comprada com o meu dinheiro; e não a entrego. Sabem o que aconteceu ao meu Chefe?
— Conta lá — convidou o Baldaque, que também estava presente.
— Meteu a pistola no carro, para a entregar na Petrangol. Ali perto do campo da Académica, uma patrulha da FNLA mandou-o parar, revis­tou-lhe o carro, encontrou a arma e levou-o para o seu quartel. De nada lhe valeram as explicações. Ficaram-lhe com a pistola, bateram-lhe até se fartarem, roubaram-lhe todo o dinheiro que tinha consigo e ainda o tiveram preso durante dois dias, sem comer nem beber. Eu não entrego a minha arma.
— Se calhar, era o que todos devíamos fazer… — insinuou o Balda­que, muito sério.
— Para quê? — interrogou o Sousa Quevedo.
— Para nos defendermos quando for preciso — declarou rudemente o interrogado. — Isto começa a virar para o torto. Sabem vocês o que me disse o Neves e Sousa, quando ontem o encontrei ali no Largo da Mutamba?
— Esse não costuma falar de política — lembrei eu do meu canto.
— Nem falou. Disse-me apenas que já estava a ver os brancos mais curtos…
— É o falar adequado à imaginação visual dum pintor — explicou o Gouveia.
— Será o que vocês quiserem — aceitou o Baldaque. — Mas os artistas têm sempre algo de adivinhos. E o riso perene desse almirante de navios naufragados parece-me de  mau agouro. Seria bom  que nos preparássemos para o pior…
— Desejas para Angola um banho de sangue? — desafiou o Gouveia em tom sarcástico.
— Desejo que a independência de Angola seja para todos os que a ajudaram a construir.
— É exactamente o que o almirante promete — lembrei eu com alguma timidez.
— Não acredito numa única palavra desse malandro — interveio rudemente o camionista.
— E eu já não acredito em nada — desabafou o Baldaque. — Esta­mos a cair numa cilada em que deliberadamente se prepara a nossa desgraça. Disseram-nos que os guerrilheiros só poderiam entrar sem armas: e trouxeram quantas armas quiseram. Prometeram que nada se faria sem ouvir também a população branca: e ainda nos não consultaram para coisa nenhuma. Convidaram toda a gente a agrupar-se em partidos políticos; mas dizem agora que só os movimentos de libertaçãoé que representam legitimamente as gentes de Angola. Vamos escorregando de engano em engano. Se não acordamos a tempo, estamos perdidos.
— Tudo isto é uma grande chatice — sintetizou desconsoladamente o engenheiro Balanta.
— Vocês falam como autênticos reaccionários! — disparou o Gou­veia, muito firme nas suas convicções democráticas e sempre agarrado à esperança de uma Angola independente e próspera.
Mas o engenheiro reagiu à bruta:
— Reaccionária será a tua avó! — clamou. — Eu estou-me nas tintas para a política. Apenas pretendo continuar a viver e a trabalhar na terra onde nasci. E começo a ver que não vai ser fácil. Esse maldito careca, com o seu Quinteto de Cordas, veio para aqui na função de traidor.
— O que aí vai! — protestou o Gouveia.
— O que aí vem! — arrematou o engenheiro. — o que eu gostava era de saber o que aí vem para todos nós, brancos, pretos e mestiços, porque ou eu me engano muito ou o «Quinteto de Cordas», que nos man­daram de Lisboa, nem representa Portugal nem liga pevide aos verdadeiros interesses das populações de Angola. Vieram para aqui brincar ao comu­nismo — e é tudo.
— Tens a certeza? — ironizou o Gouveia.
— Não há certezas neste mundo — interveio gravemente o Balda­que — Mas o engenheiro é bem capaz de ter razão. Pelo que estou a ver,
já não são os portugueses nem os angolanos quem manda no destino desta bela terra.
E é pena…
Nessa mesma tarde, contei a conversa à Mariluz e pedi-lhe que me desse também a sua opinião. Ela permaneceu de cabeça baixa, tardando em responder. E quando, finalmente, levantou os olhos para mim, reparei que os tinha rasos de lágrimas…
— Que tens? — perguntei carinhosamente.
— Meu pai quer que eu e a mãe embarquemos imediatamente para a Metrópole — respondeu, rompendo num choro convulso.
— Vamos falar com ele — sugeri.
Ela concordou. Mas o sr. Calabriz custou a convencer.
— Você julga que me não custa ficar sozinho? — arremeteu desa­bridamente. — Sinto apenas que devo proteger minha mulher e minha filha contra os perigos a que se arriscam nesta terra. Nem quero pensar no que lhes pode acontecer… Não compreende?
— Compreendo perfeitamente. Mas, por enquanto, ainda cá temos a tropa portuguesa.
— A tropa portuguesa?! Soldados que têm assistido às maiores infâmias sem mexer um dedo?! Isso já nem é tropa nem é nada. É uma vergonha para todos nós! Devíamos pô-los fora daqui a pontapés no rabo!
— Calma! — aconselhei pacientemente. — Eu estou atento ao que se passa. E, como sabe, estou num bom ponto de observação. Logo que pressinta um perigo real e próximo, não deixarei de o avisar e serei eu próprio a tratar do embarque da sua família com toda a rapidez.
— Você é um bom moço, mas tem um defeito: é muito ingénuo. Ainda acredita na canalha que já nos vendeu e talvez já tenha recebido o preço.
— É preciso acreditar em alguém…
E, forçando a minha própria esperança, já bastante abalada, incons­cientemente movido pelo desejo de conservar pelo maior tempo possível a adorável presença da Mariluz, expliquei que os soldados portugueses, na sua esmagadora maioria, continuavam a ser valentes e resolutos, que só não intervinham quando estavam absolutamente proibidos de o fazer e que até o Rosa Coutinho já por duas vezes tinha levantado essa proibição.
O preocupado homem ainda argumentou que as coisas iam de mal a pior, que o Almirante Vermelho era um lacrau dos grandes, que ninguém podia confiar na malandragem que era agora Governo em Lisboa, que era do seu dever pôr a família a salvo, que estas coisas nunca se deviam deixar para a confusão da última hora, etc., etc. Mas acabou por ceder.
*
Na segunda-feira da semana seguinte, o engenheiro Balanta foi preso. Simultaneamente, o almirante Rosa Coutinho emitia ordens de prisão contra diversos brancos, entre os quais se contava o director do meu jornal, que logrou escapar para a África do Sul.
Muito preocupado com tudo isto, pedi audiência a um engenheiro português, membro do Governo de Transição, que prometeu receber-me imediatamente.
Fui encontrar os corredores do Palácio cheios de soldados, prin­cipalmente fuzileiros especiais, que circulavam com as pistolas-metraIhadoras na posição de tiro instintivo. Não vi nenhum dos antigos contí­nuos, alguns com dezenas de anos de serviço naquela casa. Tudo estava mudado no velho Palácio dos governadores gerais, agora ampliado e modernizado segundo planos elaborados no tempo do governador Silva Carvalho.
Sob os olhos vigilantes dum sargento da Marinha, pedi a um dos novos funcionários que me anunciasse. E estava a acender um cigarro, para enganar o tempo, quando o governante surgiu à porta do gabinete, convidando-me a entrar.
— Desculpe, senhor engenheiro — balbuciei, apagando rapidamente o cigarro no cinzeiro mais próximo. — Julguei que a sua secretária me viria avisar…
— Ainda não tenho secretária — declarou ele com toda a natura­lidade.
— Mas, então… — estranhei, sem esconder a surpresa, lembrado de que mesmo ao lado trabalhava a secretária do dr. António de Almeida.
— Isto agora é assim… — disse o engenheiro sem mais explicações. — Que manda?
— Nada. Peço, e com a maior humildade. O engenheiro Balanta (não sei se conhece…) foi preso esta noite. Sou muito amigo dele. Pode informar-me do que se passa?
— Também não sei.
— O senhor almirante chama-o — veio dizer o sargento da Marinha, abrindo a porta sem bater.
— Já vou — respondeu o engenheiro. E, depois de o intrometido (o mesmo sargento que eu vira no corredor) ter fechado novamente a porta, reafirmou que, infelizmente, não estava em condições de me ser agradá­vel, como tanto desejava.
— Eu só agora sei da prisão desse engenheiro, que conheço muito bem. Fui grande amigo do pai dele.
— Tem andado ultimamente muito apreensivo, por causa da sua fazenda de café nos Dembos — informei. — Mas nunca se meteu na política. Não compreendo porque o prenderam.
— Estamos numa fase de grande confusão… — alegou vagamente o governante. — E, se me dá licença, tenho de ir ao almirante. Ele não gosta de esperar; e hoje está insuportável.
Saí imediatamente. E, já no Largo, onde a estátua de Salvador Correia aguardava o camartelo dos demolidores, lembrei-lhe daquele sargento intrometido e veio-me a tentação de pensar que o Almirante Vermelho fora informado da minha presença e propositadamente interrom­pera a audiência dum redactor do jornal, cujo director tinha ordem de prisão. Apenas vaidade minha? Talvez não…
7.2— Mais incêndios… Mais tiros…
Foi por esses dias que incendiaram várias casas de brancos no Muceque Catambor. E houve quem afirmasse ter visto um alferes, dos recentemente chegados de Lisboa, a dirigir a estúpida e nefanda proeza. Já completamente descrente do novo Governo da sua Pátria, os brancos começavam também a perder aquela fugaz esperança que nascera das primeiras palavras e atitudes do Governo de Transição.
Repentinamente, na noite de 24 de Março de 1975, rebentou de novo o tiroteio na cidade, agora entre o MPLA e a FNLA, que se degladiavam nos subúrbios luandenses, com fogo de armas ligeiras, intercalado pelo ribombar das granadas de mão, morteiros e foguetões. Mais uma vez, a população de Luanda, sobretudo a sacrificada gente dos muceques (brancos já lá os não havia…), era roubada ao seu merecido repouso, após um dia de trabalho.
Nos dias 25 e 26, já os tiros alastravam para as zonas mais centrais da cidade e em pleno dia. Pelas 11 horas de 26, eu próprio estive bem perto do tiroteio, quando ia tratar de um assunto de impostos, na Repar­tição de Finanças da Avenida dos Combatentes. Encontrei a porta fechada, como todas as das lojas mais próximas.
— Há greve geral? — perguntei ao João Carmelino, que da porta (também fechada) da sua loja de pronto-a-vestir, olhava apreensivamente para o fundo da bela artéria.
— Não se trata de greve — respondeu ele. — Trata-se de acautelar o físico. Aí para diante, no muceque Rangel e lá para os eucaliptos, as FAPLAS engalfinharam-se outra vez com as tropas do Holden Roberto. Parece que já há mortos em barda que, de uma parte e de outra, enterram em valas abertas por escavadoras, sem mesmo averiguar se irão alguns vivos na lingada… Um horror!…
Como a confirmar as palavras do comerciante, crepitaram tiros de armas automáticas, logo seguidos dos estouros secos e trágicos dos morteiros. E uma grande multidão, vinda dos lados do Rangel, invadia a Avenida, correndo desvairadamente, na ânsia de atingir a zona central da cidade, onde as patrulhas do exército português davam ainda uma apa­rência de segurança.
— Vamos embora daqui! — aconselhou o Carmelino, subindo para o seu automóvel.
Mas eu fiquei ainda alguns minutos, observando com profunda cons­ternação aquela pobre gente. Mulheres de rosto acizentado pelo medo, crianças que já não sabiam do paradeiro dos pais, doentes e estropiados, velhos de olhos tristes, a pedir o último esforço às pernas trôpegas — tudo fugia como no pavor dum terramoto.
Reparei especialmente numa preta de meia idade, que chorava desa-baladamente, com um filho ao colo (também ele a chorar) e mais três agarrados às suas saias em farrapos. E não pude resistir a tamanha des­graça. Disse-lhe que entrasse para o meu carro, com as crianças, e per­guntei-lhe para onde queria ir.
— Eu queria ir no comboio, patrão — respondeu ela, quando já o menino de colo terminara o seu choro, repentinamente interessado nas minhas manobras ao volante.
— Assim, sem nada?!
— Não teve tempo — explicou ela. — Os tiros eram muitos e os ban­didos andavam a assaltar as cubatas.
— Para onde vai agora?
— Talvez vai no Dondo. Eu tem lá irmãos…
— E dinheiro para o comboio?
— Só tem cinquenta angolares, da palanca que o meu homem me deu no último sábado. Talvez chega para a 3.” classe. Os filhos não paga. O mais velho ainda não fez 5 anos.
— Vai sem o seu marido?
— Há três dias que não sei dele. Talvez já morreu de morte matada. Agora, no muceque, só há confusão e a gente malvada que rouba tudo e mata logo, sem avisar. Diz já, patrão, porque é que os portugueses estão a ir embora?
— Angola quer ser independente e o Governo de Lisboa já concordou.
— Independência! — fez a preta, no jeito de cuspir a palavra: — Eram os turras quem queria a independência. E agora dão tiros uns nos outros…
Já a descer a Rua de Camões, travei atrás dum Unimog da tropa, estacionado junto do Hotel Trópico, e disse ao alferes português que havia tiros ao fundo da Avenida dos Combatentes.
— Já sei — respondeu ele —, mas estamos proibidos de intervir.
— Proibidos por quem?
— Por quem pode.
— O almirante?…
Ele nem negou nem confirmou: limitou-se a sorrir, talvez para ocul­tar a sua íntima frustração de soldado reduzido à reles condição de mero espectador de uma enorme desgraça.
Na estação do Caminho de Ferro, dei 500 escudos àquela mãe de quatro filhos pequeninos e arranquei logo, para fugir aos seus agradecimentos, abundantemente molhados de lágrimas. O meu bilhete de identidade ainda é de cidadão português. E uma nota de 500 escudos não é nada para a dívida que Portugal contraiu com aquela pobre mulher.
Na redacção do meu jornal já sabiam da luta na zona de S. Paulo. Tinha partido para lá o Pedro Gilvaz, que se considerava vacinado contra as balas perdidas e teimava em ir tirar uns bonecos.
— Viste alguma coisa? — perguntou-me o Baldaque, quando lhe falei no tiroteio.
— Ouvi os tiros a poucas dezenas de metros e assisti à debandada dos pretos do Rangel.
— Quem está a vencer?
— Não sei.
— Podes escrever uma croniqueta sobre o assunto?
— Claro que posso. O que não vi é fácil de imaginar.
— Isto está a tornar-se muito feio — opinou o Baldaque. —A entrega de Angola aos guerrilheiros do terrorismo é um erro tremendo. Começo a pensar se não terei também de ir embora…
— Para onde? — perguntei com sinceridade.
— Para a África do Sul, para o Brasil, até mesmo para a Metrópole. Para qualquer parte, desde que seja para longe deste carnaval trágico. Sou branco e, nesta terra, o tempo dos brancos acabou.
— E terá começado o tempo dos  angolanos pretos? — perguntei com cepticismo. — Ainda agora levei à estação do Bungo uma preta com quatro filhos pequeninos, que já não sabe se o marido é morto ou vivo e foge do inferno dos muceques. Um horror!
— Esse Rosa Coutinho merecia ser atirado para o meio duma alca­teia de mabecos. Dizem que vai embora amanhã. E não deixará de sorrir à partida… Tu já sabes alguma coisa do engenheiro Balanta?
— Nada de seguro. Mas parece que sempre conseguiu voar para Joanesburgo.
— Quando chegará a nossa vez? — insinuou ele, profundamente desiludido.
7.3 — Interrogatório no Palácio
Durante quase um mês nada mais soube do engenheiro Balanta. Até que um dia, já muito perto da meia noite, apareceu de surpresa em minha casa.
— Fugi da cadeia e tenho de sair urgentemente de Angola — disse, após o abraço do reencontro. — Podes esconder-me aqui por um ou dois dias?
— Claro que posso.
— Talvez seja arriscado para ti…
— E depois?
— Bem… era meu dever avisar-te, mas já esperava essa reacção. Não fales nisto a ninguém. Mesmo depois de eu sair, é melhor que nin­guém saiba que eu fugi da cadeia para aqui. É melhor, principalmente para ti.
— Está bem — concordei eu. — Mas senta-te. Vens com ar esfo­meado, homem. Meu pai e a tia Isaura foram a uma festa de anos. Mas, por mistérios inescrutáveis, tenho aí um pedaço de carne assada. E também há pão relativamente fresco, o uísque da praxe e algumas sodas geladas. Abanca, que vamos jantar os dois.
Deixei-o beber dois uísques seguidos e devorar três grossas fatias de carne assada com uma rapidez que não enganava ninguém. E, então, já com a fome acalmada, foi ele que espontaneamente declarou:
— Acabo de viver vinte e sete dias de inferno…
— Conta! — convidei, enchendo-lhe novamente o copo e pondo-lhe no prato mais carne assada.
— Ainda bem que mandei a família para a Metrópole. Se tivesse a mulher e os filhos em Angola, nem me atrevia a fugir… Sabes que me foram buscar a casa às 11 horas da noite?
— Não sei nada. Ainda fiz uma diligência no Palácio, mas foram passos perdidos.
— Pois foi mesmo para o Palácio que me levaram nessa noite de há vinte e sete dias. Entrámos numa sala onde estava o Almirante Vermelho a dizer coisas a um cómico grupo de oficiais do exército e da marinha, uns de pé, outros recostados nas poltronas e até alguns sentados no chão. Um quadro de garotos de escola primária, na ausência do professor. Só com a diferença que o professor estava lá e era dos mais gozões, exi­bindo aquele riso alvar que todos lhe conhecemos. O almirante falou, falou, sem nunca olhar para mim, que fiquei à porta entre os meus dois guardas, aparentemente ávidos de carregar no gatilho, e desandou para o seu gabinete, seguido pelos guarda-costas. O meu primeiro inter­rogatório foi ali mesmo, sempre sob a ameaça das armas e a servir de pião das nicas de toda aquela reinadia assembleia, constituída por cerca de vinte militares eminentemente progressistas, desses que o general Costa Gomes (raios o partam!) nos mandou de presente.
«—Qual é o seu posto no Partido da Democracia Cristã de Angola — começou por me perguntar um senhor comandante da Marinha de Guerra, com uma careca luzidia a prolongar-lhe o focinho de raposa matreira.
«—Não pertenço a nenhum partido político — respondi.
«— Está a mentir!
«— Nunca fui mentiroso.
«—Ai, que menino tão bem comportado! — chasqueou um alferes, com olhos ramelosos e barbicha de chibo no cio.
«—A sua fazenda dos Dembos tem dado apoio logístico aos guerri­lheiros de Holden Roberto — acusou o Comandante.
«—A minha fazenda está ocupada pêlos turras, o que é muito diferente.
«—Já não há turras! — repreendeu ele.
«—Ai, é verdade… — emendei, sem poder evitar um riso de troça.
«—Este gajo está a rir-se de nós! — acusou um alferes de camisa aberta até ao umbigo.
«—Rira bien qui rira lê dernier — disse o comandante, muito vai­doso do seu francês. — Nós temos processos de fazer cantar este caná­rio… Vamos lá a saber: quais eram exactamente as suas relações com o dr. Ferrenha?
«—Nenhumas. Nem sequer o conheço pessoalmente.
«—Ai, que santa ignorância! — ganiu de novo o alferes das pia­dinhas.
«—Mas conhece os oficiais do Centro de Instrução dos Comandos…
«—Tenho entre eles alguns bons amigos.
«—Também por lá há alguns saudosistas da guerra colonial. Sabe quais são?
«—Se soubesse, não lho dizia! — gritei, já enfurecido com a rópia do marujo de água doce. — Deixem de me aborrecer com perguntas de esquadra da polícia. E, se eu próprio também posso perguntar alguma coisa, agora que há liberdade para todos, gostaria que me dissessem porque é que estou preso…
«—Qual é a sua opinião sobre a FUÁ? — disparou um tipo de óculos, ignorando a minha pergunta.
«—Se o senhor é capelão, fique sabendo que não estou preparado para mie confessar.
«—E, se o menino começa a refilar, vai daqui para os muceques e o Poder Popular lhe tratará da saúde… — rosnou um dos militares mais cabeludos.
«Com um gesto de apaziguamento, o comandante ordenou então que me entregassem aos «rapazes» da sala do lado. E encontrei-me entre um novo grupo de militares, quase todos com o galão de alferes, ainda mais progressistas e cabeludos do que os primeiros.
«—Ouça lá, amigo! — começou um deles, todo falinhas mansas — Gosta ou não gosta de Angola?
«—Nasci cá, de pais que também cá nasceram.
«—Então, porque anda metido com essa canalha do PDCA(1), que é a nata dos exploradores desta terra?
«—Já disse aos vossos camaradas ali ao lado que não pertenço a nenhum partido político. Só quero que me deixem viver e trabalhar na terra onde nasci.
«—Certo! — concordou o cabeludo. — Mas, nesse caso, deve cola­borar na construção de uma Angola livre e independente. E há por aí uns malucos ainda convencidos de que podem impedir que isso aconteça. O amigo sabe quem são… Venham de lá os nomes!
«—Não sou delator.
«—Bem… vamos lá com calma…
«E, revezando-se na tarefa de me fritar o juízo, sempre no mesmo tom, com um ou outro rompante de fúria, assim me interrogaram durante quatro horas, mantendo-me de pé e sob a ameaça das armas.
«Mas acabaram por desanimar.
«—É irrecuperável! — concluiu o maioral do grupo, quando o co­mandante careca veio da outra sala perguntar «como iam as coisas».
«— Levem-no para a Casa da Reclusão — sentenciou o Comandante.
«Fomos, eu com os meus dois guardas, mais dois militares armados de G3. Junto da Estação Ferroviária do Bungo, os quatro militares sairam do jipe, mandando-me esperar, e afastaram-se uns cinquenta metros. Reparei que nem tinham deixado à mão uma carabina G3 e compreendi a intenção de ma arrastarem a um acto de desespero, para resolver rapida­mente o meu problema com uma bala certeira. Mas não caí na emboscada. Saí também do jipe, levantei os braços ao ar e gritei-lhes o desafio:
«—Se querem  matar-me,  não  percam mais tempo!
«—Ninguém o quer matar, seu caguinchas! — declarou o chefe da escolta com a mais descarada insolência.
«Acabei por dar ©nitrada na Casa de Reclusão, onde fiquei encarce­rado durante 56 horas, sem comer nem beber.
«Levaram-me depois para a antiga prisão da DGS, em S. Paulo, onde me fecharam numa cela fétida e só dois dias mais tarde me deram uma cama de campanha e uma vassoura para varrer um pouco de toda aquela porcaria. Ali encontrei o capitão Seara, o mesmo que defendeu a Casa da Reclusão em 4 de Fevereiro de 1961, do assalto dos homens do MPLA, e que também era acusado de se opor à descolonização. Mas, quando tentávamos conversar, separaram-nos brutalmente -e nunca mais nos vimos.
«Recomeçaram os interrogatórios, que se prolongaram, de dia e de noite, durante cerca de três semanas. Sempre a mesma lenga-lenga. No que mais insistiam era em informações sobre a FUÁ, sobre elementos do PDCA, sobre oficiais dos Comandos, sobre pilotos da Força Aérea Por­tuguesa e até sobre alguns membros do Governo de Transição.
«Teimaram, voltaram a teimar, mas deram sempre com o nariz na porta. Durante um dos últimos interrogatórios, um capitão com cara de cavalo ainda fez menção de me agredir. Mas fitei-o com tais olhos, que logo desistiu do intento. Lácobardes são elas, podes ter a certeza!
«Não sei se sabes que a antiga prisão da DGS serve agora também de quartel do COTI.1, que é uma das unidades encarregadas de manter a ordem em Luanda, ou de fingir que a mantém. Eram da Cavalaria e pare­ceu-me que continuam a ser bons soldados, alguns deles enraivecidos com o Almirante Vermelho, que só está interessado em que lhe defendam o seu covil. Logrei conquistar a simpatia de alguns furriéis e de um alferes. E só assim consegui fugir.
«E aí tens, em breve resumo, o que me aconteceu nestes últimos vinte e sete dias.
— E agora? — perguntei eu, que propositadamente o não interrom­pera uma só vez, durante a sua emocionante narrativa.
— Agora, vou sair de Angola o mais depressa possível. E tu, se queres um conselho, larga também!
— Eu sou angolano.
— Também eu. Mas já não existe segurança para nenhum de nós, nesta desgraçada terra, onde ninguém se entende.
Indiquei-lhe o quarto onde poderia dormir e, nos dias seguintes não descansei enquanto não arranjei um barco de pesca que o levasse até Moçâmedes, onde tinha bons amigos.
7.4 — O “Quinteto» regressa a Lisboa
O Baldaque estava bem informado. Com efeito, no dia seguinte, pouco antes da meia noite, o «quinteto de cordas» tomou o avião de regresso a Lisboa. Sem aviso prévio. Sem mesmo aguardar que chegasse o alto comissário, general Silvino Cardoso.
A Junta Governativa, que tanto mal fez a Angola, esgueirou-se medro­samente, nas sombras da noite, através dum aparatoso dispositivo militar, que se estendia desde o Palácio do Governo até à escada do Boeing e até metralhadoras pesadas incluía.
Já na sala dos VlPs, com a aerogare rigorosamente interdita a civis, aqueles cinco homens, quase todos execrados pela maior parte dos bran­cos e pretos de Angola, sentiram-se repentinamente alegres e descon­traídos. Todos à paisana e em mangas de camisa, riam e chalaceavam como excursionistas no fim dum agradável passeio.
Os jornalistas que souberam a tempo daquela partida (entre eles, eu) acabaram por conseguir acesso ao aeroporto, depois de prévia auto­rização do Almirante Vermelho que, no entanto, não quis responder às nossas perguntas.
— Têm aí quem exerceu até agoira as funções de Secretário da Comunicação Social — disse. — Falem com ele, se quiserem!
E voltou para junto do seu bando, rompendo logo em grandes garga­lhadas, talvez no desfecho de qualquer interrompida anedota.
O comandante Correia Jesuíno também se mostrava eufórico. Pare­cia um estudante, ao acabar de receber a sua carta de curso. Tinha aplicado pesadas multas a jornais e revistas, por dizerem verdades que lhe desagradavam. Colaborara activamente com os inconscientes de Lisboa nos insultos e calúnias contra os portugueses brancos do Ultramar Por­tuguês. A entrega de Angola aos russos estava bem encaminhada. Era um herói! Sofrera alguns sustos que ele próprio classificavade «bestiais». Mas, agora, já estava a salvo dos indecentes colonialistas. Iniciara uma bela carreira e esperava a recompensa do general Vasco Gonçalves. Por isso nos atendeu com um largo sorriso de triunfador:
— Digam!
Houve aqueles momentos de hesitação que sempre acontecem nestas ocasiões, com olhares de uns para os outros, em mudo convite ao início das perguntas. E acabei eu por me decidir:
— O senhor comandante foi, durante estes meses, o responsável pêlos meios de comunicação, nesta terra agora em vésperas da indepen­dência. Que pensa da imprensa de Angola?
— Penso que a imprensa de Angola é uma boa merda — respondeu ele, de repente.
E, notando que eu regulava rapidamente o meu gravador, acrescen­tou com total inconsciência e alvar descaramento:
— Pode gravar à sua vontade. Eu repito: penso que a imprensa de Angola é uma boa merda.
Já todos sabia-mos que ele era burro e mau — coisas que, juntas, são demais. Mas aquela resposta, na hora da partida de uma terra que tinha todo o direito de o correr a pontapés, excedia quanto podíamos imaginar.
Fitámo-lo com o espanto de quem depara com um mabeco a falar e desistimos de mais perguntas. Por acordo tácito, sem mais uma palavra, nem para ele nem para o resto do bando, saímos dali.
No dia seguinte, quando, na redacção do jornal, se estranhava o facto de o «Quinteto de Cordas» ter partido antes da chegada do alto comissário, o Baldaque deu uma explicação singular:
— Tinham mesmo de partir sem mais demoras — disse —, não há figueiras em Angola…
Toda a imprensa reproduziu a resposta malcheirosa do ex-secretário da Comunicação Social. E a revista Notícia, que só à sua conta pagara mais de uma centena de contos de multas aplicadas pelo progressista da merda, revelava que o insultador dos jornalistas angolanos tinha levado a esposa à Conferência do Alvor, como representante da imprensa de Angola.
Foi daí em diante que os portugueses de Luanda começaram a dizer que o brilhante tocador de rabecão do quinteto de cordas era «Je» por parte da mãe e «suíno» por parte do pai…
            (1) Partido da Democracia Cristã de Angola.
GUERRA CIVIL
8.1—Aquilo é um regabofe, meus filhos!
Bem contra a sua vontade, por exigência de Holden Roberto e Jonas Savimbi, que não podiam tolerar a descarada parcialidade do Almirante Vermelho a favor do MPLA, o general Costa Gomes substituiu o seu amigo e correligionário pelo general de Aviação, Silva Cardoso, que muitos angolanos consideraram um Homem honesto e um Militar corajoso.
Mas o Baldaque, cada vez mais azedo, protestou imediatamente con­tra tal opinião, que era também a minha.
— Deixa-te de ilusões, menino! Para ser melhor que o Rosa Coutinho não é preciso muito. Mas -este também obedece aos traidores de Lisboa e mantém a nossa tropa na triste figura de assistir friamente às maiores infâmias e crueldades. Éou não é verdade?
E o seu olhar era tão furioso que nem sequer tentei defender o novo alto comissário. Fosse como fosse, o mal estava feito. E apagara-se definitivamente a última faúlha de esperança, acesa pelas primeiras de­clarações do Governo de Transição.
O processo da imensa tragédia de Angola estava já na sua linha irreversível.
O Rosa Amaral, que voltava de uma rápida visita à Metrópole, vinha profundamente desanimado.
— Aquilo é um regabofe, meus filhos! — anunciou, sintético e decisivo. — Depois do 12 de Março, que foi uma inventona da extrema-esquerda, os comunistas de Álvaro Cunhal apoderaram-se de quase todos os postos-chave. O general Vasco Gonçalves é um pau-mandado nas mãos deles. E o Portugal dos portugueses vai alegremente para o fundo, gritando por mais dinheiro e menos trabalho, já!
— É o habitual fenómeno da descompressão — comentou o Sousa Quevedo, que não mudava facilmente de ideias.
— É a descompressão do raio que os parta a todos! — vociferou o Baldaque, agora quase sempre em maré de mau humor. — Em poucos meses, rebentaram com uma nação de oito séculos de independência. Enquanto durar o dinheiro deixado pelo regime deposto, brincam às cigar­ras cantadeiras. Quando a «pesada herança» acabar, o povo acorda para a miséria a que o arrastaram e é capaz de pedir a conta dos festejos…
— Cala-te para aí, coruja de mau agouro! — increpou o Santos Gouveia.
— Bem… — fez o Rosa Amaral, na função de apaziguador — E como vai isto por cá?
— Malíssimo! — uivou o Baldaque. — No caminho rectilínio para a guerra civil. Os Movimentos, que se guerrearam nas matas, não se desabituam assim tão depressa. E agora vai ser muito pior.
A vaga de pessimismo ia engrossando e alastrando. Também havia os que ainda teimavam em acreditar numa independência real e decente, para todos os homens decentes. E eu era um desses. Mas o vendaval dos factos tornava-se demasiado violento para que lhe pudesse resistir por muito mais tempo essa mimosa flor da esperança que é, na alma do homem, uma saudade de Deus.
Um dos brutos pontapés da nova realidade angolana, recebi-o eu em pleno peito quando, num desses dias, fui abraçar o nosso director, que regressava depois de saber que o Almirante Vermelho fora substituído.
Sem lisonjas, que as não sei usar, sempre admirei esse rapaz, novo e dinâmico, que alguns dos meus colegas tratam por tu, porque andaram com ele no Liceu Salvador Correia. Herdou o jornal do grande jornalista e grande português, que foi António Correia de Freitas, e tinha sabido honrar a tradição do mais prestigiado órgão da imprensa angolana, mantendo-o na mesma linha de rumo e melhorando-o substancialmente no apetrechamento técnico, no aspecto gráfico e na rentabilidade económica.
Foi por isso com muita e muito sincera alegria que o abracei efu­sivamente. O espanto veio depois, quando ele me apresentou um preto, que estava sentado num dos maples do gabinete, fardado de camuflado e com uma pistola metralhadora em cima dos joelhos.
         — Este é o comandante Cabango — disse com a maior serenidade. Apertei a mão do guerrilheiro mas, logo que pude falar a sós com o director, perguntei-lhe o que significava aquilo.
— Logo, explicarei a todos. Vou convocar uma reunião para esta tarde.
E na reunião explicou:
— Meus amigos — disse ele com certa emoção —, julgo que não duvidam da minha amizade nem do meu respeito pela vossa opinião. Nisto, como em tudo o mais, tenho procurado seguir o exemplo do meu tio. Mas agora tomei uma decisão sem vos consultar, porque era urgente e vital. Durante o meu breve exílio na África do Sul, obtive informações seguras sobre o que se trama contra esta nossa terra. E coloquei o nosso jornal sob a protecção da FNLA.
— Da FNLA?! — gritou o Sousa Quevedo, com o sobressalto de quem pisa uma cobra cascavel.
— Exactamente. Falei com Holden Roberto e verifiquei que é bem diferente da imagem que todos nós fazíamos dele.
— Mas tu — interveio o Rosa Amaral —, tu que tanta vez arriscaste a vida no teu avião de brinquedo, para evacuar portugueses feridos pela UPA, alinhas agora com esse movimento?!
— Não quero o comunismo na minha terra — disse ele com pro­funda amargura.
— Chama-se a isto «anticomunismo primário» — lançou o Sousa Quevedo do seu canto.
— Chama-lhe o que quiseres. Para mim, o comunismo é o contrário de democracia. E nós já estamos vendidos a Moscovo. Eu não aceito isso!
— Tu não podes estar de acordo com Holden Roberto — insinuou o Baldaque.
— Estou de acordo com ele num ponto essencial: somos ambos anticomunistas. Mas admito que já nos encontramos perante opções de emergência. O que todos deveríamos ter feito era cortar com o Governo de Lisboa logo após o 25 de Abril. Simplesmente, deixámo-nos enganar miseravelmente por um pequeno grupo de traidores. E agora, é tarde! Pela minha parte, já que não posso fazer mais nada, quero ao menos lutar contra a instalação de uma ditadura nesta bela terra. E étudo, meus amigos.
Levou-nos depois ao Gabinete da Direcção, onde nos apresentou o comandante Cabango, como responsável pela nossa segurança.
O guerrilheiro, sempre sem largar a sua pistola-metralhadora, assu­miu um ar simpático para nos dizer que tinha quatro homens sob as suas ordens, que vestiam à paisana e só ele sabia quem eram.
— Onde estão? — quis saber o Santos Gouveia.
— Desculpa, mas não pode dizer— respondeu ele.— Este serviço é assim mesmo… Mas toda a gente pode trabalhar na confiança, que nós vai guardar tudo muito bem, faz favor de acreditar…
Voltámos para a sala da Redacção, num silêncio consternado, que o Sousa Quevedo quebrou de forma imprevista:
— Tenho de pensar noutro emprego…
— Porquê? — fiz eu.
— Todos aqui conhecem as minhas ideias…
— E alguma vez, neste jornal, se perseguiu alguém por causa das suas ideias?
— Bem sei que não. Mas agora, com esses «fenelas» cá dentro, quem é que manda no jornal?
E não encontrei resposta para lhe dar…
Na verdade, -não houve qualquer espécie de pressão pana o despe­dimento daquele conhecido e reconhecido adepto do Partido Comunista Português e, por isso mesmo, naturalmente simpatizante com o MPLA. Mas foi ele mesmo que se despediu, e por um estranho motivo: porque foi dispensada a colaboração dum velho jornalista, que há cerca de qua­renta anos mandava ao nosso jornal dois ou três artigos por semana. Isto sem nunca falhar, mesmo quando estava de férias na Metrópole.
— Porque fecham assim a porta a um dos nossos mais antigos cola­boradores? — perguntou o Sousa Quevedo.
— Certamente imaginas quanto isso me custa — confessou o direc­tor. — A decisão não foi minha.
— Bem sei. E, para te poupar novo desgosto, vou-me embora, antes que o Holden Roberto te mande um bilhetinho a meu respeito.
As ideias do velho colaborador saneado eram inteiramente con­trárias às de Sousa Quevedo, pelo que a sua atitude foi considerada paradoxal por alguns colegas. Mas não havia paradoxo nenhum: havia apenas dois homens igualmente sinceros nas suas convicções e que, por isso mesmo, se respeitavam e estimavam.
E acontecia também que chegara a hora de pensar e agir na dimen­são da enorme tragédia que já pairava sobre Angola e sobre as suas gentes…
8.2 — Guerra dos Movimentos
Já disse que, ainda com o Almirante Vermelho a executar as ordens de Moscovo em Angola, o MPLA atacou o quartel da tropa de Daniel Chipenda no Bairro da Caop. Os brancos residentes naquela zona viram como alguns «pioneiros» das FAPLAS caíam por terra, logo aos primeiros tiros. E condoeram-se dessas «pobres crianças», ceifadas pela morte antes de atingirem a plenitude da vida. Soube-se depois que, na maioria dos casos, as «pobres crianças» nem sequer estavam feridas. Ao primeiro contacto com os horrores da guerra civil, tinham muito naturalmente des­maiado de medo.
Mas também houve bastantes mortos de verdade. Os guerrilheiros do antigo futebolista da Académica de Coimbra foram desalojados e o MPLA inchou com a grande vitória.
A guerra civil já era um facto em Angola, quando o general Silva Cardoso entrou no abandalhado Palácio dos governadores gerais; e o mais que pôde fazer foi confinar-se numa estrita imparcialidade entre os Movimentos que reciprocamentese odiavam e hostilizavam, tornando completamente inoperante o Governo de Transição.
Entretanto, a parcialidade dos novos governantes de Lisboa a favor do MPLA era manifesta e escandalosa, traduzindo-se em toda a espécie de ajudas e incentivos. As Forças Armadas Portuguesas, completamente «desmotivadas», como descaradamente afirmavam os seus oficiais mais progressistas, tinham perdido toda a coesão, toda a disciplina, todo o prestígio e todo o respeito da parte de brancos e pretos.
Foi nesta vergonhosa situação dos últimos meses da administração portuguesa em Angola, que as FAPLAS, secretamente instigadas e ajuda­das por oficiais comunistas do exército português, decidiram expulsar da capital as forças da FNLA e da UNITA. Com o êxito dos primeiros assal­tos, tornaram-se de uma arrogância insuportável. E todos os dias acon­teciam horrores em diversas zonas da cidade.
Num desses dias, o Baldaque apareceu na redacção a espumar de fúria.
— Que te aconteceu, homem? — perguntei, levantando os olhos duma prosa tirada a ferros.
— Não aturo mais isto — bradou ele com uma voz de alucinado. — Vou-me embora!
— Mas que foi?
— Esta manhã, um piquete da UNTA decidiu impedir o pessoal da Petrangol de entrar na Refinaria.
— É lamentável! — atalhei eu. — Se a Refinaria pára, vai faltar-nos a gasolina…
— Espera lá, comodista! Para mim o mais lamentável não foi isso. Que a Refinaria suspenda a laboração por exigência de meia dúzia de desordeiros já nem me surpreende. Se no porto não descarregam os navios; na Textang estão em greve; na Cuca não trabalham; na Siga não trabalham; nas escolas não ensinam; no Governo não governam — porque é que os homens do petróleo hão-de fugir a esta bela regra? Até era um escândalo!  O que me aborreceu deveras foi outra coisa. Vê láse adi­vinhas…
— Não sou feiticeiro…
— Pois foi só isto: no caminho para o Alto da Mulemba, aonde ia em busca de notícias, dois soldados das FAPLAS plantaram-se à frente do meu carro e mandaram-me parar.
Obedeci e perguntei o motivo da intimação.
— Atão o camarada não vê que estamos a içar a bandeira do MPLA. Sai já do carro e fica aí quieto, até tocar o sinal.
E eu saí. E fiquei quieto e perfilado, como ordenavam aqueles dois garotos armados. Mas já não fui à Refinaria. Que se lixe toda -esta merda! Vou-me embora!
Mas não foi embora, não. Uma patrulha das FAPLAS prendeu-o nessa mesma tarde e levou-o para o campo de prisioneiros instalado na Praça de Touros…
*
Ao sair do jornal, encontrei a Mariluz, que mais uma vez me vinha falar do pai.
— O trabalho da construção -parou completamente e meu pai parece abúlico. Quase não come. Quase não fala. Minha mãe anda a chorar pêlos cantos. Que hei-de eu fazer? Isto vai de mal a pior…
— É uma fase que há-de passar — declarei sem grande convicção.
— Portugal já não manda nada nesta terra. E esses ministros inven­tados à pressa não sabem ou não querem governar. Anda tudo à toa. O pessoal das obras não trabalha mas quer continuar a receber e pede aumento de salário. E o nosso dinheiro sai-se derretendo. Tudo isto está a matar meu pai. Talvez fosse bom que aparecesses lá por casa para ver se o animas…
8.3 — Um pai aflito
Fui a casa do sr. Calabriz nessa mesma tarde.
Encontrei-o sentado à secretária, a fumar de uma maneira esquisita, já com o cinzeiro a transbordar de pontas de cigarro.
Correspondeu molemente ao meu aperto de mão e disparou, sem mais preâmbulos:
— Está satisfeito?
— Não. Mas ainda me não deixei arrastar para os abismos do desespero.
— E eu até compreendo. Você continua a trabalhar. O trabalho dis­trai… O diabo é que eu já não faço nada…
— Melhores tempos virão…
— Ou piores. Desde o 25 de Abril que nada vai para melhor. Já anda outra vez tudo aos tiros.
— Bem sei. Mas tudo depende do Movimento que vencer.
— Não acredito em nenhum deles.
— É preciso acreditar em alguma coisa…
— Eu preciso é de morrer. Já não faço nada neste mundo. A dona da casa veio da cozinha, cumprimentou-me amavelmente e perguntou-me se bebia um uísque.
— Bebe-mos um uísque — declarei, com um gesto associativo para o sr. Calabriz.
— Acha que me devo embebedar? — fez ele com amargura.
— Acho que deve reagir contra esse desalento, que não remedeia nada. E deixe lá de fumar dessa maneira suicida! — acrescentei ao ver que ele acendia mais um cigarro.
Vieram os dois uísques e o pai Calabriz bebeu o dele de um só trago. Depois perguntou:
— Sabe o que disse hoje o garoto que me traz o seu jornal todas as manhãs? Vem sempre à hora do almoço, porque sabe que lhe damos de almoçar… Mas sabe o que me disse?
— ?!
— Que, depois da independência, a miinha casa vai ser para ele…
— E não lhe deu duas bofetadas no focinho?
— Não. Levei-o ali ao quintal, apontei-lhe a terra do jardim e decla­rei-lhe que, sim senhor, que ele ia ficar ali, na minha casa, mas com sete palmos de terra a fazer-lhe sombra.
«—E põe-te já a milhas, meu pequeno sacana!…»
Fugiu desabaladamente e nunca mais apareceu…
Ficámos ambos num silêncio meditativo, até que ele abanou a cabeça, como quem afasta uma visão de pesadelo, e fez nova pergunta:
— E sabe que a Mariluz tem passado um mau bocado na Univer­sidade?
— Não me falou em nada — respondi, sem ocultar a minha preo­cupação.
— Isso é bem próprio dela. Eu também o soube por portas travessas. E ela ainda ignora que eu sei…
         — Mas que se passa exactamente?
         –  Passa-se que os estudantes negros se matem com ela. Dizem-lhe por exemplo, que vai ser uma boa sobremesa na festa da Indepen­dência…
E, num grito de cólera terrível:
— Mas eu queimo os miolos de quem se atrever a tocar-lhe! Outro
silêncio, tão medonho, que logo o tentei afugentar.
— Como soube?
— Pelo dr. Sílvio Miranda, que era professor dela e veio despedir-se de mim, antes de embarcar para a Metrópole.
— Foi de férias?
— Foi-se embora definitivamente. Disse-me que já não podia aturar a Comissão Administrativa da Universidade, constituída quase exclusiva­mente por estudantes do MPLA. E, a propósito, contou-me vexames que estão a sofrer os universitários brancos, sobretudo as raparigas. A Mari­luz, coitada, não me diz nada porque me não quer aborrecer ainda mais. Mas eu bem vejo que também ela anda muito triste. Pediu-me autorização para tomar lições de Judo e eu dei-lha logo. Mas soubemos depois que os professores dessa escola também já partiram… Você continua a pensar que não há perigo para minha mulher e minha filha?…
— Começa a haver perigo para todos nós… — respondi evasiva­mente.
— Para uma rapariga como a Mariluz, o maior perigo não é a morte…
— Compreendo. Mas também o sr. Calabriz deve compreender quanto me custa separar-me agora da Mariluz…
— E a mim, não custa? O que tem de ser tem muita força!
— Está bem: eu tratarei do embarque, desde que autorize que, pri­meiro, se realize o nosso casamento.
— O vosso casamento?! — fez ele, colhido de surpresa.
— Sim. Antes disso, não consigo encarar a ideia de a deixar partir.
— Já lhe falou no assunto?
— Vou falar-lhe hoje mesmo e tenho a certeza de que vai con­cordar.
— Também concordará em partir para a Metrópole, só com a mãe, depois de casada consigo?
— Saberei convencê-la. Talvez até eu embarque também…
Pela primeira vez aflorou um sorriso ao rosto torturado daquele homem. Não era alegria, com certeza, mas era o sinal exterior de um grande alívio na sua profunda ansiedade.
Pediu à mulher mais dois uísques.
— Para celebrar… — explicou.
— Para celebrar, o quê? — perguntou ela.
— Parece que vai haver um casamento…
A dona da casa compreendeu imediatamente e brindou-me com um sorriso, que já vinha eivado de carinho maternal.
8.4 — A evidência dos factos
Comecei imediatamente a tratar da papelada. Mas, agora, nos depar­tamentos oficiais ninguém trabalha, ninguém atende, ninguém informa, ninguém sabe nada. Tudo se complica. A grande tragédia chega, explosiva, sangrenta, incontrolável…
Em novo assalto aos quartéis dos outros dois Movimentos, as FA-PLAS, descaradamente ajudadas pela facção comunista das Forças Arma­das Portuguesas, obtêm sucessivos êxitos. Após a tomada do grande quar­tel da FNLA, na Avenida Salazar, o MPLA monta ali um quadro macabro: vísceras humanas em balcões frigoríficos: corações, fígados, rins, tudo num mostruário de horror.
A propaganda do MPLA afirma que tudo aquilo constituía reserva alimentar dos guerrilheiros do ELNA (a).
Fui ver e logo me convenci de que se tratava duma farsa muito mal montada. As paredes da sala onde se exibia a hedionda exposição estavam crivadas de buracos de balas, aqui e além entremeados de grandes rom­bos produzidos pelas granadas e foguetões. Só os balcões frigoríficos, com as vísceras humanas que as FAPLAS afirmavam ter lá encontrado, permaneciam intactos. Uma coisa totalmente inacreditável!
Correu depois que o MPLA tinha trazido as vísceras da sala de ana­tomia do Hospital Universitário, obrigando a médica branca a entregá-las.
No desígnio de apurar a verdade, procurei essa médica, mas não a encontrei. Alguém me assegurou que a tinham levado para o Campo de Prisioneiros da Praça de Touros…
Entra o mês de Junho. Bombardearam o Hospital de S. Paulo.
— Chegamos aos dias do fim — comenta meu pai, quando uma amiga da tia Isaura, que é enfermeira no Hospital Universitário, vem contar que também o atingiram com fogo de morteiros.
— Há três dias que aquele hospital é um verdadeiro inferno — declara a senhora dona Leonor da Silva, que é a informadora. — Eu tra­balho num dos blocos cirúrgicos e ando tão repassada de horror que, apesar de exausta, já não consigo dormir. Esta noite foram novamente buscar-me, porque havia montes de feridos. Mas, perto do Cinema de S. Paulo, a ambulância que me levava foi alvejada com rajadas de metra­lhadora -e voltámos para trás. Depois, deu-se o tiroteio que todos ouvimos. E à hora do almoço, a enfermeira-chefe foi a minha casa comunicar que o Hospital Universitário está debaixo de fogo de morteiros.
— Há feridos? — quis saber a tia Isaura.
— Muitos. E alguns mortos. Estão agora a tentar transferir os doen­tes para o Hospital Maria Pia — respondeu a enfermeira Leonor da Silva. E acrescentou que a enfermeira-chefe a tinha ido convidar a dar uma ajuda, mas que tivera de recusar porque já não podia mais.
— O pessoal serventuário, quase todo da UNTA (União Nacional dos Trabalhadores de Angola) nega-se a trabalhar e somos nós que temos de fazer tudo.
— E o moral dos brancos é bom? — perguntei eu.
— Temos um certo brio profissional — declarou a enfermeira. — Mas há coisas que custam muito. Quando, há dias, eu falei em abalar para a Metrópole, um negro disse-me que, se fosse para o Puto, tinha de levar um mulatinho dele na barriga. Até os médicos são insultados…
— Todos os brancos estão a ser insultados, agredidos e caluniados — reforçou meu pai com ar sombrio. — E nem sequer é de admirar. Há meses que na Metrópole nos chamam fascistas, reaccionários, explora­dores e ladrões. Os pretos de Angola apenas copiam as palavras e atitu­des da escumalha que usurpou o Poder na nossa desgraçada Pátria. E, para lhes facilitar o trabalho, até nos mandaram, para a imprensa e a rádio daqui, alguns elementos do Partido Comunista Português. Que dizes a isto, filho?
— Digo que, sob este aspecto, o pai está cheio de razão. Lisboa prometeu a independência a Angola, mas pretende impôr-lhe um deter­minado regime. O que é mau…
— É péssimo! — declarou meu pai com veemência. — O comunismo é tudo quanto há de mais contrário ao temperamento dos povos angola­nos. E eles querem implantá-lo aqui.
— Querer nem sempre é poder — objectei.
— Por eles pouco poderão, inclusive porque já demonstraram a sua vergonhosa cobardia. Mas a Rússia é uma grande potência. Com um regime implacável…
Receio que estejamos todos perdidos, meu filho. E oxalá que isto seja apenas pessimismo de um velho que vê todo o seu mundo des­mantelado…
*
Infelizmente, não se tratava de pessimismo de velho: era a evidên­cia dos factos.
Por todo o mês de Julho, a guerra continuou furiosa em Luanda. Centenas de cadáveres apinhavam-se nas mesas e no chão da Casa Mor­tuária. No Hospital Maria Pia, único que ainda funcionava, era incessante a entrada dos feridos. O fogo de armas ligeiras e pesadas ouvia-se em toda a cidade e, nas zonas já conquistadas pelo MPLA, o Poder Popular, armado com a conivência de Rosa Coutinho, lançava-se na caça aos filiados ou simpatizantes dos outros movimentos, espancando, violando, roubando e matando.
Vi como, a pequena distância da Alameda Dom João II, uma Panhard dos Dragões ainda afugentou os larápios que pilhavam as casas dos brancos. Mas também vi como eles voltaram depois, para completar o saque.
Os moradores das torres do Prenda puderam observar como os soldados de Agostinho Neto encostavam os adeptos da FNLA às paredes das casas abandonadas, fuzilando-os sem mais formalidades. Na Avenida dos Combatentes, dois pretos foram abatidos como cães raivosos, só porque usavam botas como os soldados do ELNA.
Por entre o tiroteio, as sirenes das ambulâncias lançam continuadamente o seu uivo sinistro de angústia e de morte. Em toda a cidade paira o cheiro acre do sangue derramado, enquanto não é superado pelo fedor nauseabundo dos cadáveres em putrefacção.
Os brancos fugidos de Malange afirmam que a cidade foi quase toda destruída. Sabe-se que Dalatando (a que já não chamam Cidade Salazar…) está a sofrer a mesma sorte. E correm os mais diversos boatos. Afirma-se que Daniel Chipenda vem aí, para vingar a derrota dos seus guerrilheiros no quartel do Bairro da CAOP. Diz-se que há em Luanda soldados do COPCON, vindos expressamente, com homens armados da LUAR, para ajudar o MPLA. O Rosa Amaral assegura-me que o Almirante Vermelho (que usurpou o título de almirante, porque é apenas capitão de fragata…) está secretamente no Lobito, a planear com elementos da Marinha de Guerra Portuguesa a expulsão da UNITA e da FNLA de todos os portos angolanos situados ao sul de Luanda.
Ao abrir da segunda quinzena de Julho de 1975, a FNLA mantém-se apenas no seu último reduto: a Fortaleza de S. Pedro da Barra. E os sitiados declararam que, se forem atacados, bombardearão a Refinaria de Petróleo, que lhes fica a cerca de 1500 metros de distância…
8.5 — Alguns casos confrangedores
O comandante Cabango e os seus quatro vigilantes desapareceram sem deixar rasto. Também o Rosa Amaral não aparece na Redacção desde há dois dias. E não foi encontrado no seu quarto de solteiro, na Avenida do Brasil. Ninguém sabe dele…
Vêm ao meu jornal contar-nos casos confrangedores.
Um carpinteiro da Companhia Teatral de Angola (CTA), com 55 anos de idade, informa que embarca nessa mesma noite, porque uns pretos embriagados quiseram violar-lhe a filha de 13 anos.
— Consegui afugentar os patifes e fui depois pedir a protecção da polícia portuguesa. Responderam-me que não podiam fazer nada. Vou–me embora.
Um antigo soldado, que veio para Angola em 1962 e cá ficou, depois de terminada a sua comissão militar, conta a sua má sina:
É casado e pai de um bonito par de crianças. Trabalhou no Quicolongo durante os últimos dez anos. Agora que também lá começaram aos tiros, conseguiu fugir, com a mulher e os filhos, para Malange. Como tam­bém naquela cidade tivesse começado a confusão, fugiu mais uma vez e andou perdido no mato durante vinte e três dias. Passou em Henrique de Carvalho — e havia confusão. Atingiu o Luso — e havia confusão. Desceu a Nova Lisboa e verificou que, também ali, a tropa portuguesa estava inoperante e apática, como se fosse constituída por soldados de chumbo. Meteu-se, então, a caminho de Luanda, aproveitando uma escolta de Forças Integradas, composta por soldados portugueses e guerrilheiros da UNITA. Para cá de Quibala, os guerrilheiros da UNITA foram atacados pela tropa do MPLA e dizimados sob os olhos dos soldados portugueses, que nada fizeram para os proteger.
Tinha chegado finalmente a Luanda, há dez dias, e tratou imediata­mente do embarque para a Metrópole, porque os brancos já não podem viver nesta terra em que tanto trabalharam. A família já está no aeroporto, à espera do avião que os levarápara Lisboa. Ele veio ao Banco de Angola tentar cambiar algum dinheiro. Não conseguiu nada. Os 10 contos que ainda tinha, trocou-os na Portugália por três  notas de conto do Banco de Portugal. E é com isso que vai regressar à sua Pátria…
Outro conta que trabalhava nas Mabubas, desde há 17 anos. Lá tinha casado e assistido ao nascimento dos seus três filhos. No princípio da semana, soube que a tropa do ELNA tinha abandonado aquela zona e, logo a seguir, chegaram as FAPLAS, que levaram tudo a ferro e fogo, cha­cinando os brancos e roubando tudo quanto encontravam.
— Quando atacaram a minha casa — conta o desgraçado —, minha mulher fugiu para a varanda das traseiras, com o filho mais pequeno ao colo. Mas os bandidos perseguiram-na e cortaram-nos literalmente ao meio, ao filhinho e a ela, com sucessivas rajadas de metralhadora. Fize­ram isto em pura crueldade, porque a primeira rajada chegou para os matar… Arremeti contra os brutos mas, não sei porquê, não me mataram. Limitaram-se a dar-me uma coronhada na cabeça, que me fez perder os sentidos… Voltei a mim na carrinha dum comerciante preto do Caxito, meu antigo colega de trabalho, que nos trouxe para Luanda, a mim e aos dois filhos que me restam. Chego aqui — e é o que se vê… Que posso eu fazer, sem emprego, sem a minha querida mulher, e com dois filhos a sustentar? Era bem melhor que me tivessem matado…
— Saído do Bairro da Cuca — continuou — onde o Poder Popular estava a matar e a roubar, vim para casa dum amigo que vive no Bairro da Vila Alice. Fugi dum inferno para cair noutro. O Bairro da Vila Alice parece uma roda de fogo preso.É um contínuo ribombar de morteiros, por entre as gargalhadas das metralhadoras. Há constantes matanças em plena rua. Apesar de estar mais próximo do centro da cidade, os roubos não são menos e os mortos ainda são mais. Nas ruas desertas, zumbe continuadamente um vespeiro de balas…
— Eu fui soldado na Guiné Portuguesa, que é um inferno de calor. Depois de lá cumprir o serviço militar (e aquilo — podem acreditar — era mil vezes pior do que em Angola onde, nos últimos tempos, já ninguém sentia o terrorismo), vim para esta grande terra, a conselho dum primo. Tenho mulher e quatro filhos, o mais velho com 12 anos e o mais novo com 3. Maldito conselho daquele maldito primo! Estamos no aeroporto, à espera de que um avião estrangeiro nos salve desta tragédia nacional…
Estes são apenas alguns dos muitos dramas cujas narrativas pun­gentes chegam até à redacção do meu jornal.
A ameaça de bombardeamento da Refinaria da Petrangol, situada no alto da Mulemba, bem perto dos sitiados da Fortaleza de S. Pedro da Barra, constitui agora um novo facto de pânico. Os luandenses vivem num clima de terror.
Na verdade, os homens de Holden Roberto são como tigres encurra­lados e podem provocar uma desgraça de consequências imprevisíveis. Possuem armamento pesado e, na Refinaria, há muitos milhares de toneladas de produtos altamente inflamáveis que podem atingir com toda a facilidade. Diz-se que só a explosão dos seis depósitos de gás butano pode arrasar uma grande parte da cidade.
A ameaça é muito séria e tem travado o ímpeto do MPLA e de todos aqueles que o ajudam. Finalmente, obedecendo a instruções de Holden Roberto, os sitiados de S. Pedro da Barra saem do seu refúgio e, pela calada da noite, tentam alcançar a tropa do ELNA, que desce do Caxito.
O MPLA torna-se senhor exclusivo da capital de Angola.
8.6 — FAPLAS e Comandos
— Dizem que rebentou uma bomba no nosso jornal — veio anunciar o Santos Gouveia, com olhos de alucinado. — Tu não ouviste um grande estrondo?
— Ouvi muitos. Estrondos é o que mais se ouve agora nesta cidade enlouquecida.
— Aquele foi diferente — teimou ele. — Eu também não liguei; mas agora que me falaram da bomba, compreendo. Anda daí comigo!
Fomos. Rompemos por entre a multidão acumulada junto ao velho edifício do jornal e verificámos que as instalações da redacção estavam transformadas num monte de escombros.
Senti-me invadido por uma íntima tristeza. Quem trabalha afeiçoa–se ao seu local de trabalho. E o nosso director, que está novamente na África do Sul, tinha melhorado todas as instalações, incluindo a redacção, que já beneficiava de ar condicionado.
A bruta carga de plástico destruiu quase todo o primeiro andar, mas poupou as oficinas do rés-do-chão. As máquinas funcionam e o jornal pode continuar a sair.
Não temos secretárias, falta o telex, não há máquinas de escrever. Mas ainda não nos cortaram a cabeça. E um repórter, desde que tenha ideias, uma esferográfica e uns pedaços de papel, pode exercer a profissão.
Foi o que disse aos meus colegas, que acorreram imediatamente, como eu e o Santos Gouveia, e concordaram em pleno. O jornal vai sair amanhã, à hora do costume.
Já estamos muito desfalcados. Além do director, mais uma vez longe de Luanda para salvar a vida, o Baldaque -está preso, o Rosa Amaral desapareceu sem deixar rasto e o Sousa Quevedo foi tentar vida no Brasil. De maneira que, neste amanhecer trágico, somos apenas o Santos Gouveia, o Maia Campita, o Carlos Pontes, o Gama Ribeiro e eu.
— Isto é tudo uma grande chatice — resumiu o Gama Ribeiro, cofiando o seu bigode farfalhado.
— Ainda podia ser pior— declara o Maia Campita que, agora sim, já conseguiu emagrecer uns quilos. — Vocês sabem que, por mero acaso, faltei ao meu turno da noite?
— É verdade! — concordou o Carlos Pontes. — Alguém acendeu por ti uma velinha a Nossa Senhora de Fátima.
— Sabe-se lá… Só sei que o meu despertador entrou em greve sem aviso prévio e eu dormi desabaladamente até há bocadinho… Bem: vamos lá trabalhar.
Durante todo o dia, o nosso trabalho esteve bastante prejudicado pela contínua romaria dos mirones, que vinham ver os estragos, e até por bons amigos, que tentavam insuflar-nos uma coragem que eles pró­prios já não sentiam.
A Mariluz foi das primeiras a aparecer. Mas, quando me viu, ainda vivo e são, abraçou-se a mim a chorar e partiu de novo, sem dizer uma palavra, sem mesmo me informar de que o pai estava de cama, com 39 graus de febre.
No dia seguinte, às 8 da manhã, o jornal já andava na rua, com uma extensa reportagem dos últimos acontecimentos e um editorial da minha lavra, que era, todo ele, um apelo à conciliação e ao trabalho ordeiro, coisas ambas elas indispensáveis à construção de uma real independência e condições de progresso e bem-estar para a população de Angola.
Mas as nossas bem intencionadas palavras, já tocadas dum cres­cente nervosismo, perdiam-se ingloriamente no tumulto das ruas e na vertigem dos acontecimentos.
         Foi por esses dias que uma patrulha portuguesa sofreu uma cobarde agressão das FAPLAS, que lhe ocasionaram algumas baixas. Travando a custo a fúria dos «comandos», que pretendiam vingar imediatamente os seus camaradas mortos, o general Silva Cardoso intimou o MPLA a castigar os agressores e a apresentar desculpas até às 8 horas do dia seguinte.
Ao expirar o prazo concedido, uma força dos «comandos» tomou posições junto do principal quartel das FAPLAS e aguardou durante mais noventa minutos qualquer atitude conciliatória dos soldados de Agostinho Neto.
Atacados novamente com rajadas de metralhadora, os «comandos» investiram irresistivelmente contra o quartel e infligiram um duro castigo aos fanfarrões.
O MPLA rompeu num grande berreiro para Lisboa e o general Costa Gomes chamou à capital portuguesa o general Silva Cardoso, que ainda inspirava alguma confiança à esmagadora maioria das populações de Angola.
Logo a seguir, apareceu de novo em Luanda, acompanhado por alguns dos seus capangas, a figura sinistra do almirante Rosa Coutinho. Sob a sua orientação e certamente na execução de planos urdidos em Cuba, quando lá foi com o major Otelo Saraiva de Carvalho, promoveu que a Marinha de Guerra portuguesa conquistasse sucessivamente, para o MPLA, todos os portos angolanos situados ao sul de Luanda.
Em Lisboa, o general Silva Cardoso, na Radiotelevisão Portuguesa, declarava-se enfaticamente farto de ódio e de sangue. E, em Angola, intensificava-se a debandada dos portugueses, já completamente desilu­didos, já em transe de desespero…
(a)   Exército da Libertação Nacional de Angola.
A DEBANDADA
9.1 — Conselho de família
Noto que meu pai tenta agora ocultar-me as suas crescentes preo­cupações. Está certamente ávido de notícias, porque constantemente me pede as «últimas novidades». Mas parece-me claro que evita os comen­tários pessimistas, precisamente quando os acontecimentos justificam plenamente aquela frase com que se demarcou do nosso entusiasmo na manhã de 26 de Abril de 1974:
— Desculpem, mas não alinho…
Agora, agarra-se às últimas razões de esperança, com uma pertiná­cia e uma coragem que muitos rapazes novos já não sentem.
Vi-o de rosto crispado e pálido, quando do rebentamento da bomba no meu jornal. Mas limitou-se a dizer-me que devia ter cuidado.
— Claro que um homem deve saber enfrentar o perigo — ponderou ele com uma calma que era apenas força de vontade. — Mas precisas de pensar também naqueles que te estimam…
— Claro que penso, pai.
— Não julgues que me refiro principalmente a mim. Eu já sou o passado… Mas há o teu futuro: essa moça com quem vais casar.
— Nunca pensei que fosse uma coisa tão difícil. Ainda não consegui todos os papéis necessários para o casamento. Agora, nas repartições, gasta-se o tempo todo a discutir política…
— Tenho pena de te não poder ajudar. Mas os meus amigos já não valem nada. E eu estou na lista negra dos novos governantes.
— Se calhar, nem está… Os novos governantes também apreciam a honestidade… — E, a mudar de assunto, informei:
— Sabe que o pai da Mariluz está doente?
— Só agora mo dizes… Vamos vê-lo!
O sr. Calabriz já andava a pé, porque a mulher sabia tratá-lo. Recebeu-nos a Mariluz, que beijou meu pai com alegria repassada de carinho.
— Em maré de dificuldades — declarou meu pai, logo a seguir às apresentações — é bom que as famílias se juntem. E nós vamos ser família. Nem lhe pergunto pela saúde, porque já vejo que deu na doença um bom pontapé à Eusébio…
— Isso de Eusébio é favor, porque eu já não posso com uma gata pelo rabo — rectificou o dono da casa. — O que acontece é que, aos mosquitos que me mordem, sou eu que lhes pego o paludismo. Por isso já nem ligo a pïcadelas de anofeles. Há coisas que me preocupam muito mais… — E, voltando-se para mim, esclareceu:
— …Por exemplo, essa bomba no seu jornal.
— A bomba era de «espera, galego» — minimizei eu, afectando uma grande serenidade. — Não estragou nada de insubstituível.
— Mas representa um aviso muito sério — insistiu ele. — Vivemos as horas do diabo!… E esses papéis do casamento?
— Hei-de consegui-los, custe o que custar!
— Eu já acendi uma vela a Santo António — interveio a Mariluz com o seu bom sorriso.
— Pois é… — fez ambiguamente o meu futuro sogro.
9.2 — Última alternativa: fugir
A situação em Luanda agrava-se de dia para dia. Com os seus conhecidos apoios, as FAPLAS movem uma perseguição feroz contra os luandenses ligados (ou supostamente ligados) aos dois Movimentos ex­pulsos da cidade. Quando os não matam logo, sem perder tempo com for­malidades, levam-nos para a Praça de Touros, transformada em campo de concentração. Milicianos do Poder Popular violam mulheres em plena rua ou assaltam as moradias dos brancos, com o mesmo danado intuito. Numa vivenda do Alvalade, uma menina de 12 anos sucumbiu à brutalidade de nove estrupadores sucessivos. E uma cena idêntica sucedeu no Largo dos Lusíadas, à vista de toda a gente, junto da estátua que o povo crismou de Maria da Fonte.
Perante espectáculos tão infames, a tropa portuguesa, infestada de uma hedionda escumalha intencionalmente mandada pelos comunistas de Lisboa, mantém-se vergonhosamente apática, quando não descarada­mente colaborante.
         Em face de tudo isto, aos portugueses de Angola só resta uma alternativa: fugir. E, completamente abandonados pelo Governo da sua Pátria, sem a menor confiança no sucessor do general Silva Cardoso, dirigem-se, em grandes multidões, aos consulados estrangeiros, nomeada mente aos dos Estados Unidos, da França, da Alemanha Ocidental, da Bélgica e da África do Sul, pedindo aviões que os levem para longe desta cidade, agora transformada em velhacouto de ladrões, estrupadores e assassinos.
E, como diria o cronista Fernão Lopes, é coisa tristíssima de ver, na terra ainda portuguesa de Angola, a lamentável procissão destas afli­tas gentes de todas as raças, suplicando a estrangeiros o auxílio que lhes é negado pelo Governo de Lisboa, totalmente absorvido na mise­rável tarefa de continuar a destruir os restos de uma nobre e antiga nação.
As palavras que proferem não podem deixar de exprimir a sua enorme raiva e o seu profundo desespero.
— Esses tipos que agora governam em Lisboa são todos uns filhos da puta! — berra um camionista moreno, de olhos ardentes como tições.
— Temos agora um Governo de bandalhos sem ponta de vergonha! — reforça o dono de um dos melhores prédios da Avenida Marginal, que já se sente reduzido à miséria.
— Não haverá quem castigue os responsáveis por toda esta des­graça? — clama uma vendedeira de peixe do Mercado dos Lusíadas, que já abandonou a sua banca, porque não há peixe para vender.
— Esse malvado Rosa Coutinho está cá outra vez? — pergunta um construtor civil, que tem todas as suas obras paradas.
— Tu para onde vais, Zé Manuel?
— Sei lá… Para longe deste inferno!
— Quando vai acabar a confusão? — perguntam ansiosamente muitos pretos.
Tudo isto e muito mais, com as palavras mais expressivas e as pragas mais contundentes do rico vocabulário português, chega até aos ouvidos do corpo diplomático acreditado em Luanda, ainda na vigência da soberania portuguesa. No julgamento dos representantes das nações civilizadas da Europa e da América, durante estes dias trágicos de Setem­bro de 1975, os actuais detentores do poder em Lisboa e os seus dele­gados em Luanda devem ter descido abaixo da última cotação possível para seres humanos, porque a sua abjecção atingiu requintes inconcebí­veis. Com um louco grotesco num cargo que foi exercido pelo dr. Salazar, com um Chefe de Estado eleito por três votos (incluindo o seu), com um altocomissário em Luanda, escolhido pêlos comunistas de entre os músicos do famigerado «quinteto de cordas», com o destino da sua maior província africana a ser decidido em Cuba e Moscovo — é o próprio destino de Portugal que se afunda vergonhosamente no lodo e na merda.
Nunca um país, mesmo sob a pata dos invasores, foi tão profundamente humilhado e se comportou com tanta indignidade e cobardia. Uma antiga e nobre nação, que soube realizar sozinha um dos mais bri­lhantes capítulos da História Universal, e ainda há menos de dois anos constituía um exemplo de coragem e determinação, torna-se de repente um motivo de lástima ou de escárneo para todo o mundo civilizado, mere­cendo amplamente e qualificativo de «manicómio em auto-gestão».
Como poderiam os bons portugueses de Angola escolher palavras moderadas para exprimir a sua raiva e o seu desespero?…
Na verdade, durante essas concentrações de muitos milhares de portugueses, vendidos ao comunismo internacional pela mais ignóbil quadrilha de traidores que ainda houve em Portugal, ouvem-se acusações terríveis. Por exemplo, a um dos mais antigos alfaiates da cidade, um danado tripeiro que há mais de quarenta anos trabalha, com alguns pretos do mesmo ofício, num pequeno apartamento bem próximo da redacção do meu jornal, ouvi eu dizer, para um dos seus habituais fregueses, que «os safardanas da descolonização contavam com a chacina de todos os brancos de Angola».
— Homem — protestou o outro —, não será tanto assim…
— É assim mesmo! — teimou o alfaiate. — Você não leu essa carta do Almirante Vermelho (mil diabos o levem!), a aconselhar o Agostinho Neto a matar os brancos, sobretudo mulheres e crianças, porque só assim os malvados colonialistas se iriam embora?
— E será autêntica essa carta?
— Está lá, bem clara, a assinatura do malandro, sobre o papel timbrado do Governo Geral de Angola!
— Custa a acreditar…
— Pois a mim não me custa nada. Tudo é possível, nessa canalha que nos vendeu. E ainda há coisas piores. Contaram-me que um dos grandes políticos de agora afirmou no Brasil que os portugueses de Angola são para atirar aos tubarões…
Trazem o povo enganado sobre toda esta desgraça a que chamam «descolonizarão exemplar» e não lhes interessa nada que nós regresse­mos para contar a verdade…
— E conseguiremos regressar?…
— Espero que sim. Não ouviste o que disse o cônsul dos Estados Unidos?…
O cônsul geral dos Estados Unidos, visivelmente impressionado pela aflição de tanta gente, assegurou que o seu Governo começaria ime­diatamente a enviar aviões. E o mesmo prometeram os cônsules da França, da Alemanha Ocidental e daÁfrica do Sul. Um grande movimento de solidariedade internacional intervinha para salvar a vida de quase um milhão de portugueses.
Se tal estava, ou não, nas intenções dos que planearam e realizaram a entrega de Angola ao Comunismo Soviético, só o poderemos saber quando todos esses criminosos forem expulsos dos cadeirões do poder. Por agora, o certo é que aos russos convém esvaziar o território dos «quadros» portugueses, porque o processo mais fácil de assumir o poder efectivo no novo país soberano é substituir os portugueses nos seus cargos, nas suas empresas, nas suas casas e nos seus bens.
Meu pai, a quem acabo de falar neste assunto, contando-lhe o que há horas ouvi ao alfaiate, puxou os óculos para a testa, esfregou os olhos cansados e declarou judiciosamente que o desespero quase sempre conduz a injustiças e a exageros.
— E nota que eu não vou desculpar os responsáveis por esta imensa tragédia — acrescentou com certa brusquidão. — Esses hão-de ficar amarrados, para sempre, ao crime mais infame que se praticou em toda a nossa história…
— Volta a ser muito duro, pai…
— Duros e cruéis são os factos, que até com os olhos fechados nos causam um indizível horror. O procedimento de Lisboa, no caso de Angola, já não pode ter atenuantes de política ou ideologia. Repito que é um crime: um crime hediondo, repugnante, imperdoável…
Calou-se, passou de novo a mão direita pelos olhos, como que para afastar uma visão de inferno, e recomeçou mais sereno:
— Bem: voltando ao assunto, julgo que não é preciso pensar em sinistros planos de um premeditado extermínio dos portugueses de Angola. Além de tudo o mais porque — acredita, meu rapaz — eles ainda nos têm medo… De resto, o objectivo de abrir vagas para os russos e cubanos — que eu aceito seja uma das determinantes de toda esta des­graça — também pode ser conseguido com a debandada que já começou. E repara que as próprias autoridades portuguesas (ou isso que para aí se exibe com esse nome) declararam que não podem garantir a segurança de ninguém que aqui permaneça para além do dia da independência. Não parece um incitamento à fuga?
— Certo! — concordei. — Mas se este êxodo bastará para os desí­gnios de Moscovo, que nos quer substituir em Angola, para o conjunto dos responsáveis pela descolonização, o regresso de centenas de milha­res das suas vítimas constitui certamente um risco muito sério.
— E acreditas, por isso, que eles tenham jogado numa chacina geral dos brancos?
— Já não sei no que deva acreditar. Só sei que fizeram tudo para excitar o racismo negro. Não houve nome feio que não chamassem aos brancos na imprensa, na rádio e na televisão. E também sei que só a morte cala definitivamente a voz das testemunhas incómodas. Por isso me impressionaram tanto as palavras daquele alfaiate, que até me lem­brou o Fernão Vasques da História.
— Pode acontecer que ainda apareça um novo Fernão Vasques — insinuou meu pai sibilinamente. — Mas, entretanto, vamos agora aos factos: qual é, neste momento, a perspectiva de Angola?
— Pretende que lhe faça o ponto da situação?
— Exactamente. Já perdi o fio à meada, porque o teu jornal há três dias que não sai…
— E quando voltar a sair, já não será o mesmo. Passa a ser contro­lado por uma comissão da UNTA H, reforçada por um delegado do Comité Político do MPLA. E não tem saído por falta de papel. Ainda há bastante nos nossos armazéns do Bairro da Cuca. Mas as FAPLAS cercaram a zona e não deixam transitar os civis para além da passagem de nível do Caminho de Ferro de Malange.
— Entendido. E que sabeis vós, no jornal?
— Consta que os homens da UNITA, com o apoio da África do Sul, estão a chegar à Barragem de Cambambe. E a tropa de Holden Roberto, que integra alguns antigos oficiais do Exército Português, já retomou o Caxito e vem novamente a caminho de Quinfangondo, com o objectivo de ocupar a Estação de Captação de Agua, no Rio Bengo. Diz-se que o cerco a Luanda se fechará em breve e que a cidade poderá ser bombar­deada pela artilharia pesada. Mas um elemento da FNLA, que conseguiu entrar na nossa redacção exibindo um emblema do MPLA, garantiu-nos que Holden Roberto poupará as principais zonas residenciais, nomeada­mente as da Baixa, do Aeroporto e do Palácio do Governo. Prevê-se a ocupação das estradas que dão acesso à capital de Angola, para lhe cortar os abastecimentos, mandando então um ultimato a Agostinho Neto. Se ele se não render, cortarão a água e a energia eléctrica antes do assalto decisivo.
— Bonita perspectiva! — concluiu meu pai. — E nós, que vamos fazer?
— Continuo a lutar pela obtenção dos documentos para o casamento. Mas, entretanto, também já estou a tratar das nossas passagens. E quando digo «nossas» incluo as da Mariluz e família. Em último caso, peço ao padre Freitas que nos case com os documentos que tivermos e regula­rizaremos depois o problema civil em Lisboa. Eu ainda não desanimei, pai! — Nem deves desanimar — disse ele, forçando um sorriso de esperança e compreensão. — Mas eu ainda não te disse que queria regressar a Lisboa…
— Ter a passagem garantida não prejudica nada…
9.3 — No Aeroporto de Luanda
Setembro aproxima-se do fim.
Como ainda se não sabe quando voltará a sair o jornal, passei toda esta tarde no Aeroporto.
A bela aerogare, donde já retiraram a placa comemorativa da inau­guração pelo marechal Craveiro Lopes, e grande parte da zona exterior voltada para as placas de estacionamento estão transformadas em acam­pamento de fugitivos, sob a protecção dos «comandos» e dos pára-quedistas. É um espectáculo confrangedor. Milhares de pessoas aguardam pacientemente os aviões da ponte aérea. Famílias inteiras, com crianças de todas as idades, ali vivem desde há dias, dormindo ao relento e alimen­tando-se de frutas e conservas. Há meninos que choram com fome, enquanto outros guardam ciosamente os seus bens mais estimados: uma boneca vestida de minhota, um Tio Patinhas de plástico que até grasna se lhe apertarem a barriga, um cãozinho de que não quiseram separar-se.
Toda aquela gente parece apática, resignada, já esgotada em toda a sua capacidade de sofrimento, sem outra ambição que não seja a de sair de Luanda o mais depressa possível.
Trocam-se automóveis por alguns maços de cigarros. Entregam-se aos criados pretos as chaves de ricas vivendas. Dão-se dezenas de contos em dinheiro angolano por algumas notas de cem escudos do Banco de Portugal.
Há senhoras que lavam a roupa nos lavatórios das instalações sanitárias. Outras cozinham ao ar livre alguma sopa ainda possível. Paira no ar o odor de corpos, há muitos dias sem banho, nem mudança de roupa.
Os soldados portugueses, não obstante o aviltamento a que têm estado sujeitos durante os últimos tempos, recuperam aqui uma certa dignidade perante esta grande velada de indizíveis angústias, nos dias da vergonha. Humanizam-se no contacto com tamanha desgraça e tentam ajudar os mais famintos, repartindo com eles o seu rancho. Mas também eles pouco podem fazer.
Os aviões estão agora a chegar com maior frequência, porque os consulados estrangeiros cumprem exemplarmente as suas promessas. A ponte aérea atinge proporções gigantescas. Mas a turba dos fugitivos não cessa de crescer. E a cada avião que ruge, na pista de descolagem, em direcção ao mar, acentua-se o desespero dos que ficam.
Malditos sejam, para sempre, os responsáveis por esta imensa tragédia!!!
9.4 — «Gente muito infeliz»
Venho de falar com o comandante de um D.C. 10 da U.T.A. Disse-me que Giscard d’Estaing acompanha pessoalmente a comparticipação fran­cesa na ponte aérea e deu-me a ler a mensagem redigida pelo presidente da França e agora lida em todas estas humanitárias viagens dos aviões franceses.
«Este avião — lê-se nesse texto singelo e comovente — foi posto à vossa disposição pelas autoridades francesas, para facilitar o vosso regresso a Portugal. Esta decisão foi tomada como testemunho da amizade do povo francês para com o povo por­tuguês e como uma contribuição nossa para vos aju­dar a superar as vossas dificuldades neste período da vossa vida. O povo francês deseja-vos uma boa viagem».
Reparei que o autor do texto não incluirá nele qualquer referência ao Governo de Lisboa. Mas, julgando compreender tal omissão, não foi nela que falei ao simpático comandante da grande aeronave. Preferi pedir–Ihe a sua impressão sobre os refugiados.
— É gente muito infeliz — declarou com visível compaixão. — Quando o avião levanta voo, ficam a olhar a terra onde deixam tudo o que era seu. Parecem resignados. Ou talvez apenas exaustos. Mal o avião ganha altura sobre o Atlântico, muitos adormecem logo profunda­mente, libertos da tremenda tensão dos seus últimos dias nesta terra ensanguentada (2).
Assim regressam, por esmola de estrangeiros, os portugueses que foram os primeiros europeus a subir o rio Zaire e construíram em Angola a melhor infra-estrutura sócio-económica de toda a África Tropical.
(1)     União Nacional dos Trabalhadores de Angola, organização do MPLA.
(2)     Aproveitaram-se, para este episódio, como tudo o resto fiel à essência dos acontecimentos, alguns elementos da entrevista dada ao semanário «TEMPO» por Jacques Godfrain, das Relações Públicas da U.T.A., e publicada em 11 de Setembro de 1975.
O CERCO DE LUANDA
10.1 —«Espera pela tua vez, branco de tuge»!
Sabe-se que o triste espectáculo do Aeroporto de Luanda se repete no Aeroporto de Nova Lisboa, para onde convergem os portugueses de toda a zona de influência do Caminho de Ferro de Benguela.
Das áreas mais ao sul, entre Sá da Bandeira e Moçâmedes, os fugi­tivos viajam de automóvel, em direcção à África do Sul, ou arriscam-se em frágeis traineiras de pesca, na longa viagem marítima para Lisboa ou para o Brasil.
Há carros avariados que seguem a reboque durante muitas cente­nas de quilómetros. Quem já viajou nestas condições sabe como é. Acontece que, por vezes, o reboque é para a sepultura. E o velho mar–oceano traga mais alguns barcos lusíadas e ganha mais sal com novas lágrimas de Portugal…
Junto à fronteira com o Sudoeste Africano acumulam-se milhares de portugueses de todas as cores, aguardando as equipas sul-africanas de auxílio. E, na tensão da angustiada espera, também há oportunistas que fazem bons negócios, traficando em tudo, nomeadamente em automó­veis, que compram por truta e meia, para ir vender do lado de lá com lucros fabulosos. Nunca falta quem saiba explorar a desgraça alheia em proveito próprio…
Mas a aflição maior continua a ser em Luanda, cujo cerco se aperta de dia para dia.
As tropas da FNLA descem pelo Morro da Cal para a ponte sobre a lagoa de Panguila, agora sob o comando de um valoroso coronel dos «comandos», que pediu a demissão do Exército Português, convencido de que já se não pode contar com Lisboa para nada de bom.
Eu ando meio louco, na luta com este problema de arranjar passa­gens. Por agora, desisti de conseguir os documentos para o casamento, confiado no padre Freitas, que prometeu casar-nos quando quisermos, com a boa compreensão desse exemplo de missionários católicos, que é o arcebispo D. Manuel Nunes Gabriel. As passagens constituem agora o objectivo de máxima prioridade. E nunca pensei que chegaria a sofrer tantas humilhações!
Nas agências de viagens, já não encontro ninguém conhecido. Quem me tratava destes assuntos — um bom amigo que acumulava as funções de vice-cônsul da Suíça — foi-se embora para a sua bela terra dos relógios e do turismo. E àsecretária onde ele resolvia tudo depressa e bem, sempre com um dinamismo afável e eficiente, encontrei um negro fanfarrão, que me insultou soezmente:
— Espera pela tua vez, branco da tuge (a)! Se não sabes esperar que eu tenha avião para ti, vai a pé!
Não parti a cara daquele selvagem. Saí resignadamente e continuo a procurar quem me valha nesta aflição.
Já não sei o que hei-de dizer ao meu futuro sogro, que ontem sur­preendi a limpar cuidadosamente a sua Walter 7,5. Mas não posso pen­sar em ver a minha gente naquela balbúrdia do Aeroporto. Hoje mesmo, encontrei lá o Carlos Sanches, que era sempre tão aprimorado no vestir. Trazia uma camisa bastante suja e exibia o ar sucumbido de quem anda a pensar no suicídio.
— Quando embarcas? — perguntei-lhe para o despertar daquele seu estranho alheamento.
— Sei lá! Quando Deus quiser e o diabo deixar. Mas daqui só saio para Lisboa ou para o cemitério… Tens um cigarro que me dês?
Estendi-lhe um AC, acendi-lho com deferência e ele pôs-se a fumar com sofreguidão.
— Estás assim tão abatido, Carlos?
— Como queres que esteja?
— Ainda  continuamos  vivos…
— Vivos para quê?! — disparou ele, cheio de raiva. — Nós /podíamos ter tomado conta de Angola. E seria bem melhor para brancos e negros. Mas deixámo-nos enganar estupidamente por uma corja de patifes. Agora, é aguentar!…
Calou-se a olhar para mim, sem que eu encontrasse uma palavra de ânimo para lhe dizer. Depois, baixou os olhos, acrescentando:
— Há seis dias que não posso tomar banho nem mudar de roupa. Devo cheirar bastante mal…
E afastou-se de mim, virando a cara, talvez para que eu lhe não visse as lágrimas…
10.2 — Gama Ribeiro é preso
Chegou agora a vez do Gama Ribeiro ser preso.
Com aquele bigode farfalhudo de traga-mouros, é um coração onde cabe toda a gente. E escondeu, na sua bela casa da Rua Luís de Camões, entre o Hotel Trópico e o Hotel Tivoli, dois militantes da FNLA, fugidos à feroz perseguição do Movimento vencedor.
A mulher dele — uma bonita moça da Gabela — foi esta manhã ao jornal contar-nos que dois agentes da DISA (b) o levaram, horas antes do nascer do sol.
Disse à pobre senhora que tentaria averiguar o que se passava e vi-a partir com os olhos rasos de lágrimas. Anda grávida do primeiro filho do casal…
Logo que ela saiu, fui ter com o delegado do MPLA, que ocupa agora o gabinete do director, onde ainda se pode ver o belo retrato de António Correia de Freitas, pintado a óleo por Rui Preto Pacheco.
— Que há? — rosnou o importante personagem, que nos trata a todos como se fôssemos cães sarnentos.
— Prenderam o Gama Ribeiro…
— Quem é esse gajo?
— É aquele de grande bigode, que faz a secção económica…
— Bem… e depois?
— É um homem casado e um bom redactor deste jornal. Nunca fez mal a ninguém…
— O MPLA não prende quem nunca fez mal a ninguém — atalhou bruscamente o delegado. — É melhor teres cuidado com a língua, camarada!
— Eu não disse…
— Ouvi perfeitamente o que tu disseste!
— Mas…
— Acabou-se a conversa, camarada! Ou queres que te mande pren­der também a ti?…
E foi tudo o que obtive na minha tentativa de intervenção a favor de um bom companheiro de trabalho.
10.3 — Os sul-afrícanos atacam
De repente, rebentou a notícia de que os sul-africanos atravessaram a fronteira-sul e já estão às portas de Moçâmedes. Com carros de combate e sofisticados meios bélicos, avançam irresistivelmente em duas colunas, uma ao longo do litoral e a outra em direcção ao planalto da Huíla.
Ao fim da tarde, o Santos Gouveia acompanhou-me a casa. E só depois de fechados no pequeno living, na presença de meu pai, en­quanto a tia Isaura lidava na cozinha, é que eu soube o motivo por que me acompanhou.
— Tenho notícias do nosso director — anunciou com cara de quem espera alvíssaras.
— Despeja o saco! — pedi, interessadíssimo.
— Vieram por um construtor civil, agora residente em Joanesburgo, que passou esta manhã pelo Aeroporto, num avião da VARIG. O nosso director aconselha-nos coragem, porque as coisas vão sofrer uma grande mudança…
— Como? — quis saber meu pai.
— A entrada dos sul-africanos é combinada com a UN1TA e com a FIMLA. Esperam reconquistar rapidamente todos os portos do Sul e avan­çar até Luanda, antes da independência, para fechar o cerco à cidade, pela estrada da Barra do Quanza.
— Esperam… — repisei com cepticismo. — Também nós temos esperado muita coisa e acontece exactamente o contrário.
— Os  sul-africanos  não têm  traidores nas suas Forças Armadas
— lembrou o Santos Gouveia, aceitando o uísque que meu pai lhe oferecia.
— Enviaram uma força militar muito convincente e há mesmo quem diga que já entraram em Moçâmedes…
— E a reacção internacional? — insinuou meu pai. — Na ONU e em todo o grupo afro-asiático, vai erguer-se um berreiro tremendo contra a «agressão sul-africana».
— As palavras não param as balas — sentenciou o nosso visitante.
—E, segundo o mesmo informador, esta operação tem o apoio secreto dos Estados Unidos.
— Fico ainda mais desconfiado — declarei eu. — Os norte-americanos quase sempre têm falhado nas ajudas que prometem. E os russos também não vão ficar quietos.
— Começam os grandes corvos a pairar sobre esta desgraçada terra — anunciou gravemente meu pai.
Mas o Santos Gouveia insurgiu-se contra o nosso pessimismo:
— Não é preciso dramatizar até esse ponto, caramba! Desde há muito que se esperava uma atitude da África do Sul, que já a devia ter tomado em 7 de Setembro, em relação a Moçambique. Agora decidiram-se e não são bebés que brinquem aos soldadinhos de chumbo. O MPLA não terá outro remédio senão render-se!
— A ver vamos… — fez meu pai, reticente.
O tempo vai decorrendo com uma lentidão exasperante, para esta pobre população, ansiosa por sair da tensão insuportável dos dias que precedem a independência, em que os boatos são a única coisa que abunda na capital de Angola.
A ponte aérea ganha um ritmo que ainda há um mês ninguém podia prever. Ë mais uma debandada, na história triste das independências africanas, pré-fabricadas na ONU.
Entretanto, o avanço dos sul-africanos é fulminante e parece imparável. Retomaram sucessivamente Moçâmedes, Sá da Bandeira, Lobito e Benguela; e marcham sobre Novo Redondo e Porto Amboim. Não repou­sam. Entregam à UN1TA as áreas limpas de FAPLAS e prosseguem para o Norte.
Os bisonhos soldados de Agostinho Neto, alguns com menos de quinze anos, fogem espavoridos desses grandes soldados brancos, que trazem armas terríveis.
Entretanto, começam a chegar a Luanda grandes carregamentos de material de guerra, enviado pêlos russos.
Que vai acontecer a esta bela cidade?…
10.4 — Luanda está cercada
Nas vésperas da independência, Luanda está cercada.
Com os sul-africanos bem perto da Barra do Cuanza, a UNITA nas vizinhanças de Cambambe e a FNLA no Cacuaco, o MPLA vê-se confinado na área da capital de Angola, prolongada por uma estreita faixa ao longo do Caminho de Ferro de Malange.
Totalmente dominado pêlos comunistas que fazem o jogo de Mos­covo, o Governo de Lisboa suspendeu os Acordos do Alvor. Mas, por mais que assim o deseje, não pode entregar a maior província de Portugal a um movimento que não controla mais que uma ínfima parte do vasto território.
Para o dia da independência espera-se o pior. Diz-se que as Forças Militares Portuguesas embarcarão antes da meia noite de 11 de Novembro e que Holden Roberto só -espera por isso para iniciar o bombardeamento da cidade.
Surgem nas ruas os primeiros tanques russos e os primeiros sol­dados cubanos. Toda a gente os vê… menos o comandante Leonel Cardoso, a quem ainda compete o exercício da soberania de Portugal em Angola.
Entretanto, as milícias do Poder Popular, a quem prometeram as casas, os automóveis e as mulheres dos brancos, intensificam a violência, a pilhagem e o massacre. Há, sobretudo, uma tremenda vaga de luxúria em toda a parte. Praticam-se diariamente, à luz do dia, em plena rua ou dentro das moradias, centenas de estupros e desfloramentos, que não poupam ninguém, desde as crianças de poucos anos até às velhas septuagenárias.
Mataram a minha esperança de uma independência concreta para esta Angola a que tanto quero. Estão a estrangular o meu belo ideal de um País próspero para todos os bons angolanos, sem discriminação de raça ou condição social. Morre, antes de nascer, esta nova Pátria que tinha todas as condições para ser um dos mais ricos e progressivos estados soberanos do Continente Africano. Salazar e Marcelo Caetano tinham razão…
Em poucas semanas, passei da esperança ao desespero. Toda a minha coragem se esvaiu como o ar de um balão rebentado. Já não tenho outra ambição senão fugir desta caverna de ódio, com todos os que me são queridos, o mais depressa possível.
(a)     Merda, em Quimbundo.
(b)   A polícia política do MPLA.
PIOR QUE A MORTE
11.1 — Uma passagem para Lisboa…
Corri repetidas vezes a longa via-sacra das agências de viagens. Em todas recebo agora o mesmo conselho:
— Vá imediatamente para o Aeroporto e aguarde lá a primeira opor­tunidade de embarque. Já não há mais nada a fazer. Acredite que não há…
Em desespero de causa, e lembrado da cordialidade daquele coman­dante da U.T.A., que me deu a ler a mensagem do presidente Giscard d’Estang, fui hoje ao Consulado da França. Venho agora de lá.
Receberam-me muito bem e o encarregado das Relações Públicas, que fala correctamente o português, declarou-me com evidente sinceri­dade que compreendia perfeitamente a minha aflição.
— Mas há milhares de casos idênticos, ou ainda mais confrangedo­res — declarou. — E nós não temos qualquer interferência na ordem de embarque. Dizem-nos que este se processa segundo a cronologia da che­gada à aerogare, sob afiscalização de delegados especiais do alto comissário…
— Quer isso dizer que temos de ir quanto antes para o Aeroporto e aguardar na bicha vários dias?
— Foi o que nos informaram. Mas nem sequer sabemos se acon­tecerá sempre assim. É uma zona fora da nossa alçada. Aceitamos os passageiros que nos encaminham para os nossos aviões até aos limites extremos da capacidade de transporte. Mais nada!…
— E sabe como vive aquela pobre gente no Aeroporto, durante os dias de espera?
— Tenho passado noites sem dormir, depois de assistir a cenas que nunca mais esquecerei. Mas falou-me na sua noiva e em mais duas senhoras. Para elas, cá fora pode ser pior…
11.2 — Um velho que não quer partir
De volta a casa, deparei com uma dificuldade imprevista: meu pai não quer partir.
— Acho que o homem do Consulado Francês está cheio de razão
— disse ele. — Vocês devem ir já para o Aeroporto…
— Nós devemos ir já para o Aeroporto — rectifiquei sem demora.
— Eu fico — declarou como se afirmasse a coisa mais natural deste mundo.
— Luanda talvez venha a tornar-se inabítável — insinuei.
— Por enquanto ainda cá vive muita gente.
— Quer dizer que julga cobardes os que partem?
— Longe disso. Considero que são sensatos. E as mulheres brancas portuguesas, essas têm obrigação moral de fugir da canalha que anda à solta nesta cidade. Eu fico apenas por um motivo: vivo nesta terra desde que me conheço e jáestou velho demais para aventuras de emigração.
— Isso não o vacina contra o perigo…
— Que perigo?! — fez ele com certa amargura. — A quem interessa matar um velho como eu?
— Mataram ontem, em plena Avenida Marginal, o Cruz Salvarinho, que já passava dos setenta anos e gastou a vida inteira a ajudar toda a gente…
— Não insistas, meu filho! — decidiu meu pai em jeito de sentença sem apelação. — Tu, a tua tia, a tua noiva e os teus futuros sogros devem ir ainda hoje para o Aeroporto…
— E o pai fica sozinho?
— Fico com as vossas boas recordações. E não te aflijas que não vou morrer de fome. Conheço os cantos da casa e até me ajeito bem a cozinhar uns petiscos…
— Não brinque comigo, pai! — disparei, de repente, com uma certa irritação. — Não pode considerar-me capaz de o deixar sozinho, em vés­peras do que pode ser um banho de sangue em Luanda.
— Menos podes tu mandar na minha vontade.
— Nem pretendo mandar. Mas tenho uma contra-proposta a fazer: vamos pôr as mulheres a salvo e ficamos nós. O pai Calabriz acompanhá-las e eu me encarregarei de lhes enviar tudo o que for possível, de barco ou de avião.
— Entendo que tu também deves partir, até para regularizar a parte civil do teu casamento, em Lisboa.
— Desde que estejamos casados pela Igreja, o oficial do registo civil pode esperar. Só tenho um receio…
— Qual?
— E se a tia Isaura não quiser embarcar sem nós?
— Bem capaz disso é ela — concordou meu pai. E, num tom reso­luto, acrescentou:
— Mas ainda sou eu quem manda nesta casa. Vamos falar ao sr. Calabriz!
11.3 — Em casa da Mariluz
Estava toda a gente em casa, mais uma visita: o sr. padre Freitas.
— Ainda bem que o encontro aqui — disse-lhe eu, logo após os cumprimentos. — Quando é que o Senhor Padre nos pode casar?
— Quando quiserem. Nestas circunstâncias, o sr. arcebispo já me disse que dispensa todas as formalidades, uma vez que eu, que os conheço bem a ambos, lhe garanto que não há impedimentos dirimentes. Já conseguiu as passagens para Lisboa?
— Não — respondi eu. — E é mesmo por isso que estamos aqui. Vínhamos dizer ao sr. Calabriz que não existe qualquer possibilidade de seguir para Lisboa sem ser integrado na Ponte Aérea. E, para tanto, é indispensável ir para o Aeroporto, enquanto é tempo, e aguardar lá a nossa vez…
— Nesse caso, vamos! — concordou o dono da casa. — Aqui já se não pode viver. Para além de tudo o mais, há essa malandragem que assalta as casas em pleno dia, para roubar, para matar…
— E para pior… — acrescentou o sr. padre Freitas.
— Pois é desse «pior» que eu tenho mais medo — declarou meu futuro sogro. — Vamos embora para o Aeroporto! Formamos o nosso grupinho, acampamos em qualquer canto e aguardamos…
— Eu e meu pai ficamos.
— Tu ficas?! — reagiu logo a Mariluz.
Menti, explicando que ficava apenas mais uns dias, por exigência do jornal.
— Tenho de fazer a reportagem da independência — balbuciei com um risinho difícil.
— O teu jornal nem sequer está a sair — argumentou a Mariluz.
— Vai sair em 11 de Novembro, todo remodelado e até com um nome diferente…
— Bem — interveio o pai Calabriz, esfregando freneticamente o lóbulo da orelha direita — e o sr. (disse o nome de meu pai, que não escrevo porque já disse que não quero identificar-me neste livro), o senhor também fica para escrever alguma reportagem?…
— Eu fico porque não sei viver fora de Angola — declarou meu pai rudemente. — E meu filho não me quer deixar sozinho. Se o conven­cerem a ir também, fazem-me um grande favor.
— Pronto! — concluiu o pai Calabriz. — Está o meu futuro genro vergonhosamente apanhado em mentira. Mas eu compreendo a boa inten­ção… eu compreendo… Bem! Vamos lá definir a situação em termos de gente! O mais importante épôr as senhoras longe destes bêbedos e drogados, que são agora os donos de Luanda, por obra e graça da cobar­dia dos capitãezinhos de Abril. Feito isso, a minha opinião é muito clara: somos três homens neste grupo; ou vamos todos ou não vai ninguém!
— Se você põe a questão nestes termos — disse meu pai — está a atirar uma terrível responsabilidade para cima de mim, na hipótese de lhes acontecer algo de mau em Luanda. E, ainda por cima, não está a ser razoável. Convém que alguém acompanhe as senhoras…
— Eu não saio daqui sem o meu marido — interveio a senhora dona Etelvina, que era este o nome da minha futura sogra.
— E eu também não embarco sem o meu noivo — acrescentou a Mariluz.
— Ambas têm carradas de razão — sentenciou meu pai. — Meu filho é que não tem um miligrama dela. Até esqueceu aquelas palavras da Bíblia: «deixarás teu pai e tua mãe…»
— Há que atender às circunstâncias — lembrei eu. — E as circuns­tâncias…
— As circunstâncias estão a criar nesta cidade um ambiente muito dramático — interrompeu o sr. padre Freitas que, até então, se conser­vara calado. — Embora não deva aumentar as vossas preocupações, posso informar que esta manhãforam desfloradas por uma turba de pretos dro­gados, as crianças que saíam de uma escola de primeiro ciclo. O Lar das Irmãs Beneditinas, na rua D. António Barroso, já fechou. Como a Mariluz informou, antes de os senhores chegarem, a Universidade suspendeu as aulas. Isto está cada vez pior para toda a gente. Mas, para as senhoras, as perspectivas são simplesmente horríveis. De momento, o lugar de Luanda mais seguro para elas é o aeroporto. Eu aconselharia a que fossem imediatamente para lá!
— Eu não vou sem o meu marido! — teimou a sr.a d. Etelvina.
— Eu não vou sem o meu noivo! — repetiu a Mariluz.
— E eu não posso deixar meu pai sozinho em Luanda numa ocasião destas — declarei eu, seguro da minha razão.
— Portanto, meu caro senhor — concluiu o sacerdote, dirigindo-se a meu pai —, está nas suas mãos a chave do problema. Até porque talvez também a sua irmã se recuse a deixá-lo sozinho em casa. Assume, pois, uma enorme responsabilidade. E porquê? Porque lhe custa deixar a terra de Angola? A quem não custará?… Meu caro senhor, desde há muito que o conheço e respeito, para não estranhar agora esta espécie de birra…
— Amar esta terra de Angola será uma birra? — defendeu-se meu pai, embora mais quebrado.
— Receio bem que esta Angola já não seja aquela que todos nós amamos — ponderou gravemente o padre Freitas. — Agora parece a pátria do ódio…
— Que vou eu fazer para Lisboa?!…
— Acompanhar a sua família, animar um novo casal nas dificuldades que certamente terá de enfrentar, aguardar o divino sorriso dos seus futuros netos. Não será bastante?…
Caiu entre nós um silêncio difícil. Meu pai permanecia de olhos no chão, com vincos duros no rosto cansado. Mas, finalmente, ergueu a cabeça e disse:
— Por mim, podemos ir para o aeroporto quando quiserem. E assim se decidiu que, no dia seguinte, logo a seguir ao almoço, iríamos todos para o aeroporto.
— Mas creio que há qualquer coisa muito importante, que deve ser feita antes — lembrou a Mariluz.
— Bem sei — fiz eu — o nosso casamento.
— O vosso casamento pode ser também amanhã — afirmou o padre Freitas. — Logo a seguir à missa das oito, na Igreja da Sagrada Família. Combinado?
Eu e a Mariluz fizemos apenas um gesto de assentimento.
11.4 — A cena hedionda
A família Calabriz começou logo a arranjar as malas, enquanto eu e meu pai regressávamos a casa, para fazer o mesmo.
Para todos nós — meu pai, minha tia e eu — havia muita tristeza nessa faina de seleccionar as coisas a levar connosco, ao deixar Angola talvez para sempre. Pela minha parte, sentia-me com mais coragem. Tínhamos tomado uma resolução. Mas que sentiria meu pai?
— Ao menos, não sofrerá o desgosto de ver arriar aqui a Bandeira Portuguesa… — insinuei com os cuidados de cirurgião que aproxima o bisturi de um ponto vital.
— A Bandeira Portuguesa? Caiu em mãos de traidores que a estão a encher de lama… Faz-me um favor, meu filho: não me fales agora em Pátria, Bandeira e coisas assim. Somos apenas gente que foge, para salvar a vida, não é verdade? E desde há muito que eu ouço dobrar a finados por uma Pátria que foi grande, corajosa e original…
— Quantos quilos de bagagem podemos levar no avião? — veio perguntar a tia Isaura. — Não poderíamos levar também alguns móveis?
— Creio bem que não, tia — respondi eu, apiedado da boa mulher, tão ciosa da sua casa. — De resto, não haveria tempo…
— Vê se não te esqueces do meu velho sobretudo — pediu meu pai. — Vai fazer falta no frio da Metrópole.
— Para já — fiz eu contra a melancolia daquela cena — parece que, em Lisboa, estão a alojar os refugiados em bons hotéis…
— Para já… — repetiu meu pai — e depois?…
         — Depois, não vamos morrer de fome. Ainda sabemos trabalhar… Mas foi precisamente neste momento que o Santos Gouveia nos entrou pela porta dentro, com um ar de alucinado:
— Anda daí, pá! Vem depressa, que estão a assaltar as casas do bairro onde mora a tua noiva!
Saí de roldão, sem querer ouvir mais nada. Corremos ambos, rua adiante, metemo-nos no primeiro táxi que encontrámos livre e mandámo-lo seguir para o Miramar.
— O mais depressa que possa! — pedi, numa tremenda ansiedade.
À porta da vivenda da família Calabriz, estacionava um jipe militar com um soldado ao volante. E, já dentro do jardim, alguns pretos arma­dos soltavam gargalhadas de grossa malícia, por entre comentários de uma obscenidade primitiva.
— Pronto! — dizia um deles, exibindo a pistola-metralhadora com a sua vaidade de garoto de quinze anos. — A porta já foi dentro. Agora também vão dentro os tampos daquela branca bonita. E, a seguir aos camaradas oficiais, nós também vai gozar…
A frase horrível queimou-me todo por dentro, como se me entrasse pela boca, moldada em ferro em brasa. Ultrapassei o Santos Gouveia, furei através dos pretos e, em dois saltos rápidos, já estava no livíng tão meu conhecido, a olhar, pasmado, para aquela cena hedionda…
Caídos para debaixo da mesa das refeições, jaziam os cadáveres do pai Calabriz e de sua mulher, com o sangue ainda a borbulhar dos buracos de bala na testa. E sobre o tapete da sala, donde tinham afastado a mesa redonda, dois militares fardados de camuflado seguravam rija­mente, um de cada lado, a Mariluz, abrindo-lhe amplamente os braços e as pernas. Seguravam-na assim, em posição de poder ser comodamente violada, apenas por medida cautelar, já que a moça, com os olhos fecha­dos e as faces pálidas todas molhadas de lágrimas, parecia desfalecida.
Sobre ela, um negro enorme, completamente nu, com uma espuma lúbrica a ressumar dos beiços grossos, acelerava brutalmente a sua cópula unilateral de selvagem, urrando que havia de chegar até à quinta vez. E, já ele estrebuchava nos paroxismos do espasmo, relinchando de prazer, quando eu lhe atei as mãos ao pescoço e apertei com a raiva toda.
Mas um dos camaradas que se tinha aproximado por trás de mim, brandiu-me terrível coronhada na cabeça e desmaiei…
Quando recobrei os sentidos, senti que me davam uma injecção e adormeci profundamente, num sono que ainda não sei quanto tempo durou. Só sei que acordei no Aeroporto de Luanda, deitado num colchão de vento, desses que se usamnas praias.
Abri os olhos e vi que o dr. Baptista, velho médico da família, me contava atentamente as pulsações. E, do outro lado, o vulto curvado, as mãos nervosas, os olhos inquietos de meu pai…
Decorreu talvez todo um longo minuto, antes que eu me aperce­besse da realidade envolvente. Depois surgiu no meu espírito o quadro horrível daquela imunda violação. E soltei um grito estrangulado, em forma de pergunta:
— A Mariluz?
E reparei (só então…) que também estava o Santos Gouveia e era ele quem respondia:
— Fizeram daquele corpo virgem um campo de competição sexual — contou ele. — Quando os três militares que tu viste ficaram completa­mente esgotados, chamaram os camaradas que aguardavam no jardim. E a orgia continuou numa incrível sucessão de crueldades e depravações. Sujeitaram a pobre moça a sevícias indescritíveis. Houve um que lhe arrancou o bico de um seio à dentada…
— Não podes poupar-me a esses pormenores?! — berrei para ele, numa indizível angústia.
— Desculpa! — fez ele, compreendendo. —Também ando atordoado.
Já nem sei o que faço…                                                                                   ,
— E como soubeste isso tudo que contaste?
— Obrigaram-me a assistir, amarrado e amordaçado. Nunca imaginei que houvesse homens tão depravados…
— Onde está agora a Mariluz? — atalhei com impaciência.
— No cemitério do Alto das Cruzes, sepultada ao pé de seus pais.
— No cemitério?!
— Exactamente — confirmou o Santos Gouveia. — Naquela tarde maldita, o último soldado que a possuiu já violou um cadáver. E foi melhor para ela…
— Porque dizes isso?! — bradei com a voz de quem insulta um inimigo.
— Ele tem razão, meu filho — interveio meu pai, quebrando o seu doloroso silêncio. — Como poderia viver a Mariluz, depois de tudo aquilo, talvez grávida de algum dos assassinos de seus pais?…
— Casava comigo! — sentenciei em definitivo.
— Bem sei que tu continuarias disposto a casar com ela — con­cordou meu pai. — Mas ela é que já não consentiria em ser tua mulher. Talvez caísse na tentação do suicídio; talvez se finasse de puro desgosto ou decidisse entrar para um convento. Mas ou eu não cheguei a conhe­cê-la bem, ou havia de se considerar para sempre aviltada, profanada, indigna de ser tua mulher… Duvidas?
— Sei lá, pai! Sei lá…
E, voltando-me para o dr. Baptista, pedi humildemente:
— Dê-me qualquer coisa para dormir, senhor doutor…
11.5 — A procura de nada…
Não me lembro de mais nada daquela hora do reencontro com a minha incrível tragédia.
Vagueio agora pelas ruas e praças de Lisboa, desempregado, pre-cocemente envelhecido, apático, inútil.
Comecei a escrever este livro num dealbar de esperança, com a firme intenção de contar imparcialmente os actos preliminares da inde­pendência de uma terra amada e declarando ser apenas um homem.
Mas toda a minha esperança morreu, os factos constituiram-se em brutais desmentidos das belas palavras, todas as raízes da minha vida secaram. Que faço eu neste mundo? Ainda serei ao menos um Homem?…
O Santos Gouveia, que arranjou emprego no Diário de Notícias, veio ver-me há dias e trouxe-me alguns apontamentos sobre casos com que deparou, nesta jangada de náufragos, que é agora aquilo que foi a Metrópole de uma grande Nação. Insistiu em que os aproveitasse para uma série de narrativas literárias de episódios da grande tragédia.
O Santos Gouveia deve estar mais louco do que eu, visto que ainda me considera capaz de escrever seja o que for com justo título literário, eu que já não consigo ir além destas lamentações piegas e chatas…
Vou sair de novo, à procura de nada…  Mas o pai e a tia Isaura que não se aflijam, se eu tardar bastante a voltar. Coisa ruim não tem perigo. E ainda que me deitasse da ponte do Tejo abaixo, era capaz de não me saber afogar. Nem há automóvel que me atropele. E é pena…
11.6 — Adeus, Angola!
Esta noite não consegui adormecer.
Com os olhos fechados, eu via constantemente, em imagens de uma nitidez cruel, a cena tristíssima do arriar da Bandeira de Portugal, no Palácio dos Governadores Gerais, em Luanda. E pensava em meu pai… Meu pai, que me trata como se eu tivesse voltado a ser o seu menino pequenino… Tudo agora é pequenino, nesta capital de um império abandonado…
Amanhece o dia 11 de Novembro de 1975. Vou optar pela nacionalidade Portuguesa.
Adeus, Angola!…
Lisboa, Novembro de 1975
JANGADA DE NÁUFRAGOS
(Segundo os apontamentos de Santos Gouveia)
Após a descolonizarão dita exemplar, neste pe­queno País a que estamos irreversivelmente reduzidos, neste rosto da Europa como o sonhou o génio de Fernando Pessoa, e que efectivamente alongou seus olhos por toda a redondeza do mundo mas agora já mal avista a Madeira e os Açores —, vagueiam cen­tenas de milhares de portugueses regressados do Ultramar.
Vagueiam como fantasmas ainda bem capazes de assustar algumas crianças grandes que jogaram ao berlinde as terras e as gentes que foram o Ultramar Português. Eles são as figuras ainda vivas das últimas páginas da nossa História Trágico-Marítima. São a con­denação inapelável dos que deitaram pela janela fora, sem olhar como nem a quem, a herança de muitas gerações. E porque entre eles há brancos, pretos e mestiços, ao aceitá-los a todos como portugueses que todos são, a si próprios se contradizem aqueles queimpugnaram, como utópica e mentirosa, a formosa ideia da Nação multirracial.
Com a sua miséria, a sua raiva e o seu desespero, tudo somado ao contínuo vociferar de comícios e ple­nários, greves e reivindicações, já este pequeno rec­tângulo europeu parece transformado numa jangada de náufragos.
Esta é a explicação do título geral escolhido para as singelas narrativas em que tentarei contar episódios que vi com os meus próprios olhos ou ouvi da boca dos seus principais protagonistas.
12.1 —Mãe e Filha
No comboio da linha de Cascais, que acabava de partir do Cais do Sodré, sentou-se à minha frente uma senhora de meia idade, preta retinta, com uma garota que lhe copiava o essencial das feições, com pele bastante mais clara, quase de uma algarvia morena.
A mulher tinha esse ar de esmerado asseio, que é frequente nos pretos civilizados. Mas a pobreza gritava em cada centímetro do vestido passajado e nos seus olhos havia uma dor profunda, misturada a uma humilde resignação.
*
De vez em quando mirava a filha (era certamente sua filha) e esboçava uma tentativa de sorriso mal conseguido. A seguir a um desses olhares, jogou uma pergunta escusada:
— Estás com fome, Nelinha?
— Não — balbuciou a criança.
Mas a mãe não acreditou (nem era de acreditar, porque os olhos da menina contradiziam a envergonhada negativa). Tirou da carteira de plástico um saquinho de amendoim e passou-o às mãos da filha.
— Toma! Mas não deites as cascas para o chão: guarda-as no saco.
A mocinha aceitou e começou logo a comer, ainda com certo jeito envergonhado, que depressa foi vencido pela euforia do apetite satisfeito. E agora a mãe chegou mesmo a sorrir, com aquele enternecido sorriso de todas as mães pobres, quando podem acalmar a fome dos filhos.
Exilado nesta grande Lisboa, com uma enorme saudade da terra em que vivi o melhor tempo da minha vida, não pude resistir à tentação de confirmar a minha suspeita:
— Vieram de Angola?
— Viemos, sim senhor — respondeu a mulher depois de alguma surpresa e segundos de hesitação. — Viemos de Luanda.
— Vivi e trabalhei lá durante quarenta anos.
— Ah! — fez ela mais confiada — Também teve de fugir?
— Vim de férias. Mas, agora, aconselham-me a não voltar, ao menos por enquanto…
— Há muita confusão — recordou ela com uma luz de medo nos olhos tristes. — Eu tive de fugir só com a roupa que trazia vestida. E não sei do marido nem do meu filho mais velho…
— Mas sabe que estão vivos?
— Não sei nada. Um dia, ao voltar do Liceu Salvador Correia, encon­trei a casa roubada de quanto tínhamos e os vizinhos disseram-me que fugisse, porque tinham levado o meu marido e talvez me quisessem levar também a mim. Meu marido era 2.° oficial de Fazenda…
— E o seu filho?
— Esse já tinha desaparecido uns dias antes, mas eu ainda esperava que voltasse. Coitado do meu Pedro! Teimou em inscrever-se na FNLA e as FAPLAS sabiam…
Caiu entre nós um silêncio incómodo. No meu íntimo, admirei a perfeição com que aquela pobre negra de Angola falava a língua de Camões. O comboio tinha parado em Algés. E só depois que arrancou de novo, lancei eu uma nova pergunta:
— E agora?
— Agora estou à espera…
— À espera de quê?
— De que o futuro se me torne mais claro. Já me inscrevi no IARN. Dão-me casa e comida…
— Já não é mau.
— É pelo menos triste. Para quem sabe trabalhar, custa muito viver de esmolas. E custa ainda mais nada saber do marido, nem do filho, nem do que será o futuro…
Com a boa intenção de a afastar daquelas ideias amargas, pergun­tei o que fazia ela no Liceu Salvador Correia, em Luanda.
— Ensinava — disse. E, timidamente, descendo um olhar envergo­nhado para o seu vestido de outro corpo e para a sua velha carteira de fecho estragado, acrescentou:
— Sou  licenciada  em Germânicas pela Universidade de
Coimbra.
Lisboa, Outubro de 1975
12.2 — O  Senhor Desepero
Era um homem culto, dinâmico e entusiasta.
Deram-lhe,  para   governar,   um   dos   mais   atrasados
 distritos  de Angola, prejudicado pelo seu afastamento de Luanda, ainda vazio de estra­das asfaltadas, despovoado pelo êxodo de 1961.
Saudoso da filha única, que estudava na Universidade de Coimbra, mas beneficiado com a presença e ajuda duma esposa exemplar, lançou–se ao trabalho com a coragem e determinação de um pioneiro do antiga­mente. Daquele distrito fronteiriço — ele só maior que todo o Portugal europeu mas reduzido a uma população de quarenta mil habitantes — fez a grande obra e a grande razão da sua vida.
Abriu escolas, reparou caminhos, criou milícias de auto-defesa. Na antiga povoação, em que avultavam as ruínas de igrejas e conventos, construiu uma cidade nova, progressiva, acolhedora e confortável.
Espalhou fontenárïos por todos os aldeamentos e tinha uma jus­tificada vaidade nos seus «blocos de água», pequenas construções de 6×16 metros que incluíam o lavadouro de roupa, balneários de chuveiro e instalações sanitárias, segundo um critério de concentração comuni­tária que seria excelente solução para muitas aldeias da Metrópole Portuguesa.
No plano escolar, fervorosamente apoiado pelo dr. Pinheiro da Silva, então secretário provincial da Educação, conseguiu também uma admirável colaboração das populações, ávidas de progresso. As primeiras escolas foram construídas pelos pais dos futuros alunos, apenas com a ajuda de uns sacos de cimento, algumas caixilharias e o zinco para a cobertura. E as crianças levavam de casa os banquitos de fabrico gentí­lico em que se sentavam.
Mas, com tão humildes princípios, ao abrir de 1974, aquele era o primeiro distrito angolano a atingir a escolaridade de cem por cento. Todas as crianças daquela vasta área tinham a sua escola. E, agora, em belos edifícios de alvenaria, com várias salas de aula, boas instalações sanitárias, posto de enfermagem e casa para os professores.
Em todas as aldeias havia os famosos «blocos de água» e algumas casas do tipo europeu, construidas pelos nativos, com boas condições de habitabilidade. Também começava a surgir, entre os naturais da terra, a classe média com alfaiates, pedreiros, marceneiros e comerciantes, alguns deles donos e gerentes de bons estabelecimentos comerciais onde não faltavam o balcão frigorífico, a máquina registadora, o quintalão para os batuques de fim de semana e a instalação sonora para a música de discos a chamar a freguesia.
Dominado pela sua grande ânsia de realizar, o governador percorria incessantemente as terras da sua administração. De avião, de jipe ou a pé. Com um entusiasmo que não deixava de crescer. Com uma perseverança que não cedia ao cansaço. Com a íntima alegriade ser útil a todos, realizando-se a si próprio, enquanto lá longe, na saudosa Coimbra dos seus tempos de rapaz, a filha única se preparava para continuar a tradição laboriosa de seus pais.
Foi saneado logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. E não tardou muito que fosse expulso do exército, sob a acusação de fascista e reaccionário.
— Que será de nós, agora? — perguntou-lhe a mulher.
— Temos de sobreviver, por causa da nossa filha.
— E como vamos mandar-lhe a mesada?
— Ainda temos algum dinheiro…
Mas o dinheiro era pouco e acabou-se depressa.
Velhos amigos conseguiram-lhe então um emprego numa grande companhia. Isso deu-lhe um certo alento, que não durou muito. E não durou muito porque o emprego era quase nada para a sua enorme capa­cidade de trabalho. Como todas as actividades em Angola, depois do 25 de Abril, também as daquela empresa esmoreciam e se degradavam. E ele passava a maior parte do tempo a ler os jornais da Metrópole, que raivosamente, numa espécie de fúria destruidora, atacavam todos os por­tugueses do Ultramar, acusando-os de explorar os pretos, classificando–os de colonialistas e ladrões, cumulando-os de insultos e calúnias.
Depois veio a declaração do general Spínola, reconhecendo o direito de Angola à autodeterminação e à independência.
O ex-governador tornou-se amargo e taciturno. Não compreendia os novos tempos. Todo o seu mundo se desmoronava. Os seus melhores amigos tinham sido saneados, presos ou escorraçados. Não encontrava qualquer estímulo no ridículo trabalho do seu novo emprego, que lhe sabia a esmola. Havia dias em que não fazia nada. Isolava-se num mutismo obstinado. Mal respondia à mulher que, adivinhando o seu drama interior, tentava despertá-lo com perguntas, com referências à filha, com suges­tões para o futuro.
— Não dizes nada, querido?
— Que hei-de eu dizer?
— Precisamos de  ganhar  coragem — e o  silêncio é  depressivo.
— Tudo é depressivo nesta hora de abdicação.
— Porque usas tão feia palavra? Lembra-te de que temos uma filha!
— Se lembro…
E voltava ao silêncio, cada vez mais sucumbido.
Quando Rosa Coutinho chegou a Luanda, como presidente da Junta Governativa, a que alguns chamaram o «Quinteto de Cordas», o ex-governador não quis almoçar.
— Não comes?! — admirou-se a mulher.
— Não tenho apetite.
— Precisas de te alimentar…
— Já não preciso de nada.
— Conheces esse almirante?
— Conheço: foi bem escolhido para coveiro de Angola.
— Porque és tão pessimista?
— Há alguma razão para optimismos?!…
Os dias foram passando. Soube-se que os guerrilheiros da FNLA estavam a ocupar todo o Norte de Angola, que as nossas tropas abando­navam por ordem do almirante vermelho.
— Malvado! — rugia o ex-coronel do exército português com uma raiva concentrada.
Passava agora dias sem comer. Apenas fumava cigarros, acesos uns nos outros. Era cada vez mais difícil arrancar-lhe uma palavra.
— Estás doente? — quis saber a mulher, preocupada e compa­decida.
— Não.
— Porque não vais à Companhia?
— Não vale a pena.
— Não gosto de te ouvir falar assim — disse a mulher, tentando animá-lo. — Já passámos coisas piores… Lembras-te daquela emboscada no caminho para Noqui, entre a pista de aviação e a vila, quando tivemos de nos atirar para a valeta?
— Lembro.
— E escapámos vivos!
— Era aí que eu devia ter morrido… para não assistir a toda esta desgraça…
— Ouve…
Mas ele fugiu para o seu pequeno escritório e fechou a porta por dentro.
Uma hora mais tarde, ouviram-se dois tiros seguidos. Aos gritos da mulher apavorada acudiram os vizinhos, arrombaram a porta e foram encontrar o ex-governador com a cabeça esfacelada pelas balas da sua pistola de oficial do exército português.
            A cabeça tombara direita, de queixo  apoiado contra o tampo da secretária. E os seus olhos, que ainda ninguém fechara, pareciam fitar o retraio da filha, colocado à sua frente, ao lado da flâmula do seu distrito…
Lisboa, Junho de 1975 12.3
 — Bilhete de Identidade
Naquele sábado de Fevereiro de 1974, o calor tórrido que asfixiava a cidade moçambicana da Beira não lograva entrada no bonito living da moradia dos Vouzelas, situada bem perto da catedral erguida há meio século pelo missionário franciscano, padre Rafael, que mais tarde, já bispo, projectou também a nova Catedral de Lourenço Marques, deixando a alegria da inauguração ao seu sucessor, cardeal Teodósio Gouveia. Uma boa instalação de ar condicionado, bem afinado pelo dono da casa que era engenheiroelectrotécnico, assegurava um clima deliciosamente primaveril: 22 graus.
No entardecer, negras e pesadas nuvens acastelavam-se para os lados do farol, a anunciar uma dessas trovoadas da -estação das chuvas, que desabam sobre a cidade com a raiva feroz dum bombardeamento de artilharia pesada. E havia, naquela vivenda de meio luxo, uma visita: o padre Anselmo, que pertencia a uma congregação espanhola e, dias antes, tinha provocado um certo escândalo, impedindo que um grupo de escuteiros entrasse na sua igreja com a Bandeira Portuguesa. Era mesmo disso que se falava.
— A igreja não deve servir para manifestações políticas — afir­mava o missionário.
— Desculpe, senhor padre — interveio a senhora D. Guilhermïna Vouzela —, mas não se tratava de nenhuma manifestação política. É um velho costume dos escuteiros levarem a Bandeira Nacional, quando assis­tem à missa em grupo fardado.
— Os maus costumes corrigem-se — sentenciou severamente o padre Anselmo.
— Não vejo onde está o mau costume — teimou a dona da casa. — A Bandeira é um símbolo do nosso povo; e ao incliná-la no momento da elevação da Sagrada Hóstia, os escuteiros apenas exprimem o preito cristão de Portugal.
— Não é com gestos desses que se presta culto ao Deus de todos os homens — argumentou o padre. — Neste momento, há que respeitar os legítimos melindres do povo moçambicano…
— Moçambique é Portugal — declarou o engenheiro Vousela com certa energia.
— Nem todos assim pensam — lembrou o padre Anselmo. — E um missionário católico tem de atender a todos.
— Mesmo aos terroristas? — lançou o engenheiro com intenção.
— A que chama o senhor de terroristas? — contra-atacou o missio­nário. — Todos os povos têm direito à autodeterminação. E, perante o espanto do casal, acrescentou:
— Eu sei que já me consideram um adepto da Frelimo. Sei ao que me arrisco, quando afirmo que os portugueses estão a fazer uma guerra injusta. Mas o meu lugar é ao lado dos humildes e oprimidos…
Pouco depois da independência de Moçambique, Samora M achei começou a atacar a igreja católica, acusando-a de ter sido o suporte do colonialismo português. O padre Anselmo reagiu corajosamente numa das suas homilias. E recebeu uma intimação para abandonar o país no prazo de quarenta e oito horas.
Meses mais tarde, em fins de Outubro de 1975, foi ao aeroporto de Lisboa esperar um colega, que também regressava após muitos sofri­mentos e perseguições.
Mas o avião vinha atrasado e o padre Anselmo foi caminhando ao longo daquele parque de sucata humana, que então era o salão onde os refugiados do Ultramar Português aguardavam que lhes dessem destino.
Viu as crianças emagrecidas pela fome, famílias inteiras de guarda aos miseráveis salvados das economias de muitos anos de trabalho, mulheres dormitando abraçadas aos filhos pequeninos, homens de barba crescida olhando no vago, como que perdidos de si e do mundo — apenas uma pequena amostra da chamada descolonização exemplar. E nem se atrevia a tentar palavras de consolação naquela caverna de desespero quando, de repente, parou diante duma pobre mulher que tiritava no seu vestido de tobralco leve. Estava sozinha, silenciosa, com o rosto pálido apoiado nas mãos calejadas e de unhas sujas. Encontrou os seus olhos em que brilhava um lume de loucura. E avançou para ela, de mãos estendidas:
— Que grande surpresa, minha senhora! Mas ela recuou,
como perante um inimigo…
— O senhor padre está enganado: eu já não sou quem julga…
— Mas não é a esposa do sr. eng.° Vousela, a senhora Dona Guilhermina Vousela?!
— Não senhor.
— Quem é, então?
A interpelada fitou-o durante longos segundos; pareceu decidida a não dar qualquer resposta; mas, finalmente, tirou do seio um cartão manchado de suor e, oferecendo-o na mão estendida, intimou bruscamente:
— Leia!
           O missionário aceitou  o  documento  e leu-o. Era  um  bilhete de identidade passado pela Frelimo e dizia: «Guilhermïna Vousela — prostituta»
— Não é verdade! — balbuciou o missionário, estarrecido.
— É verdade, senhor padre; é inteiramente verdade, porque também me obrigaram a exercer a profissão. Não só com um ou dois homens, mas com todos os soldados dum quartel da Beira…
E como o sacerdote parecia interdito, com os lábios entreabertos sem lograr proferir palavra, aquela pobre mulher teve para ele uma espécie de sorriso de compaixão e perguntou-lhe:
— O senhor padre sempre era mesmo filiado na Frelimo?
— Para que o deseja saber?…
            — Para lhe agradecer a sua boa colaboração nisto a que cheguei…
— Ó minha senhora!…
— Já lhe disse que deixei de ser uma senhora! — gritou ela com raiva. E logo, dominando a voz até um sussurro trágico e terrível, continuou:
— Eu agora sou prostituta, senhor padre. Pros-ti-tu-ta! Mas deixe-me em paz, porque hoje não estou de serviço…
Atingido em pleno rosto pela tremenda chicotada, sentindo-se alvo dois olhares acusadores dos refugiados que assistiam à cena incrível, o padre Anselmo começou a afastar-se lentamente, cheio de pena, de arrependimento, de amargura e de remorso…
12.4 — Desempregado
Saiu, de olhos em brasa,
fugiu!
Fugiu de casa
e dos olhos famintos de seus filhos,
tão tristes, maltrapilhos…
Fugiu!
 À soleira da porta,
a mulher assistiu,
calada,
resignada,
como gelada e morta.
Não gritou.
Não chorou.
Não disse nada.
Assistiu
e ficou.
Era a hora febril do movimento,
quando abrem as lojas e os operários
desfilam, prisioneiros dos horários,
que os mandam trabalhar…
Triste como um suspiro
nas vagas do tormento,
aquele homem pensou:
«Já nada valho!
Nem o pão do meu lar,
nem o dom do trabalho,
nem o ar que respiro!
Grande inútil que eu sou!…»
Aos bordos pela rua,
caminhava de insólita maneira,
como um tonto…
E as mocinhas airosas, sorridentes,
e  os  marçanos passando, diligentes,
olhavam-no, sorriam e diziam:
«Vai na lua!
Que grande bebedeira!»
E pronto!
Vinha ao longe um Packard,
um Packard de alto preço,
enorme, niquelado, rebrilhante…
E, então, o homem murmurou baixinho:
«Eis o progresso!
Eis a vida que passa e eu não mereço!
Grande imbecil que eu sou!
Então, porque caminho?»
e parou.
O progresso passou. Um grito alucinante …e para sempre o honrem se calou.
À soleira da porta,
a mulher daquele homem que morreu,
calada, resignada
como um triste animal
a quem já nada importa,
sentiu-se de repente muito mal…
• E dentro do seu ventre estremeceu o derradeiro filho do casal…
Escrevi estes versos há 24 anos, numa fase cruel de desemprego.
Volto a senti-los com redobrada amargura; porque mais uma vez ando à procura de emprego, agora mais velho, mais cansado, mais desiludido.
Respondi a alguns anúncios e ninguém me chamou, neste pequeno Portugal, onde há mais de meio milhão de desempregados e eu não tenho diploma de antifascista.
Escrevi a amigos do Brasil. Esse grande coração, que é o deputado Cunha Bueno, respondeu-me que fosse, que estaria à minha espera, mas emprego imediato não podia garantir. Considerei que não devia arriscar os meus últimos escudos na viagem, deixando a família às portas da fome, e não embarquei.
Por isso, neste frio Outono de 1976, continuo agarrado às apodreci­das tábuas desta jangada de náufragos. E venho agora de Algés, enchar­cado até aos ossos pela maior carga de água, que ainda vi cair em Por­tugal após o meu regresso de Angola.
Prometi esperar ali, na paragem dos autocarros, em frente do super­mercado «Expresso», – um amigo que me falou na eventual idade de algumas aulas num colégio particular.
Tenho alvará para todas as disciplinas do antigo Curso Comple­mentar de Letras. Ensinei-as em Angola, durante muitos anos, a brancos, pretos e mestiços, incluindo a alguns dos actuais governantes de Luanda.
Saía do meu modesto emprego na Câmara Municipal, onde comecei com o salário mensal de 1200SOO, e dava aulas, das 17.30 às 19.30 horas, no Colégio-Liceu D. João II. Depois ia jantar a casa (ao cirno da Rua Mouzinho de Albuquerque, já perto do Cemitério do Alto das Cruzes) e voltava ao mesmo colégio, para outras duas aulas, das 21 às 23 horas. Nestas andanças o meu percurso diário (sempre a pé) nunca -era inferior a dez quilómetros.
Da Câmara Municipal transitei para a Junta de Exportação e, mais tarde, para a Companhia de Petróleos de Angola. Mas sempre, ao horário da minha actividade principal acrescentei o ensino e uma assídua cola­boração para o jornal A Província de Angola. E ainda consegui arranjar tempo para publicar duas dúzias de livros, quase todos de temática ango­lana. Posso afirmar sem receio de exagero, que, ao longo de 38 anos vividos no que então era a maior província de Portugal, trabalhei sempre à cadência de 12 horas por dia.
Agora, nisto que resta de Portugal, com todo o tempo livre e tanta comédia e tragédia à minha volta, vivo numa tensão angustiada que me não deixa escrever mais do que lamúrias de homem findo. Tenho o espírito ressequido como as vides cortadas da cepa e abandonadas às neves do Inverno.
Sei que esta terrível inibição só me passará, quando puder contar com algum salário certo ao fim do mês, que afaste da porta de minha casa a raivosa cadela da fome. Por isso aguentei a pé firme a bruta chu­vada desta tarde, junto à paragem dos autocarros, em Algés.
Uma ou duas vezes, quando as cordas da água tocadas pelo vento me vergastavam com mais fúria, ainda corri a abrigar-me no alpendre do supermercado. Mas logo voltava à paragem, não fosse o meu amigo passar sem me ver.
Nesta cisma, acabei por não mais sair do combinado local de encon­tro, numa espécie de raivoso desafio à chuva, que já me não podia molhar mais do que estava. O que estava era mais fria, a malvada! Vinha oblí­qua contra mim, em bátegas geladas e fustigantes como um duche para loucos.
Louco, eu ainda não estava. Estava só profundamente infeliz. Refor­mado sem reforma (que também a pensão de reforma me detiveram em Luanda pelo crime de não ser comunista), preciso aflitivamente de tra­balhar. Para ganhar o pão de cada dia, meu e da família, e para recuperar a confiança em mim próprio.
E ali me via perdido nos arredores da grande Lisboa, abandonado e gelado no meio duma chuva de temporal, já convencido de que o meu amigo se esquecera do combinado.
Afinal, o meu amigo chegou, mas para me dizer que a vaga de filo­sofia, em que pensara, já estava preenchida.
— Porque não vai você ao FRAUL? — acrescentou, ao ler-me nos olhos o reflexo inconfundível das grandes amarguras. — Não conhece o dr. Joaquim Mendes?
— Pertencemos ambos à Assembleia Legislativa e trabalhámos juntos na Comissão de Redacção e Legislação…
— Pois, então, procure-o. Ele está a lutar bravamente pelos que vieram do Ultramar.
Talvez vá falar com esse colega nos trabalhos dum pequeno par­lamento angolano, onde ambos nos batemos pela resolução dos problemas de uma Angola em progresso espectacular.
Talvez vá e talvez não vá…
Vivo numa hora de grande depressão e profunda angústia. Sinto-me sem iniciativa e sem coragem. Sinto, acima de tudo, que os responsáveis pela desgraça que atingiu doze milhões de brancos, pretos e mestiços do Ultramar português, e condenou à fome as populações deste pequeno rectângulo europeu, e destruiu completamente esta Pátria quase milenar — esses ignóbeis traidores não podem ficar impunes.
           Pela minha parte, estou velho e cansado. Apetece-me desistir desta luta e mandar tudo e todos para o inferno. Trabalhei em Angola durante cerca de quarenta anos, à cadência de 12 horas por dia. Utilizei as minhas horas de descanso a ensinar angolanos de todas as cores. Publiquei duas dúzias de livros, quase todos sobre temas de Angola. Defendi essa terra o melhor que soube e pude, porque sempre previ que a independência de Angola sob o signo da ONU daria o resultado que hoje está à vista de todos. Investi em Luanda tudo o que lá ganhei, mais o produto de uma pequena herança e até algum dinheiro dos meus vencimentos de férias.
E aqui ando agora, nesta bonita e preguiçosa Lisboa, à procura de um emprego em que ganhe que bonde para o pão de cada dia, meu e da minha família.
Mas não há nesta terra, um emprego para mim. E os que entregaram a russos e cubanos, entre biliões de contos de valores portugueses de Angola, todas as minhas economias de quarenta anos de trabalho, dizem que fui um «explorador».
É-me muito bem feito!
Lisboa, Novembro de 1976.
12.5 — O começo e o fim
Era a mais nova de uma família de oito filhos: três rapazes e cinco raparigas, sem contar com os dois rapazes que não vingaram nos três primeiros meses de vida.
Já não conheceu o pai, que morreu quarenta e sete dias antes de ela nascer. Por isso mesmo, a tia Adélia, bem casada e apenas com duas meninas, uma delas já crescidota, teve pena da irmã viúva e ofe­receu-se para tomar conta da sobrinha caçula, logo que estivesse des­mamada.
Aos dezassete anos, contra a vontade de toda a família, casou com o Chico Monteiro e nenhum deles descansou enquanto não embarcaram para Luanda, onde ela tinha um irmão bem colocado, embora honesto demais para estar rico, e do género complicadinho nisto de abrir caminho à família. Mas a verdade é que os recebeu em sua casa e os ajudou a demarcar 500 hectares de boa terra de café, nas margens do rio Luége, a poucos quilómetros da vila do Quitexe.
Para lá partiu o marido, logo que pôde, com o desígnio de erguer uma casita, onde o casal se pudesse juntar a breve prazo, com o filho mais novo e a primeira filha, que já andava na escola infantil.
Talvez porque fosse fácil de contentar com tudo, menos com a prolongada ausência da mulher, o Chico Monteiro não tardou muito a escrever que já tinham casa e que ela podia partir.
— Eu, por mim, vou no primeiro transporte que me leve para aque­las bandas — disse ela ao irmão. — Mas, antes de levar os filhos, gostava de ver primeiro como é…
— Claro que não deves levar os filhos por enquanto — aconselhou ele. — Nem tu precisas de ir, enquanto lá não tiveres aceitáveis condi­ções de vida. Ou não te sentes bem nesta casa?…
— Bem sabes que me sinto bem em tua casa — declarou ela em tom de ofendida com a insinuação. — Mas o meu lugar é junto de meu marido, principalmente agora que nos vamos meter na aventura do café. Quanto aos miúdos, vou deixar-tos ainda algum tempo, se não te importas. Mais tarde, venho buscá-los…
— Mais tarde poderás levar o pequenito — rectificou o irmão. — Não te esqueças de que a menina já anda na escola. E, que me conste, não há disso perto da tua chitaca…
— É verdade! — murmurou ela — Há a questão da escola…
— Não há questão nenhuma — decidiu o dono da casa. — Tu vais quando quiseres, porque teu marido tem todo o direito de te querer junto dele. Quando te sentires verdadeiramente instalada, vens buscar o Carlitos. E a Ló vive connosco durante as aulas e vai passar as férias com os pais. Certo?
— Tem de ser… — disse ela no seu modo resignado.
Partiu para a chitaca ao amanhecer de um dia de meados de Janeiro, na carrinha do sr. Anacleto, que também tinha uma demarcação à beira do Luége. E dois meses mais tarde, voltou, para levar com ela o filho mais novo.
— Então, que tal a casa? — perguntou-lhe a cunhada.
— É uma cubatita — respondeu ela, passando logo a falar de outra coisa.
Mas a cunhada não ligou importância à definição. Na Luanda de 1955, até os ricos moradores do Bairro do Café gostavam de chamar cubatas às suas luxuosas vivendas…
Decorreram outros meses. E, numa tarde morrinhenta de cacimbo, a Ló veio da Escola Infantil no grande automóvel dum médico que também lá trazia uma das filhas. Ao entregar a menina, perguntou ao tio dela se sabia como estava a viver a irmã naqueles sertões do Uíge.
— Sei que teimaram em embarcar na aventura de começar uma plantação de café, a uns vinte quilómetros do Quitexe, sem um pataco de economias. O Chico partiu primeiro, para construir uma casita…
— Sabe como é essa casita?
— ?!
            — É uma cubata, meu amigo, uma cubata tão miserável    como a do  preto mais matumbo! — informou o médico, quase a gritar. — Sua irmã está a viver em condições incríveis. Cose pão e cria galinhas para os pretos. Faz costura para os pretos. Trabalha mais do que o preto mais trabalhador daquela área. Ela e o marido agarram-se a tudo para sobre­viver, enquanto não colhem os primeiros sacos de café. E eu compreen­do-os… Mas olhe que sua irmã e o menino… enfim: o meu amigo lá sabe…
— Eu não sabia nada do que me está a contar. Meu cunhado escre­veu a dizer que já tinham casa. Pensei que fosse coisa capaz. Vivi sempre em Luanda, mas dizem-me que lá para o Uíge, com a alta do café, já se não vive mal…
          — Vá ver! — recomendou o médico, quase zangado. E ele foi. E,  depois  de observar toda aquela  miséria, desatou  a berrar com o cunhado:
— Então, é a isto que você chama casa?!
— Foi o que pude construir com as minhas próprias mãos, traba­lhando de dia e de noite.
— Porque não contratou um pedreiro?
— Porque não tinha com que lhe pagar.
— Pedia um empréstimo…
— A quem?! Eu sei que a você também lhe não sobra…
— Minha irmã e o pequenito estavam debaixo de telha. Deixava-os estar onde estavam, enquanto não tivesse aqui melhores condições de vida.
— E eu?! — fez o homem com um riso amargo — Acha que se pode viver muito tempo nestes ermos, sem a companhia da mulher com quem casámos?!…
O visitante ficou de olhos arregalados, sem resposta a dar.
E, precisamente nesse momento, a irmã chamava para o almoço, que era no chamado «salão nobre»: uma rica sombra debaixo de uma frondosa mulemba que era o principal apoio da cubata.
No meio de toda aquela pobreza, a caldeirada de cabrito estava de gritos. E o Paulo (assim se chamava o cunhado do Chico Monteiro) reparou que a irmã acudia pelo marido e não tinha perdido o seu feitio alegre.
— Deixa lá, que já foi pior! — disse ela para o irmão. — Nas últimas chuvas, esta palhota metia água por todos os lados. Fazia frio de gelar. E um dia, ao levantar-me, apanhei um susto danado: ao pé da cama do menino, encontrei uma cobra enrolada dentro das botas do pai. Nem quero que me lembre!…
— Voltas comigo para minha casa — decidiu o Paulo.
— Não volto nada. O meu lugar é aqui.
— Nesse caso, levo ao menos o menino.
— O menino ainda precisa dos cuidados da mãe. E, como disse, o pior já passou. Pena foi que não trouxesses a Ló, para a vermos…
— Não cabia no carro do Machado, em que vim. E, com toda a franqueza, também não quis que se afligisse com a miséria em que vivem os pais.
— É assim que têm começado quase todos os pequenos agricultores em Angola — disse o Chico Monteiro, saindo do seu mutismo. — Daqui a dois anos já colheremos os nossos primeiros sacos de café.
E essa primeira colheita chegou. E outras lhe sucederam, cada vez maiores. A cubata de pau-a-pique e cobertura de capim foi substituída por uma casa de alvenaria, ampla e confortável.
Já viviam bem quando, em Março de 1961, fugiram a tempo para Luanda, antes que os turras lhe ocupassem a fazenda, já com uma produ­ção de mais de cem sacos de café por ano.
O Chico Monteiro voltou ao que era seu, logo que a tropa completou a reocupação daquela área. Mas sua mulher passou então a viver em Luanda, para que os filhos pudessem estudar.
Alguns anos mais tarde, o Chico Monteiro morreu. Mas a família continuou sem dificuldades, porque a fazenda, mesmo arrendada, dava amplamente para todos viverem bem. Toda a Angola estava num pro­gresso espectacular, que naturalmente se reflectia nos seus habitantes.
E veio o que ninguém podia imaginar, nem admitir, nem conceber: — veio a traição de alguns portugueses, que sabiam que a vitória estava à vista e receberam de estrangeiros a infame tarefa de a evitar…
Aquela mulher, ainda nova e já com netos, teve de regressar a Lisboa, só com a roupa que trazia vestida.
Desta vez, a sua estupenda alegria não resistiu ao vendaval terrí­vel da maior tragédia de toda a história de Portugal.
E vive agora por aí, sabe Deus como, triste e apagada como a lareira de uma casa que ruiu.
Quase não come. Quase não fala. Quando tentam acalmá-la ou simplesmente lhe perguntam como tem passado, fica de olhos no longe, a olhar para ontem, talvez a pensar na sua fazenda de café afogada pelo capim…  E,  misturando português e  quimbundo,  como outrora na sua chitaca de à-beira-Luége, murmura em voz sumida, sibilada, raivosa: — Capitãezinhos da tuge!…
Lisboa, Abril de 1976 12.6 — O grande «espada»
Foi uma espantação, quando entrei na Rua de S. Luís, pilotando um grande «espada» que não tem igual na Metrópole.
É um Corvette-Stingway dos mais Luxuosos e egoístas, porque só tem dois lugares. Com os inconvenientes da sua legenda de rico para um homem repentinamente esbulhado de todas as economias de longos anos de trabalho, tem uma vantagem muito apreciável nestes tempos de olho vê, pé vai e mão pilha: não é fácil de roubar.
E não só porque a chave de ignição bloqueia o volante, como acon­tece em muitos outros carros: é principalmente porque a sua aparelha­gem electrónica inclui vários dispositivos de segurança que só os inicia­dos sabem manobrar. Quem os não conheça não consegue nada deste automóvel.
De que me serve agora, que não tenho dinheiro para a gasolina?
Pois serve para demonstrar a mim próprio que não tenho culpa da miséria que me acontece. E por isso é agora que mais gosto dele. Quando o comprei podia comprá-lo. E paguei-o a pronto.
Embarquei para Angola com umas centenas de escudos na carteira. Mas encontrei aquela terra na fase do após-guerra, quando o governador Silva Carvalho ali iniciava uma época de grande progresso.
Comecei como caixeiro viajante da firma Cirilo & Irmão. Era solteiro e recatado; vivia com o mínimo possível e economizei quanto pude. Percorri Angola inteira, dormi muita vez na estrada dentro de viaturas atoladas na lama, andei muitos quilómetros a pé, de noite e através do capim, com milhares de mosquitos a fartarem-se do meu sangue.
Quando o meu depósito no Banco de Angola atingiu os cinquenta contos, arranjei umas representações, despedi-me da firma e passei a trabalhar ainda mais. Durante o dia, fazia o giro dos clientes, quase sem­pre a butes e às vezes de machibombo, porque ainda não podia pensar nem mesmo num desses feios Volkswagens que então começavam a aparecer em Luanda e se vendiam a 30 contos, se a memória me não falha.
Aos trinta anos casei com uma boa moça, que me saiu companheira fiel e dona de casa como já se não fabricam. Dois anos mais tarde montei a minha primeira lojeca de acessórios de automóvel. Acertei no negócio porque, logo a seguir, começou a crescerrapidamente o parque automó­vel da província. E eu não tinha mãos a medir…
Em pagamento de uma dívida, recebi uns terrenos, à razão de 4$00 por metro quadrado. Vendi-os cinco anos mais tarde, a 200SOO, quando ali se começaram a construir as primeiras vivendas do Bairro de Alvalade. E comprei o meu primeiro carrito: umCônsul com 25 mil quilómetros que era o carro de serviço do gerente da Robert Hudson. E também se começou a beber vinho em minha casa.
Daí para a frente eu estava lançado e tudo passou a correr sobre esferas. Sempre fui sério nos meus negócios, mas ganhei muito dinheiro. Construí uma boa moradia no Bairro de Alvalade, junto da piscina e fiz outra compra de terrenos, também muito feliz.
Ao abrir de 1974, a compra do Corvette já foi para mim uma coisa trivial. Tinha um negócio próspero, pessoal bom a quem pagava muito bem e um confortável depósito bancário. Bebia uísque Whíte Horse, adorava as gambas grelhadas do Clube Naval e julgava-me com um futuro completamente assegurado.
Enganava-me redondamente, porque os salteadores da descolonização exemplar já estavam ao virar da esquina…
Deu-se a catástrofe, fartei-me de jurar que não saía de Angola, mas os factos são mais fortes do que as palavras e tive de fugir, como tantos outros. De tudo o que era meu e já valia para cima de cem mil contos, salvei o Corvette.
A primeira vez que o encostei ao passeio, ali na Rua de S. Luís, em Oeiras, quando aqui cheguei e andava à procura de qualquer buraco onde me meter com a família, logo ouvi um tipo de barbas, que rosnava:
— Fascista!…
— Isso é comigo? — perguntei.
— Com quem há-de ser?
— Então vá bardamerda. Já!
E ele foi, porque logo se esgueirou por um carreiro de emergência, que vai dar à sub-estação de energia eléctrica.
Fui sempre um homem paciente mas, talvez por isso mesmo, acabou-se-me a reserva de paciência. Coragem para a vida, ainda tenho, porque não aceito morrer de fome. Mas já não consigo tolerar certas gracinhas de quem nos pretende julgar, a nós, refugiados, sem conhecer patavina do que foi a nossa vida em Angola. Nem sequer sabem que estão a caminho da fome, agora que já não existe o Ultramar para ires acudir com ajudas de toda a espécie. Mas não tardará muito que o apren­dam à sua custa…
Quem me conheceu nos últimos tempos de Angola, pasma de me ver servir à mesa, neste pequeno snack-bar em que me aventurei com alguns amigos. Pasmam, porque me conheceram já no tempo das vacas gordas. Ao princípio, também nessa vasta terracumpri tarefas ainda mais duras.
O trabalho nunca é vergonha. E nesta fileira de estabelecimentos, os homens que ajudaram a construir a Angola moderna e lá deixaram tanta coisa feita, não podem envergonhar-se dos calos nas mãos.
Mas não gostamos que nos humilhem. Não aceitamos lições de gente que se gasta em comícios, greves e plenários. Ainda hoje, um destes calcinhas, presumidos de espertalhões, me ia fazendo perder a calma.
Sentou-se a uma das mesas a pedir um copo de cerveja com um prego no pão.
Servi-o como podia, enquanto ele circundava os olhos pelo estabele­cimento, com ares de apreciador.
— Isto é novo, não é? — perguntou ao cabo da inspecção.
— Abrimos há três dias.
— Não está mau — sentenciou com superioridade. — Sabe de quem é aquele estupendo «espada» estacionado ali na S. Luís?
— É meu.
— É seu?! — gritou de puro espanto.
— Foi a única coisa que trouxe de Angola e está à venda…
— Quanto custa?
— O que me custou: 750 contos.
— A prestações, dou-lhe 75.
— E eu dou-lhe dois murros no focinho, se continua a escarnecer da desgraça!
Os meus olhos deviam chispar lume, porque o malandrote recuou, ergueu-se e tentou fugir. Mas eu deitei-lhe mão rija ao braço franzino.
— Calma, meu filho! Tem de pagar primeiro… E o homem  pagou, tão trémulo  de  medo,  que acabei por  sentir pena dele.
Porque ando assim tão irritadiço?!…
Junho de 1975.
12.7 — Cícero e a velha Senhora
Qualquer pessoa de média cultura conhece aquela famosa impreca­ção do Cícero: «quousque tandem, Catilirta, abuteris patientia nostra?» — até quando Catilina, abusarás da nossa paciência?
Mas não é essa a passagem mais impressionante dessa espantosa intervenção no Senado Romano. Depois de enfrentar assim um dos ho­mens mais poderosos de Roma, o grande orador desmascarou toda a manobra conspiratória e, ao terminar o seu tremendo libelo acusatório, apontou para o conspirador um dedo minaz e, virando-se para os sena­dores, com a face irada e a voz trovejante, bradou:
«E esse homem teve o atrevimento de entrar nesta Casa dos Defensores do Povo Romano. Está no meio de nós, como o lobo entre cordeiros. Nas cavernas do seu cérebro criminoso, já congemina os pormenores da sua negra traição? Por debaixo da toga, aperta o punhal ávido do nosso sangue.
«Esse homem está neste Senado. E está vivo!»
Isto passou-se há mais de dois mil anos, no ambiente austero do Senado Romano.
Há duas semanas, um amigo recebeu de Maputo (ex-Lourenço Marques) um apelo aflitivo de certa senhora, sua conhecida: «Que fosse esperá-la ao Aeroporto de Lisboa, no dia tantos de tal, à hora da chegada do avião dos TAP, pois viajava sem um tostão».
O meu amigo foi ao Aeroporto no seu grande carro Ford, esperou duas horas pelo avião, que chegava atrasado, conseguiu encontrar a sua conhecida de Lourenço Marques e deu-lhe alimentação e alojamento em casa de sua família, na formosa vila de Oeïras.
Dias mais tarde, passava eu, a pé e debaixo de chuva, para apanhar o comboio, quando esse meu bom vizinho me ofereceu boleia no seu automóvel.
Entrei e deparei com uma velhinha, magra e pequena, de fino rosto apergaminhado, que deveria ter sido muito belo na juventude.
— A senhora Dona X…, de quem lhe falei há dias — apresentou o vizinho, com simplicidade.
— Como estão as coisas em Moçambique? — perguntei depois, já com o Ford a rodar nas proximidades do Estádio do Jamor.
— Muito mal! — disse ela. — Eu consegui fugir…
— A senhora fugiu?
— Exactamente. E tive muita sorte. Uma sorte que a maior parte não consegue.
— Conte!
— Desculpe, mas não gosto de falar nisso. É tudo um horror!
— Deixou lá família?
— Deixei, infelizmente. Um filho, recentemente casado, que me ajudou nesta aventura, mas ainda quer ver se pode salvar alguma coisa do que lá tem… Sabe? Eu vim com passagem Beira-Lisboa-Beira.
— Quer dizer que vai regressar a Moçambique?
— Quero dizer que os enganei, àqueles patifes! O Samora Machel quer segurar lá os brancos, para os humilhar e torturar…
— Não será tanto assim… Ele precisa dos brancos.
— Pote não é tanto assim, não: é muito mais do que eu lhe posso dizer, porque há cenas que uma senhora não conta. O presidente da Frelimo, para ele, tem tudo quanto quer e pouco se importa da miséria do povo. A sua grande distracção é humilhar os portugueses que lá fica­ram. Sabe o que ele fez a um médico com quem trabalhou, como ajudante de enfermeiro, antes de -entrar no terrorismo?
— A senhora contará…
— Foi ao hospital e assistiu a toda a operação que esse médico estava a fazer. No fim, depois de levarem o doente, o operador tirou as luvas, desinfectou as mãos e encaminhou-se para o presidente, para o cumprimentar.
— Tu ainda não acabaste o teu serviço! — observou arrogante­mente Samora Machel, conservando as mãos nos bolsos.
— Já  não  tenho hoje  mais operações —  esclareceu o cirurgião.
— Mas ainda não limpaste a sala. Toca a limpar, anda!
«E, enquanto o médico cumpria, esmerando-se naquela tarefa de limpeza como se fosse a mais melindrosa das operações, o Samora malandro ria consoladamente, saboreando o uisque que lhe tinham tra­zido, com rodinhas de lagosta. Mas não riu por muito tempo. O médico, que era então o melhor cirurgião do Hospital Central de Lourenço Marques…»
— De Maputo — emendei eu.
— …Eu digo lá essa porcaria! Para mim, a capital de Moçambique continua a chamar-se Lourenço Marques… Pois, como ia dizendo, ao acabar o tal serviço da limpeza, o cirurgião guardou o balde e o esfregão, voltou-se para o presidente da República Popular de Moçambique e disse-Ihe com toda a calma:
— Repara neste trabalhinho, Machel. E confessa que ficou muito melhor do que no tempo em que tu o fazias!…
           O presidente engasgou-se com a sua golada de uísque, tossiu aflitivamente durante alguns segundos, espirrou moncos e lagosta pelo nariz e só daí a um grande bocado é que desatou a berrar esganicadamente:
— Estás despedido! Ficas já expulso de Moçambique! Tens 24 horas para ir embora!
— Não é preciso tanto tempo — respondeu-lhe o branco com um riso escarninho. — Já tenho a mala feita.
«E o bandido amouchou — concluiu a velha senhora, com ar de grande satisfação».
— Mas isso aconteceu mesmo? — perguntei, só para a continuar a ouvir.
— Claro que sim — confirmou quase ofendida. — Contou-mo quem assistiu. E acontece muito pior. O senhor sabe que as mulheres brancas são obrigadas a trabalhar, de seios nus, nas «machambas» do povo? O senhor sabe quantas foram arroladas como prostitutas, apesar de casa­das e irrepreensíveis? O senhor sabe…
— Deixe lá, minha senhora! — aconselhei, notando a sua crescente irritação. — Compreendo o seu ressentimento contra essa gente…
— Pois compreende mal — disse ela, aind’3 nervosa. — O meu res­sentimento não é contra os pretos: é contra certos brancos portugueses. Os grandes responsáveis estão aqui, em Portugal!
Caiu entre nós um doloroso silêncio. E já entrávamos em Lisboa, quando ela retomou a palavra:
— Sabe o senhor que nunca fui capaz de matar uma galinha? Não posso ver sangue. Não quero mal a ninguém. Mas agora… Quando penso nesses cobardes, nesses traidores…
— Compreendo — intercalei, tentando acalmá-la. Mas talvez nem me tenha ouvido. Continuou, de olhos perdidos na lonjura de outros horizontes, com uma voz que parecia molhada em fel:
— Estragaram tudo… Bandearam-se com os nossos piores inimi­gos… Ajudaram a matar os seus irmãos e os seus camaradas de armas… Desgraçaram milhões de portugueses brancos, pretos e mulatos… Des­truíram uma grande e nobre nação…
E continuam vivos!…
Assim se repetiu, a dois mil anos de distância no tempo, pela boca de uma velhinha que nunca leu Cícero, a frase mais pungente, proferida pelo maior orador de Roma, antes do nascimento de Cristo.
Lisboa, Fevereiro de 1976.
12.8 — Na Rua de Belém, em Oeiras
Ao findar do ano louco de 1975 — tempo português, quase todo dominado pela perigosa demência de Vasco Gonçalves e da sua «muralha de aço», — começaram a aparecer estranhas criaturas ©m Oeiras, nesta Rua de Belém, que mais parece um pequeno largo.
Agasalhadas em velhas gabardines ou sobretudos antiquados, tossicando sob as agulhas geladas do Inverno que há longos anos desconhe­ciam, caminhavam ao longo do passeio fronteiro às lojas por arrendar. Passeavam num passo curto, rápido e febril, bem batido no chão de para­lelepípedos, não para encurtar distâncias mas somente para aquecer os pés enregelados.
Com o ar inconfundível dos exilados, o rosto amarelento dos impaludados crónicos, os olhos amargos de quem viu o ódio e a morte, pare­ciam possuídos de uma estranha timidez, mantendo-se arredios dos naturais da terra, como elefantes velhos, que se afastam da manada quando sentem a morte próxima.
Mas, com o correr dos dias, começaram a acontecer imprevistos reencontros.
— Você não é o Viegas, de Santa Comba?
— Até ver…
— Ó alma do diabo, então já me não conhece?! Eu sou o Moreira, da Petrangol!
Apertaram-se num abraço à antiga portuguesa, desses que incluem palmadinhas nas costas e repetidas doses de mútua contemplação, com os olhos nos olhos e o rosto iluminado por uma grande satisfação interior.
— Grande sacana, que já nem conheces os amigos! — disse o mais antigo na rua, em benigna reprimenda.
— Já nem a mim me reconheço — ponderou o Viegas, retomando o ar sério.
— Pois é… — concordou o outro, vagamente.— Lixaram-nos ávida… Quando chegaste?
— Anteontem, de manhã.
— E onde estás agora?
— Em casa duns parentes, ali em Porto Salvo. Hoje, meti-me no machibombo…
— Aqui não se diz machibombo — emendou o Moreira.
— Sei lá como se diz! — refilou o recém-chegado. — Meti-me nessa carrinhola e vim cheirar estes sítios, que tenho de pensar no futuro.
— Lixaram-nos a vida — repetiu o Moreira, baixando os olhos para o chão.
— Lixaram toda a gente — ampliou o Viegas — Rebentaram com Portugal!
E, enquanto o>s dois caíam num silêncio confrangido, da loja de pronto a vestir saiu um homem alto e forte, de gabardine quase nova, muito bem engravatado, com o guarda-chuva pendurado no braço esquerdo, como um senhor do antigamente. Avançou resoluto para os dois e, com a mão estendida para os cumprimentos da praxe, afectando grande cerimónia, como um diplomata que exibe as suas credenciais, apresen­tou-se:
— Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e marquês de Pombal…
— O meu primo José Meires — corrigiu serenamente o Moreira. — Este ainda consegue brincar…
— É o melhor que se pode fazer nas presentes circunstâncias — desculpou-se o adventício. — E, muito a sério, bem falta nos faz o mar­quês de Pombal, agora que o terramoto foi muito maior que o de 1755.
— Já não há marquês que nos possa valer. Estamos lançados aos bichos — reforçou o Moreira, compenetradamente. Depois apresentou o parceiro:
— Não conheces o Viegas? Chegou anteontem de Luanda.
— Muito prazer! — fez o Meires, correspondendo ao cumprimento. — Também deu à costa?
— Não tive outro remédio. Angola acabou para os portugueses. Que vão agora para lá os que a venderam aos russos!
— Esses não largam daqui, enquanto se não acabar o ouro da «pesada herança» — afirmou o Meires.
— Bandalhos! — definiu rudemente o Moreira, disparando a palavra como se fosse uma bala.
— «Bandalhos» ainda representa um elogio para os autores de tan­tos crimes — declarou um sujeito de meia idade, que entretanto se aproximara, com uma barbicha rala no queixo magro e o pescoço aba­fado no cachecol de fabrico doméstico. — Venderam-nos como a rezes de talho. Desgraçaram-nos a todos… E eu não aguento este frio!
— Temos de aguentar! — berrou o Viegas com uma bruta patada no empedrado do passeio. — Olhem para estas lojas com escritos!
— Pois olhamos… — disse o que brincava a marquês de Pombal. — Olhamos todos, a pensar no mesmo: arrendar um pedaço de chão coberto, tentar qualquer negócio, recomeçar a vida. Mas  onde está o dinheiro?
— Eu consegui trazer parte do recheio da minha oficina — infor­mou o Viegas.
— E dizem que o IARN concede empréstimos — acrescentou outro.
— Dizem…   —   arremedou   o   Meires,   terrivelmente   escarninho.
— Bem! — declarou o Viegas com certo desabrimento — Se desis­tem de viver, aconselho a ponte Salazar…
— Cautela, desgraçado! — uivou o Meires. — Agora chama-se ponte 25 de Abril…
— Ou isso… — concordou calmamente o invectivado. — Mas seja qual for o seu nome, um saltinho dali para o Tejo resolve tudo em defini­tivo. De acordo?…
Ninguém lhe respondeu.
O grupo foi engrossando com novos «retornados», que acudiam a saber notícias pela boca do último que chegara: um desses bravos camionistas que sabiam de cor todas as estradas de Angola; o guarda–livros de uma grande empresa de Luanda, que magicava na possibilidade de abrir um pequeno restaurante; um agente de viagens de Lourenço Marques, que andava a instalar as estantes para uma papelaria; um casal ainda jovem, que vinha do IARN, onde estivera durante cinco horas, numa bicha de quilómetros, à espera das senhas de alimentação.
E a conversa generalizou-se. Histórias de arrepiar sobre o êxodo de Angola. Ansiosas interrogações sobre o futuro. Palavras de incontível raiva contra os responsáveis pela grande catástrofe…
Decorreu quase um ano. Naquela esquina que era um dos pontos de reunião dos «retornados» da zona, o guarda-livros sempre abriu o seu sonhado restaurante. O dono da papelaria, trabalhando no duro com a mulher e as filhas, revelou-se um mestre na conquista da clientela e já não diz que o negócio não dá para pagar a renda do estabelecimento. O Viegas começou por pequenas reparações nas viaturas dos residentes mais próximos, conseguiu algumas ferramentas a crédito, readquiriu o seu -ar jovial e afirma «que ainda havemos de ensinar a estes calaceirões de Lisboa como é que se trabalha». Na Casa das Ferragens trabalham agora três gerações de brancos nascidos em Moçambique. O Meires está para os lados de Santarém, a tomar conta duma quintarola onde cria coelhos e galinhas. E há também uns chineses vindos de Moçambique que cozinham bons pitéus, e a casa dos churrascos, e o homem da barbicha rala, que era um ricaço em Luanda e agora serve à mesa no seu snack-bar com salão de bilhares anexo.
Na Rua de Belém, à Figueirinha, em Oeiras, já não há nenhuma loja com escritos…